Alo alô, modernidade

Base Aérea de Brasília, começo da noite de 30 de novembro de 1982, minutos antes do pouso do Air Force One, o avião que trazia Ronald Reagan para uma visita ao Presidente João Figueiredo: jornalistas brasileiros usam e abusam da novidade e da fartura dos telefones vermelhos com DDD, espalhados na pista e colocados à sua disposição pelo serviço de imprensa da Casa Branca e do Itamarati.

Interessante como algumas fotografias adquirem características interessantes com o passar do tempo, mesmo não sendo nenhuma maravilha em termos de estética. Ao contrário, adquirem valor pelo seu simples conteúdo. É que, em geral, elas fornecem referências de uma época. Bem o caso dessa aí.

Nesse dia, fiquei reparando a curiosidade dos meus colegas repórteres com tamanha versatilidade de comunicação da época, a maravilha que a tecnologia de então lhes propiciava. Resolvi fazer um clic para, anos depois, compará-la com o avanço dos tempos. E chegou a hora de fazer isto.

Passados trinta e cinco anos, vemos que os telefones vermelhos – exemplo de modernidade naquela distante do início da década de 1980 – são hoje artigo bem raro. Para comprar um deles é necessário consultar a Internet. Aliás, a Internet, que naquele tempo praticamente não existia, pode ser hoje acessada por um dos oito bilhões de aparelhos celulares, os super telefones da atualidade e que naquele tempo ninguém nem podia imaginar viriam existir.

Alo-alo-modernidade

Da série “Prestando atenção no mundo”

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Uma das luxuosas vitrines da Via dei Condotti, em Roma, endereço de lojas de grandes costureiros, estilistas nota dez e marcas famosas, como Gucci, Dolce & Gabana, Prada, Chanel, Dior, Valentino, Ferragamo, Saint-Laurent, Cartier, Louis-Vuitton, Calvin Klein…

À primeira vista, uma vitrine é somente um cantinho enfeitado aonde se expõem produtos à venda. Mas na verdade, revela muito mais que isto. Reflete uma série de facetas da sociedade. Por exemplo, o perfil econômico dos consumidores, a qualidade dos artigos e, no caso da moda, as novidades que as mulheres – especialmente as de carteiras endinheiradas – vão usar em cada estação do ano.

Sempre que viajo para qualquer cidade do Brasil ou do Exterior jamais deixo de fazer uma foto de uma vitrine. Seja Riachão do Bacamarte, Nova Iorque, Miami, Quixeramobim, Cartagena, Cuiabá ou Roma. É curioso comparar as peças oferecidas nas cidadezinhas humildes e sem o requinte das etiquetas famosas com os modelos super sofisticados e preços astronômicos das grandes metrópoles.

Numa passagem pela capital italiana, em 2005, fiz essa foto aí na Via dei Condotti, a rua que reúne as grifes mais chiques e caras do mundo: as duas senhorinhas conferindo os preços dos modelos expostos na vitrine.

Grande Paulo Gracindo

Do livro “Senhoras e Senhores”

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Pelópidas Gracindo, aliás, Paulo Gracindo, tem seu nome no top da galeria de maiores atores da tevê e artista do rádio do Brasil. Nasceu no Rio e criou-se em Alagoas. De volta à sua terra natal, ralou para conquistar um lugar no mundo das artes. A primeira providência foi trocar o Pelópidas pelo Paulo, na década de 1930.

Inicialmente foi trabalhar como locutor, depois teve programa que levava seu nome na Rádio Nacional. Consolidou sua popularidade com o lendário programa “Balança, mas não cai”, contracenando com Brandão Filho. Era o primo bem sucedido da dupla de rico e pobre. A grande fama veio com a radionovela “O direito de nascer”, no papel de Alberto Limonta.

Durante sete décadas, Paulo Gracindo construiu uma carreira de verdadeiro sucesso. Trabalhou em 21 telenovelas, representando com brilhantismo personagens memoráveis. Quem não se lembra do o impagável político do interior da Bahia Odorico Paraguaçu, de “O Bem Amado”, e do Padre Hipólito, de “Roque Santeiro”, ambas escritas por Dias Gomes?

Gracindo foi ator em 26 filmes, inclusive no marcante “Terra em Transe”, em 1967, dirigido por Glauber Rocha. Perdeu-se o número de peças de teatro em que atuou. Outro ponto alto de sua carreira foi o show musical “Brasileiro, Profissão Esperança”, previsto para ficar em cartaz no Canecão, no Rio, por 15 dias e permaneceu por quase todo o ano de 1974. Dividia o palco com a cantora Clara Nunes. Seu filho Gracindo Júnior seguiu seus passos de ator, assim como os netos Daniel, Pedro e Daniela.

Em 1991 recebi da Fundação Vitae, de São Paulo, a Bolsa de Fotografia para realizar um trabalho com oitentões famosos do Brasil e que resultou no livro “Senhoras e Senhores”. Evidentemente, Paulo Gracindo não podia ficar fora da minha lista. Fui estar com ele em seu apartamento numa tranquila rua do bairro de Laranjeiras, no Rio. Comigo estava a amiga Luísa Jucá, que algumas vezes me auxiliava na produção da série de fotos.

Fotografei Paulo Gracindo incluindo na cena o mesmo tecido vermelho que usei com todos os personagens. Com ele, foi a toalha de mesa. Com Mário Lago, por exemplo, dei ao tecido a função de tapete. Com Zé Kéti, de lençol de cama. Com a cantora Marlene, o pano vermelho tornou-se um vestido. E com Grande Otelo, um trono. Ao todo, estive com mais de cinquenta desses senhoras e senhores famosos e a todos, depois de fotografá-los, fiz as mesmas quatro perguntas.

Veja o que me respondeu Paulo Gracindo, que faleceu em 1885, aos 84 anos:

O que é o teatro para você?

– Uma doença braba de que fui acometido desde a hora em que nasci. Mas é a única doença que jamais me matará.

Qual foi o melhor momento de sua vida?

– Quando fiz o show “Brasileiro, profissão: Esperança”, no Canecão, em Botafogo. Uma noite, no final da apresentação, entraram no meu camarim o ex-presidente Juscelino Kubitschek e o Pelé. Cantaram comigo e a Clara Nunes, “Chão de Estrelas”. Fiquei tão emocionado que não resisti e fui às lágrimas.

O que representa a fama?

– É muito mais que a demonstração de respeito que as pessoas têm por você. É, mais que isto, carinho. E nada no mundo é mais agradável que carinho. Às vezes, tem-se a impressão de que você é um bem público.

O que você diz de ser um oitentão?

– Ficar mais velho é como mudar de casa. No começo você estranha o quarto, a sala, tudo. Depois, o tempo vai passando e você acaba se acostumado. Chega um momento em que você sabe de cor tudo entre a varanda e o quintal.

História

Há 27 anos, a posse de Fernando Collor

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Aos 40 anos, Fernando Affonso Collor de Mello era o mais jovem brasileiro a assumir a presidência da República. Venceu a eleição, no segundo turno, com 35.089.998 votos contra 31.076.364 de Lula. Collor nasceu no Rio. Seu pai, Arnon de Mello, foi senador por Alagoas, e seu avô, Lindolfo Collor, ministro de Getúlio Vargas.

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Fernando Collor fora prefeito de Maceió, governador e deputado federal por Alagoas. Era o primeiro brasileiro a ser escolhido para o Palácio do Planalto com o voto popular, após o período de governos militares, de 1964 a 1985. O último eleito foi Jânio Quadros, que assumiu em 1960 para substituir Juscelino Kubitschek e que renunciou ao mandato após seis meses de receber a faixa presidencial.

Sua campanha para presidente foi inovadora. Adotou ritmo acentuado de viagens pelo país, com comícios dos quais participavam artistas populares. Seu principal mote para convencer os eleitores foi o bordão de caça aos marajás – referência aos grandes salários. Empolgou por sua aparição nas carreatas e programas do horário eleitoral na tevê com sua juventude.

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Fernando Collor faz o juramento de posse no Congresso, ao lado dos senadores Nelson Carneiro e Mendes Canale, do deputado Paes de ANdrade e do vice Itamar Franco. Foto Orlando Brito

Ao assumir, determinou a privatização de empresas públicas, demitiu e extinguiu cargos da administração federal. Sob o comando da ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, anunciou o confisco das cadernetas de poupança acima de 50 mil cruzeiros. Sim cruzeiros, porque uma de suas primeiras medidas foi devolver o nome de cruzeiro à moeda corrente no governo anterior, de José Sarney, o Cruzado. Um dos quesitos do Plano Collor era a abertura do mercado brasileiro às importações.

Porém, seu estilo de marketing pessoal coincidiu com denúncias de corrupção. O empresário alagoano Paulo César Farias, coordenador financeiro de sua campanha eleitoral tornou-se o personagem principal das acusações, levadas à mídia por Pedro Collor, irmão do próprio presidente. Após um movimentado e atribulado período na política, Fernando Affonso Collor de Mello acabou sofrendo o processo de impeachment no Congresso, deixando definitivamente o Palácio do Planalto em 29 de dezembro de 1992. Em seu lugar, assumiu o vice Itamar Franco.

Hoje, Fernando Collor de Mello é senador por Alagoas.

Um clic na hora do “Sim”

A curiosa tradição das fotos de casamento

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Li nos jornais dessa semana que a administração do Jardim Botânico, no Rio, passará a cobrar pelas imagens que fotógrafos e noivos fazem tendo como cenário os belos jardins floridos do lugar. Na verdade, em várias outras cidades o mesmo acontece.

É comum encontrar em qualquer lugar do mundo noivas e noivos posando para fotos nos cenários de cartão postal da cidade. Essa fotografia aí é bom exemplo disto. Paris, cidade de tão rara beleza, pelos monumentos e pelos jardins, foi o cenário escolhido por esse novo casal. É uma tradição que remonta aos anos 1800, nos primórdios do surgimento das câmaras fotográficas.

Há cem anos quando as câmaras eram ainda pesadas caixas de madeira, os noivos não podiam usufruir das poses usando paisagens como pano de fundo. Ao contrário, tinham de se deslocar a um estúdio para a o momento das fotos. Agora, na Era Digital, tudo mudou.

Ainda na virada do século para dezenove para o vinte,  o avanço da tecnologia mudou essa limitação. Com a invenção das câmaras portáteis, o fotógrafo é que passou a ir às cerimônias. Isto deu novo impulso e visual ao tradicional ritual das bodas. E, claro, também ao comportamento dos convidados, permitindo novos lances que passaram a ser incorporados incorporados ao cerimonial.

As fotos de casamento se transformaram em uma boa janela para compreender o comportamento da sociedade através dos tempos. Elas contêm muito mais detalhes do que a gente pensa. É só olhá-las com maior atenção. Nas roupas, vê-se a evolução da moda. Tanto no vestido da noiva quanto no traje do noivo, na vestimenta dos convidados. E também nos doces, salgadinhos e outras comidas, o costume alimentar da época. Na decoração, o gosto dos anfitriões. Na face de cada personagem, a carga de emoção. São imagens que todo mundo gosta de ver, comentar, fuxicar.

Por exemplo, a brincadeira de jogar o buquê de flores para as amigas ainda solteiras e o ato de cortar o bolo, vieram dessa liberdade que as fotos de casamento adquiriram com o surgimento das câmaras portáteis. Também os bolos passaram a ter tratamento mais criativo, os confeiteiros passaram a caprichar mais no visual dos doces. A oportunidade de tirar fotografias com maior facilidade fez também com que as noivas dessem às suas festas um andamento mais alegre e não menos emotivo. Uma festa para os modistas, os designers de roupas. Das noivas, dos noivos, dos padrinhos, das daminhas de honra, convidados, de todos e tudo, enfim.

