Mau-olhado, quebranto

Damião e a benzedeira

A Benzedeira
Benzedeira. É nela em quem muita gente deposita a crença e a esperança de resolver aflições e superstições, como o quebranto, o mau-olhado e suas conseqüências: a inveja, o azar, a tristeza.
Juazeiro, Bahia, 1987.

Essa é uma das muitas histórias que aconteceram comigo durante as viagens que fiz pelo interior do Brasil colhendo fotos para o livro “Corpo e Alma”.

Como foi – A benzedeira mandou Damião fechar os olhos. Tomou sua mão e deram uma volta pelo quintal. Depois, lhe disse para sentar-se no tamborete de madeira. Como estava de olhos cerrados, o paciente errou o alvo e levou o maior tombo. Para ele, tudo bem. Em nome de tirar do corpo a sensação de moleza e desânimo qualquer lance lhe servia, ainda que fosse cômico como sua queda.

Depois de benzer o crédulo Damião com uma flor branca e um ramo de arruda, a rezadeira finalizava o ritual da simpatia. Sem olhar para trás, ela saiu caminhando de costas em direção à rua olhando fixamente para o bendito Damião.

Tadinha! Tropeçou com os calcanhares em um cão que dormia próximo ao portão. Se a mordida do cachorro foi dolorida e se a situação do nosso Damião melhorou, não tenho notícia. Mas quando fui retirar o filme de minha Leica, percebi que a tampa que impede entrada de luz não estava corretamente fechada. Depois de revelar o filme, vi que o negativo apresentava essa invasão luminosa em cima de Damião. Como o véu branco sugeria alguma interferência do além, deixei permanecer.

Cruz credo!

Orlando Brito

 

Goiás Velho

Cora Coralina

Cora Coralina, Orlando Brito

Revendo meus arquivos, encontrei essa foto rara, que fiz para uma reportagem da Veja, revista em que trabalhei que durante anos. É de uma das mulheres mais marcantes não só da vida brasileira, mas também da literatura.

Cora Coralina, escritora e poeta, contista e doceira que nasceu em Goiás Velho em 1889 e faleceu 1985. Deixou mais de uma dezena de livros, todos eles com o pensamento de uma mulher atualizada com o tempo, símbolo de sabedoria e bravura.

Cora Coralina era o pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, avó do meu amigo Flávio Salles e da colega jornalista Ana Maria Tahan.

OrlandoBrito

“O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria, se aprende com a vida e com os humildes.

Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores.

Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é decidir”…