Não é a toa que as revistas de variedades jamais dispensam casamento das celebridades. Lady Di deu o que falar. Entrou para a história usando como moeda de sedução sua própria imagem. E começou com seu casamento. Quem não se lembra daquela mocinha de olhar angelical arrastando um vestido de cauda longa entrando na Catedral de St. Paul, em Londres, para unir-se ao herdeiro do trono inglês?

Em 2011, a Inglaterra parou para ver as imagens do casamento do Príncipe William com miss Kate Middleton. Ela se casou com um vestido de noiva feito pela estilista Sarah Burton, da grife Alexander McQueen. Arrasou, segundo os especialistas no assunto. Tanto quanto o penteado que usou, copiado até hoje. Porém, não faltaram críticas à maquiagem, feita por ela mesma. No entanto, as fotos da noiva novamente fizeram o maior sucesso.

Foi a Inglaterra, aliás, que marcou o visual dos casamentos. Em 1840, a rainha Victoria trocou alianças com o príncipe Albert usando um véu de tom laranja sobre a cabeça, para quebrar a sisudez de seu vestido de cetim branco. Outras noivas de sua corte passaram a copiá-la inovando nas cores. O gesto passou a ser imitado por todas as mulheres do mundo que vão à igreja para selar o compromisso de núpcias diante de um reverendo. E de um fotógrafo.

A dor alheia

Fotografia é História

A dor alheia, OrlandoBrito 6 essa

Enterro de criança recém-nascida. Cidade de Aprazível. Ceará, 1996.

Nos últimos anos, a taxa de moralidade infantil no Brasil caiu em torno de 47 por cento, segundo dados do Censo do IBGE. Até o ano de 2000, em cada mil crianças nascidas vivas, pelo menos uma morria antes de completar 12 meses de idade.

“Diante da Dor dos Outros” é um livro muito interessante, essencial especialmente para um fotógrafo. A escritora e crítica de arte americana Susan Sontag, falecida em 2004, aborda com maestria um tema pouco comum: o que sente um fotógrafo ao retratar o sofrimento de um personagem vitimado por uma tragédia, um acidente, enfim, a morte de um ente querido. Ela cita em vários momentos de seu livro o sofrimento que invade um fotógrafo em situações em que a vida está por um fio.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com o fotógrafo sul-africano Kevin Carter, após ser premiado com o Prêmio Pulitzer de Fotografia de 1993. Sua imagem é terrível: mostra uma criança pobre no Sudão, vítima da guerra, rastejando em busca de alguma comida. Logo atrás, um abutre à espreita, como se para a ave de rapina também a menina fosse um alimento. A foto suscitou à época uma discussão ética. Carter fez o clic, enxotou o abutre e partiu em busca de novas imagens. Ninguém sabe o que aconteceu à menininha faminta. Mas Kevin não resistiu o efeito psicológico por ter visto de perto e transformar em foto a dor dos outros: suicidou-se no ano seguinte.

Certa vez eu viajava pelo interior do Ceará com o amigo Evandro Teixeira porque fazemos há anos um trabalho sobre o Nordeste brasileiro. Numa manhã paramos o automóvel para fazer essa foto aí, que é bem uma mostra do tema “diante da dor dos outros”: o pai, seguido pela mulher e dois filhos, leva nos braços para o cemitério o caixão do caçula morto. Triste, muito triste. Nem Evandro nem eu tivemos espírito para temos amenos. A dor daquela família que fotografamos nos venceu.

Susan Sontag, enfim, tinha toda razão. Quantas vezes eu mesmo tive de demonstrar frieza para, cara-a-cara com a desgraça, ficar indiferente a ela. Indiferença não, aparente distância. Mas, em minha profissão, com a câmara pendurada no pescoço, não há como deixar de registrar uma realidade nada agradável.

Encontro em Sintra, Portugal

Gláuber Rocha e João Figueiredo, o cineasta e o general

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O pessoal da esquerda desancou Gláuber. Meses antes, o cineasta baiano havia declarado admiração pelo general Golbery do Couto e Silva. Agora aparecia nas páginas do Globo cumprimentando o presidente Figueiredo. Logo Gláuber Rocha, um dos mais ferrenhos críticos do regime militar. Ele, cineasta vencedor de festivais com filmes de caráter político e contestador, que tinha programa de TV para desqualificar os milicos, fã de Brizola, estava ali de mão estendida para um presidente da Revolução de 64. Esta é, com certeza, uma das derradeiras imagens de Gláuber Rocha. Meses depois, ele viria morrer de septicemia na Clínica Bambina, no Rio, em 22 de agosto de 1981.

Para mim não foi surpresa encontrar Gláuber em Sintra. Estávamos no mesmo vôo de Paris para Lisboa dois dias antes. Éramos em torno de vinte jornalistas – entre tantos, Merval Pereira, Andre Gustavo Stumpf e a hoje senadora gaúcha Ana Amélia Lemos – que cobríramos na França a primeira etapa da viagem de Figueiredo à Europa. Durante o voo, do aeroporto de Roissy-De Gaulle ao de Portela do Sacavém, Gláuber não parou. Se levantava da poltrona do Boeing, sentava-se, ia e vinha. Com o brilhantismo e a loquacidade de sempre, falava dos temas da atualidade.

O artista relembrava o bom papo que tivera no dia anterior em um restaurante da Rue Saint André Des Arts com Carlos Henrique e Toninho Drummond, da Rede Globo, e o crítico de cinema do Jornal do Brasil, Maurício Gomes Leite.

Depois, já instalado na capital portuguesa, comentei com Carlos Henrique e Toninho, meus amigos, o feio aspecto de Gláuber. Usava uma japona azul marinho rota e sem alguns botões, manchada de café e farelo de pão caído na lapela, cabelos desgrenhados, olheiras acentuadas, voz cansada.

No dia seguinte, nosso destino era Sintra, a bela e aprazível cidadezinha perto de Lisboa, logo depois de Queluz, outro vilarejo, onde nasceu nosso Dom Pedro I, berço do Brasil, casa dos Orleáns e Bragança. O presidente João Figueiredo tinha agenda no Palácio Nacional. E lá fomos nós, o grupo de jornalistas. Imponente lugar. Foi lá que, nos idos de 1500, um mensageiro a cavalo entregou a Dom Manuel, o venturoso, rei de Portugal, a carta que Pero Vaz de Caminha escrevera, dando notícia do descobrimento de uma tal Terra de Santa Cruz, depois da longa e tenebrosa viagem da esquadra de caravelas comandadas por Pedro Álvares Cabral.

O Palácio Nacional fica do ladinho da Pensão Central. Antiga, mui nobre e histórica Pensão Central, revestida de azulejos e que hospedara em seus aposentos de janelas com floreiras grandes nomes da cultura. Eça de Queirós, Fernando Pessoa. Em frente, fica a tradicional bodega “A Piriquita”, onde se delicia as melhores queijadinhas do mundo. Isso mesmo, do mundo. Pois foi lá que Gláuber fizera reserva. Ao ver a movimentação da comitiva presidencial, não teve dúvida, Juntou-se ao grupo.

Então o amigo Carlos Henrique disse-me que no almoço da véspera, Gláuber reclamara de dores no estômago. Ele próprio, Gláuber, achava que o permanente mal estar decorria da inalação dos gases de boulette, o carvão que aquecia o quartinho do hotel em que se hospedava, no Quartier Latin. Não era. Faleceu meses depois, aos 42 anos, em 22 de agosto de 1981, em decorrência de problemas bronco-pulmonares.

Orlando Brito

A batalha do impeachment. Depois do vendaval

O Salão Verde da Câmara vazio, após semanas de extrema movimentação por conta do processo de afastamento da presidente Dilma Rousseff.

O Salão Verde da Câmara vazio, após semanas de extrema movimentação por conta do processo de afastamento da presidente Dilma Rousseff.

“Depois do vendaval”, o filme dirigido por John Ford e levado às telas em 1952, é um dos clássicos do cinema. Um misto de drama, comédia e romance, narra a história de um lutador vitorioso que se apaixona pela irmã de um dos seus rivais nos ringues. O lutador, John Wayne, se casa com Maureen O’Hara, interessado em sua riqueza. Depois de marchas e contramarchas, o campeão se vê obrigado a enfrentar o cunhado, naquela que resultou numa tremenda e renhida luta.

O roteiro do cinema não tem ligação direta com o atual cenário da política brasileira. A não ser a mistura de drama, romance e comédia. Para nós, o drama fica por conta da verdadeira batalha que se trava nos três poderes de nossa República, com o envolvimento de operações policiais e do povo na rua, na luta pelo impeachment da Presidente. O romance, pelas paixões e interesses ideológicos. E a comédia, devido ao sem fim de lances que beiram o pitoresco.

Porém, tanto na ficção do filme como na realidade da política brasileira, depois dos momentos de aflição e de eletrizante movimentação, tudo parece voltar à serenidade. Somente depois do vendaval que assolou vida é que a normalidade voltou a reinar.

11 de março: o plenário da Câmara, em sessão conduzida e repleta de parlamentares, aprova o afastamento da presidente. O mesmo plenário vazio, com sessões não deliberativas em decorrência de novo impasse: o comando da Casa pelo deputado Waldyr Maranhão, substituto de Eduardo Cunha, também afastado do mandato pelo Supremo.

11 de março: o plenário da Câmara, em sessão conduzida e repleta de parlamentares, aprova o afastamento da presidente. O mesmo plenário vazio, com sessões não deliberativas em decorrência de novo impasse: o comando da Casa pelo deputado Waldyr Maranhão, substituto de Eduardo Cunha, também afastado do mandato pelo Supremo.

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Durante semanas, cartazes pendurados nos postes da Esplanada dos Ministérios clamam pela saída da presidente. Após seu afastamento, o clima de aparente normalidade está de volta.

Durante semanas, cartazes pendurados nos postes da Esplanada dos Ministérios clamam pela saída da presidente. Após seu afastamento, o clima de aparente normalidade está de volta.

Manifestantes comemoram com foguetes na frente do Supremo Tribunal Federal a saída do deputado Eduardo Cunha. Já nesse fim de semana, no mesmo lugar, famílias passeiam, serenas e alheias à política, em clima de tranquilidade.

Dilma Rousseff em seu último passeio de bike nas cercanias do Palácio Alvorada, seguida por um agente de segurança. Depois, ciclistas pedalam sem os mesmos problemas da presidente.

Dilma Rousseff em seu último passeio de bike nas cercanias do Palácio Alvorada, seguida por um agente de segurança. Depois, ciclistas pedalam sem os mesmos problemas da presidente.

A presidente, em sua derradeira solenidade, canta o Hino Nacional, de mãos unidas às mulheres contrárias ao seu afastamento. Após, o fim da festa, cadeiras vazias e silêncio.

A presidente, em sua derradeira solenidade, canta o Hino Nacional, de mãos unidas às mulheres contrárias ao seu afastamento. Após, o fim da festa, cadeiras vazias e silêncio.

Senadores defensores de de Dilma pedem a palavra na sessão do Senado que aprovou, com 55 votos a favor e 22 contra, seu afastamento. No dia seguinte, o mesmo palco em absoluto vazio.

Senadores defensores de de Dilma pedem a palavra na sessão do Senado que aprovou, com 55 votos a favor e 22 contra, seu afastamento. No dia seguinte, o mesmo palco em absoluto vazio.

Na despedida do Planalto, Dilma e Lula são aplaudidos e comemorados por admiradores de bandeira em punho. Agora, o retrato de paz (?) na rampa do palácio.

Na despedida do Planalto, Dilma e Lula são aplaudidos e comemorados por admiradores de bandeira em punho. Agora, o retrato de paz (?) na rampa do palácio.

Depois de marchas e contramarchas, o vice Michel Temer assume o Palácio do Planalto e, ao lado de aliados, faz seu primeiro pronunciamento e dá posse aos ministros. Na mesma sala, o púlpito com o brasão da República e das bandeiras do Brasil e de presidente, com o microfone à espera de novas palavras sobre o novo governo.

Depois de marchas e contramarchas, o vice Michel Temer assume o Palácio do Planalto e, ao lado de aliados, faz seu primeiro pronunciamento e dá posse aos ministros. Na mesma sala, o púlpito com o brasão da República e das bandeiras do Brasil e de presidente, com o microfone à espera de novas palavras sobre o novo governo.

 

 

06 de maio de 201 – Escalada do impeachment

Festa vazia

Dilma 3

No segundo andar do Palácio do Planalto, o militante do PT se depara com uma cerimônia já sem a platéia repleta de outrora. Agora, às vésperas do afastamento de Dilma Rousseff da Presidência, espaços vazios onde antes havia cadeiras disputadas por centenas de simpatizantes. Durante o evento, com a bandeira de seu partido nas costas, ele observa Dilma, ao longe.

Orlando Brito

Nova geração

Diário da República

Fim da corrupco, OrlandoBrito
Onde quer que haja manifestações, seja em Brasília ou qualquer outro lugar do País, está presente o desejo de decência e ética na política e o fim da corrupção.
OrlandoBrito

Miguel Arrais

A volta do exílio

Miguel Arrais, a volta do exilio, OrlandoBrito pag

 Durante o regime militar que dirigiu o Brasil de 1964 a 1985, havia o clamor pela volta de líderes forçados a buscar exílio no Exterior. Com a Lei da Anistia, finalmente sancionada em agosto 1979, personagens que tiveram seus direitos políticos cassados pela Revolução puderam retornar ao País.

 Um desses foi Miguel Arrais, deposto do cargo de governador de Pernambuco em 1964. Foi preso. Primeiramente em uma cela do IV Exército, em Recife. Depois, confinado por onze meses na ilha de Fernando de Noronha e, ainda, na Fortaleza de Santa Cruz, no Rio. Amparado por um habeas-corpus do Supremo Tribunal Federal, conseguiu asilo na Argélia. Acusado de subversão, foi condenado à revelia pela Justiça Militar pernambucana.

 Como foi De volta ao Brasil, foi ovacionado por uma multidão de 50 mil pessoas em seu desembarque. Para retomar a vida pública, doutor Miguel Arrais de Alencar fez várias viagens pelo País, voltou a fixar residência em Recife e, sobretudo, manteve contato com líderes da oposição.

 Pois foi durante um encontro com Ulysses Guimarães, que fiz essa foto aí para a Veja, revista para a qual eu trabalhava. Observei-o observando o movimento da rua, olhando pela janela do apartamento onde morava doutor Ulysses, então presidente do PMDB. Achei muito significativa a ocasião: parecia apreensivo, ainda temeroso. Deixava para trás os anos de chumbo e, agora com as luzes da democracia, mostrava novamente sua face. Ao retomar a carreia na política, elegeu-se duas vezes deputado federal e governador.

 Arrais, cearense de nascimento, faleceu em 2005, aos 89 anos. O Palácio das Princesas, que ele habitou em três ocasiões, foi também ocupado por neto Eduardo Campos, falecido num acidente aéreo em Santos, em agosto do ano passado, durante a campanha para Presidente da República.

Festival de cinema

Leila, Ruy e Ana

Leila, Ana e Ruy, OrlandoBrito pag

 1970. As atrizes Leila Diniz e Ana Maria Magalhães e o diretor Ruy Guerra foram os grandes premiados no Festival de Cinema de Brasília com o filme “Os deuses e os mortos”.

 Ana Maria trabalhou em várias novelas e atualmente é diretora de cinema e de projetos culturais. Hoje, mora no Rio. Ruy ganhou o grande prêmio do festival naquele ano. Depois, casou-se com Leila, com quem teve uma filha, Janaina. Já Leila – que hoje teria 70 anos – faleceu em um desastre aéreo em Nova Deli, quando voltava de uma viagem à Austrália, em junho de 1972. O Brasil vivia um período sombrio de sua história, com os direitos democráticos restritos, tortura a presos políticos e censura à imprensa. O Festival de Brasília era um dos raros espaços para debates e contestação ao regime militar.

 Como foi – A primeira vez que cobri o festival foi em 1967, quando o grande vencedor do Troféu Candango foi o longa-metragem “Proezas do Satanás na Vila do Leva e Traz”, de Paulo Gil Soares. Eram raros os eventos culturais em Brasília naquela época e o festival era agenda que ninguém queria perder. No meu caso – um jovem de 17 anos começando no jornalismo no diário carioca Última Hora – era uma oportunidade de fotografar personagens bem diferentes dia-a-dia do poder e que tinha como cenário de trabalho, o Palácio do Planalto e o Congresso.

 Em 1969, Rogério Sganzerla ganhou a estatueta do Candanguinho, com “Bandido da Luz Vermelha”. No ano seguinte, o vencedor foi “Memórias de Helena”, de Davi Neves. Em 1970 estava novamente no Cine Brasília para cobrir o festival. À noite, fui fotografar a movimentação dos diretores, atrizes e atores antes da sessão de projeção dos filmes. Mas sabia que dificilmente uma imagem formal da festa iria chamar a atenção dos leitores. Por isso, na manhã seguinte, resolvi ir ao quartel-general dos artistas, o Hotel Nacional. Por volta das dez horas, surpreendi-me ao ver essa cena aí, de Leila Diniz, Ana Maria Magalhães e Ruy Guerra bem à vontade na piscina, sob o sol da Capital.

Bike

Diário da República

Dilma pedala, 17 de julho, OrlandoBrito pag

Presidente Dilma Rousseff em sua pedalada matinal.

Palácio Alvorada, 17 de junho de 2015

OrlandoBrito

Mergulho

Da série “Voltando no tempo”

ColllorNada, OrlandoBrito pag
Fernando Collor de Mello, presidente da República. Brasília, 1990.
Do livro Poder, Glória e Solidão, de 2006
OrlandoBrito

O Sonho

Da série “Enxergando o País de perto”

O sonho, OrlandoBrito pag

“O Sonho”

Praia de Beberibe, 2000 (Do livro Corpo e Alma, de 2006)

OrlandoBrito

O poder feminino

Ministra Zélia, princesa Isabel e presidente Dilma

Poder feminino, OrlandoBrito pag

Reunião do alto empresariado brasileiro com a economista paulistana Zélia Cardoso de Mello, titular do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento no governo Fernando Collor entre 15 de março de 1990 e 10 de maio de 1991.

Como foiDuas grandes surpresas marcaram a posse de Fernando Collor quando assumiu a Presidência da República. A primeira foi a escolha de uma mulher para conduzir a economia do País. Isso, Zélia Maria Cardoso de Mello passava a comandar a pasta da Fazenda. A segunda, o confisco pelo governo dos investimentos dos brasileiros na caderneta de poupança. Essa dupla novidade atraiu a atenção do noticiário não somente para o Palácio, mas também para a Esplanada dos Ministérios. Eu mesmo, à época fotógrafo de uma revista de São Paulo, passei a cobrir o principal gabinete do Planalto, mas também o da doutora Zélia.

Essa foto bem demonstra o poder e a relevância que tinha a ministra Zélia Cardoso de Mello. Na reunião em uma sala contígua à do Conselho Monetário Nacional, o olhar dos mais importantes empresários do Brasil voltam-se para ela, única mulher presente ao encontro, sentada à cabeceira da mesa.

A passagem de Zélia pelo governo durou catorze meses e ficou marcada não somente pelo confisco poupança de milhões de mutuários, mas também pela redução das alíquotas de importação e a redução dos altos níveis de inflação. Depois que deixou o ministério de Collor, casou-se com o humorista Chico Anísio – falecido em março de 2012 –, com quem teve dois filhos. Atualmente reside em Nova Iorque, onde dirige seu próprio escritório de assessoria.

Portanto, antes de Dilma Vana Rousseff eleger-se presidente, a mulher que mais deteve poder na história do Brasil foi a ministra Zélia Maria Cardoso de Mello, aos 36 anos de idade.

Não custa lembrar a existência de outra brasileira de total prestígio de nossa história: a princesa Isabel. A Lei Áurea, que põe fim à escravidão, leva sua assinatura. O decreto mudou fundamentalmente o destino do povo. Era filha de Dom Pedro II e casada do o Conde D’Eu. Foi também a primeira senadora do país. Só uma curiosidade sobre Sua Majestade Imperial, Dona Isabel I, Imperatriz Constitucional e Defensora Perpétua do Brasil: seu nome completo era Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon.

Burocracia e segurança

Seis homens e um prego

Seis homens e um prego, OrlandoBrito pag ob

O que  poderia ser apenas uma cena comum e insólita no andar térreo do Palácio do Planalto, na verdade revela uma doença eterna e incurável das repartições públicas brasileiras: a burocracia.

Ainda mais quando vem acompanhada do excessivo cuidado com a segurança. Repare nessa foto. Parece brincadeira, mas é realidade: o primeiro funcionário vigia o segundo, que observa o terceiro, que toma conta do quarto. O quinto monta sentinela ou, muito provavelmente procura por outro, enquanto o sexto homem cumpre a simples tarefa de colocar um pequeno prego na parede.

Lisboeta

Cartas para Saramago

JosSaramago, OrlandoBrito

O escritor português José Saramago recebe as correspondências que chegam a seu endereço de Lisboa. Lisboa, 1993

Como foi – Fui a Portugal fazer com Luís Costa Pinto várias matérias para a Veja. Uma delas, com o Saramago. Ele resolvera mudar-se para Lanzarote, uma das ilhas Canárias, depois que seu livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” foi censurado em seu próprio país, em 1991.

Ao lado da mulher espanhola Maria Del Pilar, dizia ter encontrado o lugar ideal para meditar e escrever. Não tirou o pé de lá durante meses. Mas sempre voltava a Lisboa para principalmente atualizar e conferir a correspondência. Afinal, um ganhador do prêmio Nobel de Literatura recebe mensagens de admiradores e amigos de todo o mundo.

O carteiro já sabia que dificilmente encontraria o famoso destinatário e por isso confiava as cartas ao dono da singela quitanda do Mascote, vizinha do modesto apartamento de Saramago, na Rua dos Ferreiros, número 36, no Bairro da Estrela, um dos mais tradicionais da agradável da capital portuguesa.

Saramago faleceu em 2010, aos 78 anos.

 

 

Pinochet e Figueiredo

FigPinoch, OrlandoBrito ob pag

Os generais João Figueiredo e Augusto Pinochet no passeio de charrete num quartel de Santiago, durante visita presidencial.

Como foi – Lembre-se de que vários brasileiros se exilaram no Chile, fugindo do regime militar instalado no Brasil em 1964. Mas, com a queda de Allende, tiveram que buscar asilo em outros países. Tempos brabos vivia o povo chileno, de ditadura. Nenhum chefe de Estado visitava Pinochet. Mas Figueiredo resolveu ir a Santiago.

Mesmo tendo como objetivo fazer cobertura da visita presidencial, alguns jornalistas brasileiros tiveram problemas com a força militar. Eu mesmo fui detido na Praça da Constituição quando fotografava o palácio La Moneda, ainda com as paredes cheias de furos das balas, marcas do conflito da tomada do poder, em 11 de setembro de 1973. Foi preciso interferência de um diplomata do Itamaraty para me soltar.

À noite, seis colegas repórteres fomos a um restaurante frequentado por políticos, que funcionava nos fundos do edifício do Congresso, posto em recesso. Nem demos importância ao “toque de queda”, ou seja, à obrigatoriedade de voltar para o hotel antes das 22h. Na verdade, estávamos acostumados com tempos mais amenos no Brasil, com o processo de redemocratização iniciado pelo general Ernesto Geisel e seguido por Figueiredo. Não deu outra. O exército chileno chegou e encrencou com todo mundo. Com Roberto Stefanelli, Ricardo Pedreira, Álvaro Pereira, Emerson Souza, Flávio Salles e comigo. Só fomos liberados depois de convencermos o comandante do pelotão que nos levar para um quartel seria motivo de reportagens mundo afora e que isto não ficaria bem para a “democracia” de Pinochet.

O começo da agonia

Doutor Tancredo Neves

Tancredo, o comeco da agonia, Foto OrlandoBrito pag

Em 1985 o Brasil viveu um dos momentos mais tensos de sua história. Na véspera de 15 março, dia em que tomaria posse como presidente da República, Tancredo Neves teve de ser internado às pressas no Hospital Distrital de Brasília.

Doutor Tancredo foi eleito pelo voto indireto no colégio eleitoral em 15 de janeiro, dez dias após completar 75 anos. Empresário e advogado, ex-deputado, ex-ministro, ex-senador e ex-governador de Minas Gerais, contraiu uma infecção no divertículo, mal que acabou por tirar sua vida, em 21 de abril de 1985, depois de 38 dias de agonia. Em seu lugar, tomou posse o vice José Sarney.

Como foi – Tantos anos no front da notícia, perdi o número de vezes em que o sofrimento foi o alvo de meu trabalho. Mas tenho certeza de que uma das coberturas mais angustiantes foi aquela, dos momentos que precederam a morte do doutor Tancredo. Não somente pelas circunstâncias humanitárias, mas também pelo caráter político de seu significado. Era, aliás, um sentimento de todos os interessados na normalização da vida democrática do País, após vinte e um anos de regime militar. O temor era de que a esperança de ver um civil na principal cadeira do Palácio do Planalto também fosse para a UTI. 

Fico cada vez mais impressionado com o poder de premonição que uma fotografia jornalística contém. Sempre digo que, na verdade, elas têm maior capacidade de se referir ao futuro que simplesmente retratar uma mera situação acontecida. Dois dias antes da missa a que comparecera no Santuário Dom Bosco em ação de graças pelo mandato que brevemente se iniciaria, fiz para a revista Veja essa foto aí. 

Tancredo era um dos vários personagens importantes da minha área de cobertura, a seara do poder. Durante duas décadas, praticamente todas as semanas o fotografava. E no ano anterior, então, mais ainda, porque era um dos democratas que subiram com Ulysses Guimarães ao palanque nos comícios do movimento Diretas-Já. Eu era bem familiarizado com sua imagem, portanto. Naquela tarde-noite na igreja, achei estranho seu exagerado silêncio. E, sobretudo, esse gesto de dor, que jamais eu o tinha visto fazer. Não podia imaginar, porém, que representava o início de sua agonia.

Fotografia é História

Abril de 1977

Ulysses-abril-de-1977-OrlandoBrito 6 fb

Ulysses Guimarães, nascido na pequenina cidade de Itirapina, perto de Rio Claro, em São Paulo. Deputado federal por onze mandatos consecutivos. Advogado e professor. Democrata. Torcedor do Santos. Ministro da Indústria e Comércio nos anos de 1961 e 1962. Um dos fundadores do MDB, foi o destacado condutor da oposição contra o regime militar. Faleceu em 12 de outubro de 1992 a bordo de um helicóptero na Baía de Angra dos Reis. Seu corpo jamais foi encontrado.      
Como foi – Em outubro do próximo ano, 140 milhões de brasileiros irão às urnas para escolher o futuro presidente da República, não custa lembrar que um dos principais responsáveis pela reconquista desse direito democrático foi o Doutor Ulysses Guimarães.
Talvez ele tenha sido o personagem mais expressivo que encontrei em toda minha trajetória de foto-jornalista. Impressionante como sua fisionomia refletia a gravidade de cada momento. Esse aí foi no dia em que o governo fechou o Congresso, em 1977. Sempre digo que Ulysses não era uma simples imagem. Era a efígie de um grande líder.

Orlando Brito   

Fotografia é História

Composição político-militar

Militar AI5, OrlandoBrito pag

Soldado monta guarda em frente ao edifício do Congresso Nacional fechado dias antes, 13 de dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional Número Cinco, assinado pelo então presidente da República, marechal Costa e Silva. O AI-5 fechava o Congresso Nacional, as assembleias legislativas dos estados e as câmaras municipais de todo o País. Cassava o mandato de dezenas de parlamentares, inclusive o do ex-presidente Juscelino Kubitschek. O decreto também suspendia o direito de habeas-corpus nos processos considerados de caráter político.

O Ato Institucional Número Cinco estabelecia ainda a censura prévia à imprensa, às peças de teatro, aos livros e à música. E mais, proibia várias liberdades, entre elas a reunião dos cidadãos.

Como foi – Com a Revolução de 1964, com a subida dos militares da chamada linha-dura ao poder, as liberdades democráticas foram gradativamente suprimidas. Mas em 13 de dezembro de 1968, a força do governo chegou ao cume. Pôs em recesso o Congresso Nacional, com a edição do AI-5. O regime político se transformara em ditadura. Era uma realidade que eu precisava representar com uma fotografia.

Foi quando encontrei esta cena aí, que bem representa a face daquela crise política: os coturnos de um soldado compondo o desenho do Congresso com as cúpulas da Câmara e do Senado. Somente dez anos depois, em 1978 – quando o presidente Ernesto Geisel botou em curso o processo de abertura política – o AI-5 foi extinto.

OrlandoBrito

Fotografia é História

Diário da República

Ouvir e sair

A noite do Ai5, OrlandoBrito p[ag

A noite de sexta feira 13 de dezembro de 1968 ficou marcada como um dos momentos mais sombrios para a democracia brasileira, considerada uma das mais duras medidas do regime militar que governou o Brasil de 1964 a 1985. O governo do marechal Costa e Silva decretava o AI-5, que fechava o Congresso Nacional, as assembleias legislativas dos estados e as câmaras municipais de todo o País. Cassava o mandato de dezenas de parlamentares, inclusive o do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Também suspendia o direito de habeas-corpus nos processos considerados de caráter político.

O Ato Institucional Número Cinco estabelecia ainda a censura prévia à imprensa, às peças de teatro, aos livros e à música. E mais, proibia várias liberdades, entre elas a reunião dos cidadãos.

Câmara e Senado Federal só foram reabertos dez meses depois para referendar, em eleição indireta, a escolha do novo presidente da República, o general Garrastazú Médici no lugar de Costa e Silva, acometido por uma embolia cerebral. O AI-5 só foi revogado dez anos depois, quando o general Ernesto Geisel ocupava a Presidência da República e facultou o projeto de distensão democrática e reabertura política.

Como foi – Eu era um jovem fotógrafo a cobrir para O Globo os assuntos da política. Vi pela movimentação dos jornalistas veteranos que a notícia estava na Presidência da República, mas seu efeito se mostraria no Congresso. Atravessei o Eixo Monumental N-1, a avenida que separa o Planalto da Câmara dos Deputados e Senado Federal. No Palácio não havia nenhuma foto a ser feita, a não ser a de um contínuo aborrecido distribuindo aos repórteres as cópias do tal decreto presidencial.

Ao chegar ao Congresso, constatei que eu estava certo. Numa salinha do térreo – próxima ao plenário e abarrotada de senhores atônitos, cabisbaixos, em silêncio – consegui fotografar alguns parlamentares de ouvidos atentos a um rádio de pilhas. Chegava pelo ar a intervenção na Constituição anunciada pelo então ministro da Justiça, Gama e Silva.

Entre eles estavam os presidentes da Câmara, da Comissão de Justiça e o líder do governo, Zezinho Bonifácio, Djalma Marinho e Geraldo Freyre, além de jornalistas e alguns funcionários. Ao fim da audição radiofônica, todos tiveram de abandonar o edifício do Congresso.

Nem sei como consegui estar naquele cenário em um momento tão cheio de “não pode”. É verdade que as fotos não são nenhum exemplo de capricho estético. Mas retratam esse momento dramático da história. Ainda assim, apesar do caráter documental que elas contêm, nenhuma delas pode ser publicada. A censura já estava em vigor.

Orlando Brito

Fotografia é História

Diário da República

Adeus, Simon

1 Pedro Simon, OrlandoBrito 1

Interessante como a profissão de jornalista nos coloca diante de situações as mais comoventes. No meu caso, que sou fotógrafo, isto acontece com maior intensidade porque o contato visual e a necessária presença diante de um fato e personagens é imperiosa, essencial.

Pois bem, na tarde do dia 10 de dezembro, fui ao plenário do Senado fotografar um acontecimento que, aparentemente, não iria produzir grandes emoções. Me refiro ao discurso de despedida do senador Pedro Simon, do Rio Grande Sul. Simon subia à tribuna para dirigir-se aos presentes e ao povo brasileiro. Estava ali para dar adeus à sua longa vida pública.

Pedro Simon entrou para a política quando era ainda um jovem advogado de 28 anos que se elegia vereador em sua cidade natal, Caxias do Sul. Sua marcante atuação na câmara municipal o levou a uma cadeira de deputado estadual por quatro mandatos consecutivos em Porto Alegre. Em 1978, no PMDB, Simon desembarcou na Capital Federal, escolhido senador pelos gaúchos. De lá, até àquela tarde, não passou um dia sem mandato.

O Brasil vivia o fim de uma década movimentada e conturbada na política. Ainda governado pelo regime militar, o País clamava nas ruas tempos de maior liberdade. E Simon chegou para engrossar um time de deputados e senadores que lideravam esse sentimento: Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Paulo Brossard, Marcos Freire, Jarbas Vasconcellos, Fernando Lyra, Teotônio Villela, Lisâneas Maciel, entre outros democratas.

2 Pedro Simon, OrlandoBrito 2

Era grande a luta para que o Brasil voltasse a reconquistar a normalidade democrática. O general Ernesto Geisel punha em prática sua política de abertura, antes de passar a presidência da República a seu sucessor, João Figueiredo. Eu mesmo, à época fotógrafo do jornal O Globo e depois da revista Veja, cobri de perto os principais movimentos da politica. No Palácio do Planalto, o lado da situação estabelecida pelo golpe militar, em 1964. No Congresso Nacional, a oposição incansável dos políticos. Simon era um dos destaques.

Peregrinos da liberdade.

Nem sei quantas vezes fotografei, Brasil a dentro, os comícios do movimento Diretas-Já e as reuniões que exigiam o fim das torturas, da censura, da anistia aos exilados e da instalação de uma nova assembléia constituinte. Realmente não sei o número de fotos que fiz desses temas. Mas sei que praticamente todas contam com a presença firme de Pedro Simon, ao lado dos líderes Ulysses e Tancredo.

Durante esses quase cinqüenta anos eu acompanhei e retratei a história do poder no Brasil, vi de perto e tive a primazia de documentar momentos de extrema emoção, importantes na vida da nação. É raro, porém, a foto em que não aparece a singela e ao mesmo tempo imponente, figura do senador Pedro Simon. O certo é que Simon estava na tribuna, a falar e despedir-se da vida pública, iniciada seis décadas antes. No plenário, somente parlamentares mais amigos. Por exemplo, Jarbas Vasconcellos, Luiz Henrique, Aécio Neves, Eduardo Suplicy, Álvaro Dias.

O ex-presidente José Sarney é um exímio orador. Certa vez em um discurso fez uma citação de um dos seus autores prediletos, o Padre Antônio Vieira. Chamou-me a atenção por ver meu ofício de fotógrafo incluído em seu pensamento. Em um dos seus sermões, o Padre Vieira dizia:

- Deus, quando criou a figura humana, deu-lhes os olhos para principal função: enxergar. Perceber, sentir e emocionar-se com as coisas existentes. Mas, depois, acrescentou a possibilidade de chorar. Porque chorar é a maneira de a alma expressar seu mais puro sentimento.

No dia 10 de dezembro de 2014, pois, eu estava nas galerias do plenário do Senado com meu olhar atento a um personagem familiarizado com a história do Brasil, e com meu testemunho. Era Pedro Simon em seu momento final como parlamentar, em seu derradeiro discurso, dava sua palavra de despedida. A última vez que subia à tribuna do Parlamento. A bancada de senadores a ouvi-lo era mínima. Somente fieis amigos e companheiros de eras outras lá estavam para ouvi-lo, aparteá-lo, aplaudi-lo.

Ao final do seu discurso, percebi que o velho senador – tão bravo e destemido, forte e corajoso, que eu mesmo fotografara no front de muitas batalhas em defesa de causas tão nobres, de quem eu fizera mil fotos com seus colegas democratas – dessa vez cedia à sua própria emoção. Não conteve as lágrimas. Confesso que meus olhos, tão acostumados à função de perceber com frieza o decorrer dos fatos e a presenciar com isenção tantos lances da história, dessa vez também cederam à função a que se referia o sábio Padre Vieira.

Não somente a presença de Pedro Simon, agora com 84 anos, me emocionou. Perto de terminar sua oração, reparei que, bem pertinho de onde eu estava, nas galerias superiores do plenário, um grupo de colegiais o aplaudia calorosamente. Eram 27 jovens de uma escola brasiliense. Alunos, meninos e meninas do ensino médio. Perguntei-lhes a razão de sua presença ali. Ouvi de um deles:

- Soubemos pela mídia que o senador Pedro Simon faria hoje seu último discurso. Convencemos nosso professor de história a nos trazer para presenciarmos um momento tão significante, de um homem de conduta exemplar e honrado. Coisa rara na política. Sujeito íntegro, de conduta irrepreensível, que jamais teve um escândalo a manchar sua biografia…

Simon, OrlandoBrito 3

Bem, mais uma vez fiquei emocionado e resolvi deixar o cenário do fato para seguir para outra pauta do meu dia-a-dia do poder. Enquanto conferia em minha câmara as imagens que havia feito, caminhava em silêncio, deixando as galerias. Mas podia ouvir ao longe o aparte de um jovem senador:

- Pedro Simon é um dos mais bem qualificados homens públicos do Brasil. Deveria fazer uma nova peregrinação pelo País para dizer da decência, da simplicidade, da seriedade, da humildade, da compostura, ética, dignidade…

Orlando Brito

Maestro

Tom Jobim

Tom em Ipanema, OrlandoBrito 888
Eu era editor da Veja, em São Paulo, e a revista tinha uma reportagem de capa com o maestro Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.A matéria estava resolvida com as fotos que tínhamos, mas faltava o essencial, justamente a imagem que iria para a capa. Elio Gaspari, nosso diretor-de-redação queria uma fotografia fora do convencional, que chamasse a atenção do leitor logo no primeiro contato com a revista, ou seja, a capa. Disse-me:

- Ouse, meu caro, seja ousado.

Então liguei para o Flávio Pinheiro, o chefe da sucursal da Veja no Rio. E pedi-lhe propusesse ao Tom que posasse para nós em Ipanema. O maestro aceitou. Pedimos que fosse bem cedinho, por volta das sete da matina, para evitar um enxame de pessoas a vê-lo. Para nossa surpresa, Tom disse sim novamente. Só me restou voar às pressas de Sampa para o Rio.

Providenciou-se o aluguel de um piano, esse ai, e o levamos para o Arpoador. Levamos não, seis carregadores o suportaram nas costas.

O sol brilhante conspirou a nosso favor. E pouco antes das sete da matina lá estava Antonio Carlos, tal e qual havíamos sonhado.

Enquanto eu fazia as fotos, Tom tocou várias músicas. Várias, “O samba do avião”, “Garota de Ipanema” e outras mais. A certa altura, o senti com uma certa timidez ou desconforto. Eu mesmo achava a cena um tanto ousada para um sujeito tão contido quanto Tom. Ao percebê-lo encabulado, aproximei-me. E tivemos o seguinte diálogo:

- Qual é mesmo sua graça?, perguntou-me

- Brito, Orlando Brito, respondi-lhe.

- Brito, Orlando Brito, eu não sou o …, disse-me baixinho. (Não vou dizer nome do pianista famoso por delicadeza e respeito ao Tom e ao próprio artista citado)

- Tom, Tom Jobim, confie em mim. Creia no meu bom gosto. Não vou lhe transformar em Fulano de Tal, lhe assegurei.

E seguimos fotografando. Não durou muito, uns quinze ou vinte minutos, talvez. Ao final, quando dei o trabalho por completo, agradeci. Ele se levantou do banquinho e preparou-se para tomar seu carro, um Voyage creme. Mas antes de deixar a praia, voltou ao piano e disse:

- Faltou uma canção.

E mandou, sem cantar: Manhã, tão bonita manhã…
E olha que “Manhã de carnaval”, nem é de sua autoria. É composição de Luiz Bonfá e Antonio Maria.

Quanto terminou, levantou-se, deu uma piscadinha para um grupo de jovens senhoras que observava a cena da calçada, entrou no seu automóvel de cor creme, colocou um chapéu de palhinha e saiu, devagarinho, ele mesmo dirigindo.

Acho que gostou, porque na segunda feira-seguinte, quando viu a revista telefonou para nós na Veja e agradeceu. Nem acreditei que Tom Jobim fosse ter lembrança para isto. Teve.

Bem, esqueci-me de dizer que esta foto aí não é a escolhida para a capa da revista. É uma sobra.

OrlandoBrito

Palco iluminado

Silvio Caldas 

SilvioCaldas, OrlandoBrito 888

Os românticos da música polemizam sobre qual o mais belo verso da música brasileira. Se “a lua furando nosso zinco salpicava de estrelas nosso chão. E tu pisavas nos astros, distraída” ou se “nos seus olhos eu suponho, que o sol num dourado sonho, vai claridade buscar”. Para Silvio Caldas não importava. Até porque tanto em “Chão de Estrelas” quanto em “A Deusa da Minha Rua” estavam nas canções de seu repertório, cantado durante sua carreira de oitenta e tantos anos de artista.

Silvio nasceu no Rio, em 1908. O pai tinha uma oficina de consertar instrumentos musicais, além de ser afinador de pianos. Antes de ficar famoso, foi leiteiro, estivador, garimpeiro, mecânico. Subiu num palco para cantar pela primeira vez ainda menino e só parou em 1998, quando faleceu. Foi um dos reis da chamada Era do Rádio, com Emilinha Borba, Nelson Gonçalves, Carmem Costa, Orlando Silva, Marlene. Gravou melodias de Noel, Pixinguinha, Chico Buarque, Ary Barroso, Lamartine, Tom Jobim, Braguinha, Roberto Carlos, Caymmi, Adoniran, Dolores, Antonio Maria e demais compositores qualificados. Dentre os tantos sucessos, o maior é “Chão de Estrelas”, que fez em parceria com Orestes Barbosa. Nunca faltava em seus shows.

Como foi – Era minha decisão: sem a foto de Silvio Caldas, eu não faria “Senhoras e Senhores”, o livro com oitentões consagrados do Brasil, que a bolsa Vitae e a sensibilidade do amigo Jack Corrêa possibilitaram-me publicar. Cheguei ao sítio de Atibaia, onde Silvio morava, por volta das 11 da manhã. Acompanhado da mulher Camila, quarenta anos mais jovem, e do menino Roberto, o filho mais novo, levou-me para ver a plantação de frutas e flores, que ele mesmo cuidava.

Era a arma que usava para melhorar o estado de espírito, combater o fantasma da depressão e lembrar-se dos melhores momentos de sua vida. Sentia-se vitorioso aos 84 anos. Afinal, disse-me, havia sobrevivido a duas Guerras Mundiais, revoluções, perseguições e visto acontecer duas epidemias que sacrificaram milhares de vidas, a gripe espanhola e a AIDS. Na hora da foto, escolhi a posição do pano vermelho que ilustra todas as imagens de “Senhoras e Senhores”. Ele fez questão de posar com violão que ganhara do presidente JK, após uma seresta em Diamantina.

Meses depois, na noite de autógrafos, em Brasília – trouxemos também para a festa o palhaço Carequinha, outro personagem do livro –, vi Silvio Caldas, contando histórias e cantarolando para um grupo de convidados o maior de seus sucessos. Recordei-me de quando lhe indaguei em Atibaia sobre os três melhores momentos de sua vida: - As batalhas de confete dos velhos carnavais, os papos com Ary Barroso e toda vez que cantava “Chão de Estrelas”.

Orlando Brito

População

Basta um close

Basta um close, OrlandoBrito pag

Em breve, o Brasil deverá conhecer o resultado do novo censo populacional feito pelo IBGE. Segundo as estatísticas. há em nosso país em torno de 20 milhões de idosos.

Como foi – Como diz um velho ditado chinês, o conjunto é o resultado de uma infinidade de detalhes. Quando parte para uma matéria, um fotógrafo sabe que é importante retratar cada personagem dentro do ambiente em que este vive. São referências visuais, informações que completarão aquilo que dirá o texto do repórter.

Em 1994 o Nordeste sofria uma das freqüentes secas. Viajei durante trinta dias para a Bahia, Ceará, Pernambuco e Piauí, estados onde a situação era mais grave. Minha função era ilustrar com fotografias as matérias de Elio Gaspari para a Folha de São Paulo, Zero Hora e O Globo. Rodamos em torno de dez mil quilômetros. Era uma região que eu já conhecia bastante, de outras vezes em que fui fazer reportagens para Veja, Jornal do Brasil e para o próprio Globo.  

No caso dessa cearense de quase cem anos de idade, porém, não senti a necessidade de acrescentar outros elementos que “falassem” de sua condição de vida. Dispensei o conjunto, optando pelo detalhe. Achei que um close era suficiente para complementar a descrição de Elio sobre a parede da casa que ela habitava.

Orlando Brito

Anistia

Arrais: a volta do exílio

Arraes, OrlandoBrito pag

Com a Lei da Anistia sancionada em agosto 1979, personagens que tiveram os direitos políticos cassados pela Revolução puderam retornar ao País. Um desses foi Miguel Arrais, deposto do cargo de governador de Pernambuco em 1964. Foi preso. Primeiramente em uma cela do IV Exército, em Recife. Depois, confinado por onze meses na ilha de Fernando de Noronha e, ainda, na Fortaleza de Santa Cruz, no Rio. Amparado por um habeas-corpus do Supremo Tribunal Federal, conseguiu asilo na Argélia, já que a França recusou-se a recebê-lo.

Acusado de subversão, foi condenado à revelia pela Justiça Militar pernambucana. Em seu desembarque foi ovacionado por uma multidão de 50 mil pessoas. Ao retomar a vida pública, elegeu-se duas vezes deputado federal e governador. Arrais faleceu em 2005, aos 89 anos. No Palácio das Princesas, que ele ocupou em três ocasiões, hoje está seu neto Eduardo Campos.

Como foi – O apartamento de doutor Ulysses Guimarães, em Brasília, era endereço certo para os retornados do exílio. Foi lá que fiz essa foto de Miguel Arrais observando da janela do apartamento os novos tempos, deixando para trás os anos de chumbo, com as luzes da democracia.

Orlando Brito

Composição

Político-militar

BotasCong, OrlandoBrito 622

Soldado monta guarda em frente ao edifício do Congresso Nacional fechado dias antes, 13 de dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional Número Cinco, assinado pelo então presidente da República, marechal Costa e Silva.

Como foi – Com a Revolução de 1964, a subida dos militares da chamada linha-dura ao poder, as liberdades democráticas foram gradativamente suprimidas. Em 13 de dezembro de 1968, a força do governo chegou ao cume. Pôs em recesso o Congresso Nacional, com a edição do AI-5. O regime se transformara em ditadura. Era uma realidade que eu precisava representar com uma fotografia. Foi quando encontrei esta cena aí, que bem representa a face daquela crise política: os coturnos de um soldado compondo o desenho do Congresso com as cúpulas da Câmara e do Senado.

Somente dez anos depois, em 1978, o presidente da República Ernesto Geisel acabou com o AI-5.

Orlando Brito

Continente

A ilha

A Ilha, OrlandoBrito 66 copia

Toda imagem representa algo, comunica uma idéia, tem alguma coisa a dizer.

Como foi – Dia desses, enquanto meu avião não decolava e ainda estava autorizado o uso de notebooks e tablets antes do vôo, resolvi fazer um giro pela Internet, preencher o atraso no aeroporto com algo produtivo. Acabei parando numa página da WWW que recordava um trecho da obra do poeta inglês John Donne, do século dezesseis. Sua poesia inspirou o escritor Ernest Hemingway, quando escreveu o livro “Por Quem os Sinos Dobram”:

- Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é uma parte do continente, parte do todo.

Três ou quatro horas depois, eu estava caminhando na orla de João Pessoa observando a beleza do Atlântico na Paraíba e com a citação que lera pouco antes fixa em minha memória. Foi quando me deparei com essa cena aí, o gordinho solitário isolado e absorto na pequena piscina cercada de pedras que maré baixa construiu. Enquanto fazia a foto, sorria satisfeito com a coincidência do que estava vendo com os escritos da literatura.

Orlando Brito

Cinema

Os deuses e os mortos

LeilaDiniz, RuiGuerra e AnaMaria, OrlandoBrito

Em 1970 o Brasil vivia um dos períodos mais sombrios de sua história. Eram tempos difíceis, de liberdades democráticas extremamente restritas, com tortura a presos políticos nos e desmedida violação à liberdade de expressão: censura à imprensa e às artes.

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro era um dos raros espaços para debates e contestação ao regime militar. Naquele ano, as estrelas da festa eram o diretor Ruy Guerra e as atrizes Ana Maria Magalhães e Leila Diniz.

Ana Maria trabalhou em várias novelas e atualmente é diretora de cinema. Ruy ganhou o grande prêmio do festival naquele ano com filme “Os Deuses e os Mortos”. Depois, casou-se com Leila, com quem teve uma filha, Janaina.

Já a bela Leila Diniz, uma das mulheres mais importantes para a liberação das mulheres no Brasil, viria morrer dois anos depois desse momento num desastre com um avião da Japan Airlines, na Austrália, onde fora receber um prêmio por um de seus filmes. Era marca da ousadia e da sensualidade e rompeu tradicionais conceitos de comportamento.

Eu era um jovem fotógrafo do jornal O Globo e fui pautado para cobrir o festival. Ia à noite para o Cine Brasília, onde havia as projeções dos filmes e, durante o dia, para o Hotel Nacional. Foi que lá que fiz essa foto ai, dos três artistas na piscina.

Orlando Brito

 

Canudos, Bahia

Lendário João Botão

Joao Botao, OrlandoBrito pag

A Revolta de Canudos é a mais sangrenta página da história do Brasil. Nos fins do século dezenove, o beato Antônio Conselheiro arrebanhou uma multidão de miseráveis que o seguiram pelo sertão ouvindo suas pregações contra a República, novo regime de governo recém instalado no país. Foram necessárias quatro expedições do Exército para sufocar de vez o movimento liderado pelo peregrino nascido no Ceará.

Há controvérsias sobre o número preciso de mortos, mas estima-se que ao final dos combates em torno de 40 mil soldados e conselheiristas perderam a vida. João Botão foi um dos raríssimos sobreviventes. À época era ainda um menino e viu de perto o sofrimento daquela guerra tão bem contada em detalhes por Euclides da Cunha em “Os Sertões”, um dos livros mais sensacionais da literatura brasileira.

 

Como foi – Quem quiser conhecer o Brasil profundamente não pode deixar de ir a Canudos. Aliás, de uns anos para cá, a cidadezinha passou a receber visitantes de todos os interesses. São estudantes, pesquisadores, historiadores, fotógrafos. Eu sou um deles. Devo ter ido umas quinze vezes. Também, com um cenário daqueles e os personagens que a gente encontra, impossível não estar sempre por lá. Os amigos Evandro Teixeira e Antônio Olavo fazem a mesma coisa. Ambos, aliás, publicaram magistrais livros sobre o tema. Bons, muito bons.

 

Na verdade, quando digo Canudos, me refiro a toda região onde a seca pega pesado no Norte da Bahia, cenário dos combates entre os seguidores do Conselheiro e as tropas do Exército. Vou a Bendegó, Uauá, Crisópolis, Monte Santo, Euclides da Cunha, Quijingue, Massacará etc.

Essa foto aí, do João Botão, é parte do que colhi durante uma viagem com Roberto Pompeu de Toledo para uma matéria de Veja, em 1997. João Botão morreu pouco depois de completar cento e três anos. Morava em uma pequena casa de varas cobertas por barro, ao lado de uma igrejinha que construíra para rezar pelos pais e irmãos que morreram no conflito.

 

Não se encontra mais homem ou mulher que tenha vivido na época do Conselheiro, mas há filhos e netos deles que sempre têm histórias para contar e muitos lugares para mostrar, como o lago Cocorobó, que serve de sepulcro para mais de trinta mil conselheiristas e soldados.

Orlando Brito

Palácio do Planalto

O sentido da rampa

O sentido da rampa, OrlandoBrito pag 650

Nos idos de 1984, o presidente João Figueiredo chega ao Palácio do Planalto. A acompanhá-lo, os generais Danilo Venturini e Golbery do Couto e Silva, além do chanceler Ramiro Saraiva Guerreiro. Mais atrás, o diplomata-chefe do Cerimonial da Presidência e o ajudante de ordens.

 

Como foi – A cerimônia de subida e descida da rampa do Planalto era, na época dos governos militares, acontecimento contumaz. Os repórteres e fotógrafos que cobríamos a Presidência estávamos sempre presentes a ela porque era matéria muitas vezes publicada nos jornais.

A rampa é peça característica da leveza dos traços da arquitetura de Oscar Niemeyer, autor do projeto do edifício construído para sediar o Poder Executivo. Dizia que optou por essa forma para simbolizar que as questões do País podem chegar ao gabinete presidencial de maneira suave, sem os solavancos dos degraus de uma escada.

A solenidade resulta da recomendação que o então presidente Juscelino Kubitschek fez ao protocolo da Presidência, em 1960. Era mais uma inovação de JK. Queria despertar o caráter cívico nos visitantes da Praça dos Três Poderes, aproximar o Chefe de Nação do povo.

Para relembrar: Jânio Quadros e João Goulart tiverem mandatos curtos e praticamente não puseram os pés na rampa. Já os marechais Castello Branco e Costa e Silva, assim como os generais Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo eram assíduos. José Sarney reduziu para uma vez por mês.

O último presidente a cultivar esse hábito como atividade regular foi Fernando Collor. Convidava personalidades – o campeão de Fórmula Um, Ayrton Senna, por exemplo – para acompanhá-lo quando descia, nas sextas feiras, encerrando a rotina de trabalho da semana.  Os que o sucederam – Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula e, agora, Dilma Rousseff – em poucas ocasiões o fizeram.

Para dar colorido à festa, soldados do Batalhão da Guarda Presidencial e dos Dragões da Independência usam uniformes de gala. Hoje, a cerimônia acontece somente para receber visitantes ilustres de outros países que visitam o Brasil.

Orlando Brito

 

Além do Poder

Cena obscura

Cena Obscura, OrlandoBrito pag

1966. Na chuvosa manhã de agosto, soldados do Batalhão da Guarda Presidencial hasteiam a bandeira do Brasil no mastro do Palácio do Planalto. Era uma mesma cena se repetia desde 1964.

O golpe militar que tirou do poder o então presidente da República João Goulart completou 49 anos no domingo passado, 31 de março. Jango foi substituído pelo marechal Castello Branco. Depois de Castello, houve uma sucessão de generais a comandar o País: Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo.

Houve também uma junta militar, que governou de setembro a outubro de 1969, com o afastamento de Costa e Silva. Com a Revolução de 1964, o Brasil viria mergulhar, durante 21 anos, num clima de ditadura, com o fechamento do Congresso Nacional, censura è imprensa e às obras de arte, cassação de mandatos parlamentares, proibição de manifestações públicas e prisão de pessoas consideradas contrárias ao regime.

Depois de um longo processo de distensão política – iniciado no governo Geisel e concluído na gestão de Figueiredo –, o Planalto voltaria às mãos de presidentes civis, com a eleição de Tancredo Neves, em 1985.

 

Como foi – Muitas vezes uma fotografia vai além da função de simplesmente ilustrar matérias publicadas no jornal do dia seguinte, no blog de daqui um minuto ou na revista da próxima semana. Ao invés de registrar momentos que “morrem” no jornalismo, o fotógrafo produz documento para a história. Essa imagem, por exemplo, bem condiz com a afirmação.

Eu era ainda um menino, mas já cobria a Presidência da República, para o jornal Última Hora, importante matutino carioca que não existe mais, de propriedade de Samuel Wainer. Diariamente eu via a rotina dos soldados hasteando a bandeira do Brasil, coisa que acontece toda vez que os presidentes chegam ao Palácio.

Naquele dia, porém, o céu nublado contrastava com a posição do pelotão e compunha essa imagem que reflete o período sombrio que o Brasil vivia.

OrlandoBrito

Fotografia é História

Betinho, o irmão do Henfil

Betinho, OrlandoBrito 3

Hoje não sei se ainda existe, mas durante as quase duas décadas em que trabalhei na Veja, havia uma edição para a qual os fotógrafos da revista tínhamos que nos empenhar para ilustrá-la chamada “O livro do ano”. A chefia da redação elegia pessoas que se destacaram durante os doze últimos meses e as reunia numa bela publicação que ia às bancas em meados de dezembro. Com certeza, era um trabalho aguardado com ansiedade pelos leitores, pois se tratava de matérias produzidas com maior elaboração e capricho, tanto nos textos que traçavam o perfil e a história de cada personagem, quanto nas fotos estampadas geralmente em página inteira.

Quando chegava novembro, portanto, os fotógrafos recebíamos a relação de quais nomes deveriam ser retratados. Eu, particularmente, achava aquela tarefa em tanto interessante porque – trabalhando o ano inteiro com fotos nas quais não podia jamais interferir, colhidas do desenrolar dos acontecimentos – era uma oportunidade de exercer algo raro para mim, a pose. Sempre tive como regra, fazer com que a foto refletisse o perfil de cada personagem.

Em 1992, coube a mim retratar alguns desses nomes escolhidos pela revista. Um deles foi Betinho, o apelido de Herbert de Souza, personalidade importante por vários aspectos. Primeiramente por sua opinião contra o regime militar, durante o qual teve de se exilar no Chile, Canadá e México.  Só retornou ao Brasil após a Anistia de 1979. Citado pelos músicos João Bosco e Aldir Blanc na canção “O bêbado e a equilibrista”, imortalizada pela cantora Elis Regina. O sociólogo mereceu versos que diziam: “… meu Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu…”. Era figura notável e respeitada por sua participação ativa na defesa das minorias e desigualdades sociais.

Henfil, consagrado cartunista que se notabilizou no extinto jornal O Pasquim, igualmente a seu mano Betinho sofria de hemofilia. Por esta razão, ambos tinham que fazer sucessivas transfusões de sangue. E, numa delas, Herbert acabou contraindo AIDS. Faleceu em agosto de 1997, aos 62 anos.

Aproveitei a presença de Betinho no Congresso Nacional, em Brasília, para fotografá-lo. Escolhi o ambiente calmo do Salão Negro do Senado, ambiente sóbrio e com luz adequada para o retrato de um homem com seu perfil. Eu sabia de sua timidez e da aversão à badalação. Por isto, quando lhe falei do intuito daquela imagem, citei o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez: ”- A vida não é somente uma pose para fotografia”. Mas, complementei, dizendo de o quanto era importante sua presença no “Livro do ano” da revista.  Foi esse aí, enfim, o clic que fiz do lendário Betinho.

Orlando Brito

 

Movimento

Caminhando e cantando

Caminhando e cantando, OrlandoBrito pag

1969. Em frente Congresso, populares fazem manifestação contra o governo. O presidente Costa e Silva, segundo presidente do regime militar, é acometido por uma embolia cerebral. Impossibilitado de governar, teve de ser afastado. Seu vice, Pedro Aleixo, era civil e foi descartado para substituí-lo. Em seu lugar, assumia o poder uma junta militar – composta pelo general Lira Tavares, pelo almirante Augusto Rademaker e pelo brigadeiro Márcio de Sousa e Melo.

Como foi – “Caminhando”, de autoria do compositor pernambucano Geraldo Vandré, é uma das músicas brasileiras de maior simbolismo. Ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção, promovido pela TV-Rio, em 1968. Mas logo em seguida, teve sua execução proibida, durante os tempos brabos da censura, sob a alegação de que incitava a população à resistência contra regime vigente. Ainda assim, virou hino dos chamados anos de chumbo no Brasil.

A canção de Geraldo Vandré era cantada sempre nas manifestações políticas. Uma dessas ocasiões foi essa aí da foto, que fiz ao passar pelo Congresso: cerca de duas mil pessoas ocuparam a praça em frente à cúpula da Câmara em protesto contra a subida da junta militar. Mãos levantadas e folhetos impressos com a letra, entoavam “Prá Dizer Que Não Falei de Flores”, o outro título da música à época proibida de ser executada nos rádios, nas tevês ou em recintos públicos.

OrlandoBrito

Além do Poder

Praça dos lamentos

Praca dos lamentos,OrlandoBrito pag

Manifestação contra a violência na Esplanada dos Ministérios. Brasília, 2006.

Como foi – Jornalista que cobre os fatos do poder há muitos anos, não deixo de dar atenção a tudo que vejo no gramado em frente ao Congresso Nacional. É, provavelmente, um dos locais que mais acolhe manifestações democráticas em todo o mundo.

 

Categorias de todos os tipos usam o espaço da capital brasileira – também chamado de Praça do Povo – para defender suas causas e protestar contra tudo, como as recentes passeatas da Marcha do Vinagre, que leva até lá um sem número de jovens praticamente todos os dias. Em outros países há também locais preferidos pelos manifestantes para o mesmo fim. Por exemplo, o Hyde Park, em Londres, Washington Square, em Nova Iorque e a Praça da Bastilha, em Paris. Não custa lembrar da Praça Tahrir, no Cairo, berço da onda popular que culminou com a deposição do presidente do Egito, Mohamed Morsi.      

 

Em Brasília, é rara a semana em que não haja um protesto de alguma categoria da sociedade, funcionários públicos, índios, sem-terra, fazendeiros e agricultores, estudantes, médicos, procuradores, policiais, desempregados, religiosos e, enfim, vozes contra e a favor do governo, mas todas reivindicando direitos. Sem falar das caravanas organizadas por sindicatos, que chegam a Brasília, oriundas de vários estados do País. Autorizadas ou não pela polícia, as manifestações têm de obedecer às normas estabelecidas pela polícia de não instalação de tapumes, arquibancadas, palanques, tendas ou quaisquer peças que impossibilitem o acesso ou a vista do Parlamento. Evidentemente, essa regra não é nem de longe cumprida.

 

Mas há também aquelas que, ao contrário de lotar a praça de pessoas, usam o visual para comunicar suas aflições. Como essa aí, organizada por um grupo de humanistas contra a violência. Milhares de cruzes brancas amanheceram fincadas no grande gramado da Esplanada dos Ministérios, em frente â Câmara e ao Senado.

OrlandoBrito

Mãe Terra

“Terra Mater”

Terra Mater, OrlandoBrito pag essa

Esta é uma das 211 fotos constantes do livro “Corpo e Alma”, publicado em 2004. Uma viagem em preto-e-branco pelos 27 estados do Brasil.

 Como foi – Um dia fui fotografar o pintor gaúcho Iberê Camargo, em Porto Alegre. No meio da sessão, o telefone tocou. Gentilmente, pediu-me licença e atendeu. Não sei quem era. Mas o ouvi dizer ao interlocutor uma frase que tomei como lição: - o depois não existe, especialmente quando se lida com imagens.

Oito anos nos depois, em 1999, eu estava no litoral do Ceará fazendo uma reportagem sobre vacinação. Preocupado em não atrasar a equipe de Ministério da Saúde, deixei para fazer depois uma fotografia que viria martelar minha memória durante um mês. Um menino brincando na praia, em total interação com a natureza. Cumprida a pauta, não retornamos mais ao mesmo lugar. Voltei para casa com a horrível sensação de haver perdido uma cena irrecuperável.

A TransBrasil tinha um vôo que saia de Brasília por volta da meia noite e, depois de uma ou duas escalas, pousava em Fortaleza antes nascer do sol. Para me livrar do fantasma da foto perdida, embarquei para o Ceará. Aluguei um automóvel no aeroporto e ainda de manhãzinha estava em Beberibe. Estacionei no mesmo lugar, o paredão da Praia das Fontes. Tal e qual um mês antes, lá estava o menino em seu divertimento rotineiro. Ajudado pela irmã menor que ele, construía pequenos montes de areia e depois observava a orelha das ondas desfazê-los.

Por fim, correu em direção aos arrecifes. Encolhido, deitou-se em uma das poças de água. Aqueles laguinhos miúdos e rasos que se formam quando a maré baixa. Tal e qual eu vira quatro semanas antes. De onde eu estava, sobre o mesmíssimo balcão de falésias, pude enfim fazer a fotografia que deixei para depois, contrariando ao que dissera mestre Iberê Camargo. De volta, no avião, impressionado com a imagem do garoto em forma de embrião, resolvi dar um nome à foto. Terra Mater.

Orlando Brito

Guimarães

A morte de Ulysses

A ultima foto, OrlandoBrito 2 copia

Em 12 de outubro de 1992 o deputado Ulysses Guimarães morreria a bordo do helicóptero que o transportava de uma praia de Angra dos Reis para São Paulo. Com ele, estavam dona Mora, sua mulher, e o casal de amigos Marieta e Severo Gomes, além do comandante da aeronave Jorge Comeratto, também falecidos. O país perdia um dos mais importantes políticos de sua história. 

 Como foi – A todo momento a gente vê a velha e já gasta discussão: uma imagem vale tanto quanto mil palavras. Discordo inteiramente. Primeiro, acho que depende da imagem e também depende das palavras. Segundo, não escrevo intrinsecamente sobre a foto em questão. Abordo algo que está fora dela, as condições em que foi feita e não simplesmente uma descrição automática da imagem. É interessante dizer dos lances inerentes ao seu conteúdo. Esta, por exemplo, tem uma história que reputo curiosa.

 Sempre fiquei preocupado com o caráter premonitório de algumas fotos que fiz. Mas esta de Ulysses tirou-me o sono por várias noites. O dia 6 de outubro de 1992 foi daquelas terças feiras de pouco movimento no Congresso. No fim da tarde, quando eu voltava para a redação de Veja e descia a escada do Salão Verde da Câmara para o térreo, reparei que a luz do outono brasiliense estava como sempre majestosa. O sol, na altura do horizonte, invadia o andar térreo com uma réstia de raios cristalinos. Minha saída coincidia com a chegada do doutor Ulysses. Ele parou em frente do elevador privativo aos parlamentares para responder a uma pergunta do jornalista Ivanir Bortot, à época da Gazeta Mercantil.

 Do lugar onde eu estava, no contra-luz, via a silhueta de Ulysses e Bortot, ambos contornados pelos raios de luz. Quatro fotogramas. Confesso que o resultado da imagem me impressionou. Era forte, não tinha a ver com a serenidade daquele momento. Seis dias depois, a trágica notícia do desaparecimento de Ulysses. Constatada sua morte, evidentemente, virou capa da revista. Falei com Mário Sérgio Conti, editor-chefe àquela época, recomendando que resgatasse em São Paulo o tal cromo. Aquela imagem que tanto me chamou a atenção foi para a capa da revista. Depois virou monumento em uma praça de Campinas.

 Por força do convívio de anos na cobertura da política, assim como outros colegas acabei me aproximando bastante do doutor Ulysses Guimarães. Fiquei bastante entristecido. Recebi inúmeras cartas de leitores da revista. Uma delas trazia uma pergunta que até hoje não consegui resposta: como se sente um jornalista diante da dor dos outros. Incrível! Essas palavras são as que inspiram o título que a ensaísta americana Susan Sontag dá a seu livro sobre o conflito entra a frieza e a emoção que um fotógrafo encontra no front da notícia.

OrlandoBrito

Leveza

O poeta sereno

MarioQ, OrlandoBrito 6 pag

Mário Quintana. Nasceu em Alegrete, em 1906. Faleceu em Porto Alegre, em 1994.

Como foi – Mário Quintana tinha três sobrinhas. Cada uma delas destinava oito horas do dia para acompanhá-lo. Era uma maneira de jamais deixá-lo sozinho nos momentos em que se aproximava o fim de sua vida. Durante dois meses falei com elas por telefone praticamente todos os dias. Torcíamos pela melhora do Mário. Fiquei ansioso à espera do momento adequado para ir retratá-lo em Porto Alegre para o livro “Senhoras e Senhores”.

Eu corria contra o tempo. Primeiro, sabia do precário estado de saúde de Quintana. Segundo, estava expirando o prazo de conclusão do meu livro. Numa sexta-feira, enfim, eu estava no hotel onde ele morava. O poeta estava sentado à cama, ouvindo o “Adágio”, de Albinoni. Na parede, um pôster da atriz sueca Ingrid Bergman e uma foto dele com uma admiradora, a atriz brasileira Bruna Lombardi. Antes de despedir-me, fiz as mesmas quatro perguntas que apresentei para os personagens anteriores. Uma delas sobre a sensação de ultrapassar os 80 anos. Respondeu-me:

- A idade, meu jovem, é uma cruel invenção do calendário.

Outra das minhas perguntas foi: qual foi o melhor momento de sua vida?

- Bá, tchê, pois não foi quando nasci?

 Orlando Brito

Mato Grosso

Cena Brasileira

Trio trio pif-paf

Pif Paf, OrlandoBrito pag

Eu viajava pelo interior do Brasil em busca de cenas e personagens para o livro Corpo e Alma, na década de 1990. Não deixei de ir a à pequena Santo Antônio do Leverger, perto da capital mato-grossense de Cuiabá, porque sempre foi lugar de muitas superstições e tradições. Há mistérios e histórias dos idos do século dezenove sobre o resgate da imagem de um santo milagreiro que desapareceu nas águas do rio que corta a vila. Era porto obrigatório dos bandeirantes que desbravaram o Centro-Oeste.
A tranqüila rotina da cidade só é quebrada no carnaval porque é tomada pelos turistas que para lá se destinam em busca de alegria no ritmo tipicamente regional da dança do siriri. E também nos feriados, quando os jet-skies e as lanchas esportivas movimentam o Rio Cuiabá. Porém o que mais diverte os moradores locais — gente simples, em geral, canoeiros, vaqueiros e pequenos agricultores — são as descontraídas partidas de pif-paf nas feiras de sábado. Vence o jogo o competidor que conseguir montar e baixar à mesa seqüências ou trincas com as cartas do baralho destinadas a cada um.
É o que faziam essas três risonhas e brasileiríssimas figuraças.

Orlando Brito

Recife e Olinda

Dom Hélder Câmara

DomHelder, OrlandoBrito 66

Pelas leis do Vaticano, todos os cardeais – com exceção daquele que se torna Papa – são obrigados a se aposentar quando chegam à idade de 80 anos. Não foi diferente com o irrequieto Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife por mais de duas décadas. Em 1990, teve de deixar para trás sua infatigável e ideológica vida religiosa. Mudou-se do Palácio Episcopal para a pequenina Igreja das Fronteiras, na Ilha do Leite, bairro da capital pernambucana.
Até o momento de sua morte, em 1999, manteve a simplicidade que trouxe da infância pobre no interior do Ceará, onde nasceu, e noutros estados do Nordeste. Mesmo quando morou na sede da Santa Sé, em Roma, Dom Hélder não abriu mão da humildade e da modéstia. Para ele, o mais importante não era a ostentação e sim o combate às desigualdades sociais.
Como foi – Fui a Recife fotografar Dom Hélder para um livro que publiquei em 1992, “Senhoras e Senhores”. Meu foco eram os “oitentões” mais conhecidos do Brasil. E Dom Hélder era um deles, personagem que fotografei inúmeras vezes. Agora com atividades menos atribuladas acordava religiosamente cedo e celebrava missa, auxiliado por uma freira e um frade. Depois, sentava-se em uma cadeira de balanço, sob a imagem de Jesus para contar histórias e relembrar os tempos em que enfrentava o regime militar do Brasil, de quem foi um dos seus principais contestadores.

Orlando Brito

Manif

Protestos, protestos

Protestos, protestos, OrlandoBrito

Manifestação de mutuários da casa própria, em frente ao Congresso Nacional.

Como foi – Os habitantes das capitais administrativas de todo o mundo convivem com manifestações de vários setores da sociedade. Também é assim em Brasília, onde praticamente todos os dias a Praça dos Três Poderes é cenário de manifestações dos mais variados os tipos. São, por exemplo, passeatas de motoristas de ônibus que reivindicam melhores condições de trabalho, funcionários querendo aumento de salários, professores sonhando com reajuste de horários, sem-terra batalhando pela reforma agrária, pacifistas bradando contra a violência etc. etc.

Essa aí aconteceu na tarde de uma de quina-feira, emoldurada pelo belo pôr-do-sol. Os manifestantes empunhando suas bandeiras. Lembra o magnífico filme “O Incrível Exército de Brancaleone”, dirigido pelo cineasta Mário Monicelli e estrelado por Vittorio Gassman, que relata com bom humor a caminhada de um grupo de críticos cidadãos contra os governantes na Idade Média.

OrlandoBrito

Interiores

O Brasil às seis da tarde

Casa no campo, OrlandoBrito Interior de Minas

Casinha de fazenda perto de Passa Quatro, Minas Gerais.

 

BR040, OrlandoBrito 666

Rodovia que vai de Manaus para a pequena cidade de Breves, no Amazonas.

 

Ernesto Geisel

A descontração do general

Praia Geisel, OrlandoBrito

O general Ernesto Geisel, falecido em setembro de 1996, chegou à Presidência da República com a fama que sempre teve: a de durão. Era homem avesso às brincadeiras, pilhérias, piadas e chistes. De poucas palavras, ouvia mais que falava. Ao suceder o general Garrastazú Médici no Palácio do Planalto, demitiu os acusados da morte do jornalista Wladimir Herzog, em São Paulo. Tinha o propósito de promover a chamada abertura política.

E deu uma surpreendente demonstração visual desse propósito deixando de lado sua antipatia à descontração. Durante uma viagem a Natal, no Rio Grande Norte, o rigoroso Ernesto Geisel caminhou tranquilamente de pela Praia dos Artistas, em frente ao Hotel dos Reis Magos, vestindo nada mais que um short de banho.

Trabalhando no jornal O Globo, eu era o fotógrafo designado para a cobertura da Presidência da República. Da mesma forma que os colegas de outros jornais, viajávamos a qualquer hora para todos os lugares. Essa visita de Geisel ao Rio Grande do Norte foi inesperada, e não tivemos tempo de providenciar reservas de hotel. Por isto, tive que pegar “carona” no quarto de colegas de outros jornais, os concorrentes, mas não inimigos. O quarto era pequeno e só me coube dormir num cantinho junto à janela, que dava frente para a praia.

Às seis da manhã, fui acordado por um dos “donos” do apartamento assustado com o que estava vendo: o general, vestindo de short, caminhando na praia. Inexplicavelmente, nenhum deles teve a iniciativa de retratar o momento tão raro e simbólico. Não tive dúvida. Coloquei uma teleobjetiva de 300 milímetros na minha inseparável Nikon e rodei dois rolos de filmes, sem sair de onde estava, no cantinho do quarto, junto à janela.

Relatei o fato ao meu companheiro de equipe, Merval Pereira. Ficamos com receio de – como estávamos vivendo ainda os tempos da censura à imprensa – ter as fotos tomadas pelos seguranças.

Por volta das sete e meia, estávamos no café da manhã no térreo do hotel, e o secretário de Imprensa do presidente, Humberto Barreto, veio ao nosso encontro. Tememos que fosse reclamar das fotos que eu fizera. Que nada. O que ouvimos de Humberto foi algo bem diferente. O passeio matinal aconteceu por pura intenção. Geisel sinalizava que se despia da farda para indicar rumos mais amenos para o futuro.

Projeto Dores

Campanha contra a violência no trânsito

Começou a ser publicada nesta semana nas revistas, na Internet e jornais impressos de todo o Brasil a série de fotos que estou fazendo para a campanha contra a violência no trânsito, do Ministério das Cidades. O projeto intitulado “Dores” tem a finalidade de, por meio de fotografias, sensibilizar condutores de veículos a dirigir com responsabilidade para evitar acidentes.

Evidentemente, antes de dar início ao trabalho, eu tinha a certeza de que iria estar diante de personagens definitivamente marcados pela dor, pelo sofrimento, pela morte, pela perda de um ente querido, um familiar, um amigo, um conhecido.

Mesmo sendo um foto-jornalista acostumado ao longo de anos a estar frente a frente de fatos os mais variados, de catástrofes e tragédias, não podia imaginar iria encontrar tanto sofrimento. Entrei em contato, através de entidades que reúnem familiares de pessoas vitimadas por acidentes e, durante semanas me comuniquei com elas por e-mail e por telefone. Expliquei-lhes da importância de emprestarem sua imagem em benefício da causa. Para minha surpresa, nenhuma delas de opôs. Ao contrário, se dispuseram a posar para uma foto expressando sua dor, sua revolta, o clamor pela punição dos culpados.

Passei noites sem dormir e dias a fio concentrado, preocupado em dar um conceito ao conjunto de fotos. Pedi a cada um dos personagens – residentes em pequenas e grandes cidades de vários estados do País – que me enviasse uma fotografia de seu familiar falecido. Mandei imprimir a foto de todos e colocá-las num porta-retratos para estes tomarem parte da cena.

Pensei em luz, ângulos, planos, objetivas. Queria que o rigor estético fosse de extrema importância para conferir emoção a cada imagem. Queria a marca do jornalismo presente em cada situação. Só não me lembrei: nada é mais forte que o sentimento do ser humano e suas dores.

Logo na primeira sessão de fotos, o conceito e o padrão que eu traçara caíram por terra. Perderam de longe para a realidade em frente à minha câmara. Então, pude ver que a força das lágrimas, da consternação, da tristeza e, enfim, da dor de cada pessoa eram imbatíveis.

Em nome de atingir meu objetivo (cada imagem prender a atenção de quem a ver), pensei fazer fotos em preto-e-branco. A ausência das cores poderia oferecer maior dramaticidade. Depois, refleti se deveriam ser coloridas porque os matizes dariam maior caráter de realidade ao drama presente. Mas, ao ouvir uma senhora que perdeu o filho adolescente, optei pela técnica do Photoshop que reduz a força de cada cor. E o que disse-me mãe, com palavras carregadas de consternação?

- Ao receber a notícia da morte do meu filho, perdi a noção das distâncias, a precisão dos aromas, a delícia dos sabores e a beleza das cores.

Indescritível a sensação de colocar meu ofício para a finalidade de captar a aflição no seu mais alto grau. Não deixo de me recordar do livro “Diante da dor dos outros”, da ensaísta americana Susan Sontag, falecida em 2004. A escritora faz uma densa análise do que sente um fotógrafo com a missão de captar a amargura do ser humano.

A dor de Neusa e Suse

Nessa foto, estão Suselaine Camargo e sua mãe, a senhora Neusa, moradoras de Taubaté, em São Paulo. Há dois anos a manicure Silvia – irmã de Suselaine e filha de Dona Neusa – perdeu a vida quando voltava de um evento religioso. Um motorista embriagado a atingiu com seu automóvel em alta velocidade. Silvia deixou órfãos dois filhos. O mais novo, de seis anos. O outro, de 16. E o esposo.

Suse, OrlandoBrito 6

A forte face da dor 

Grazielly Rodrigues e dois de seus quatro filhos, moradores da cidade de Itanhadu, no Sul de Minas Gerais. Sobre a mesa, o porta-retratos com a foto dos avós, seu Joaquim e dona Maria Leonor, mortos por um motorista embriagado que colidiu com a camionete em que estavam, no dia 2 de novembro de 2004.

Grazielly, OrlandoBrito pag ob

Cristina Maria e os filhos Guilherme e Gutemberg

Dois de junho de 2013, dez horas da noite, no bairro Barra de Jangada, em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Cristina Maria da Silva, de 37 anos, saia da missa na capela de Santo Antônio e ficou curiosa quando viu uma aglomeração de pessoas na esquina.

Ao chegar ao local deparou-se com a cena mais triste de sua vida: a morte do seu próprio marido.
Givanildo Geraldo da Silva era garçom de um restaurante na Praia de Boa Viagem, em Recife. Quando voltava para casa, sua moto foi abalroada por um carro em alta velocidade. Ficou em coma durante três dias, mas não resistiu. Deixou além da esposa Cristina dois filhos, de 11 e 13 anos.

Critina Maria, OrlandoBrito 66c

A dor da família Leal

Moradores da pequena cidade de Itamonte, no Sul de Minas, o senhor Newton Bernardino, suas filhas Marcelle e Leandra, e os netos Joaquim e Kauê sofrem intensamente a perda de dona Elizabeth. Ela foi atropelada por um motorista bêbado, quando fazia sua corrida matinal.

Marcelle familia, OrlandoBrito pag ob

Terra Mater

Terra Mater, OrlandoBrito b

Cena Brasileira

Esta é uma das 211 fotos constantes do livro “Corpo e Alma”, publicado em 2004. Uma viagem em preto-e-branco pelos 27 estados do Brasil.

Como foi – Um dia fui fotografar o pintor gaúcho Iberê Camargo, em Porto Alegre. No meio da sessão, o telefone tocou. Gentilmente, pediu-me licença e atendeu. Não sei quem era. Mas o ouvi dizer ao interlocutor uma frase que tomei como lição: - o depois não existe, especialmente quando se lida com imagens.

Oito anos nos depois, em 1999, eu estava no litoral do Ceará fazendo uma reportagem sobre vacinação. Preocupado em não atrasar a equipe de Ministério da Saúde, deixei para fazer depois uma fotografia que viria martelar minha memória durante um mês. Um menino brincando na praia, em total interação com a natureza. Cumprida a pauta, não retornamos mais ao mesmo lugar. Voltei para casa com a horrível sensação de haver perdido uma cena irrecuperável.

A TransBrasil tinha um vôo que saia de Brasília por volta da meia noite e, depois de uma ou duas escalas, pousava em Fortaleza antes nascer do sol. Para me livrar do fantasma da foto perdida, embarquei para o Ceará. Aluguei um automóvel no aeroporto e ainda de manhãzinha estava em Beberibe. Estacionei no mesmo lugar, o paredão da Praia das Fontes. Tal e qual um mês antes, lá estava o menino em seu divertimento rotineiro. Ajudado pela irmã menor que ele, construía pequenos montes de areia e depois observava a orelha das ondas desfazê-los.

Por fim, correu em direção aos arrecifes. Encolhido, deitou-se em uma das poças de água. Aqueles laguinhos miúdos e rasos que se formam quando a maré baixa. Tal e qual eu vira quatro semanas antes. De onde eu estava, sobre o mesmíssimo balcão de falésias, pude enfim fazer a fotografia que deixei para depois, contrariando ao que dissera mestre Iberê Camargo. De volta, no avião, impressionado com a imagem do garoto em forma de embrião, resolvi dar um nome à foto. Terra Mater.

OrlandoBrito