José Saramago

Jose Saramago, OrlandoBrito 6

Cartas para o escritor

O escritor português José Saramago resolveu mudar-se para Lanzarote, uma das ilhas Canárias, depois que seu livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” foi censurado em seu próprio país, em 1991. Ao lado da mulher espanhola Maria Del Pilar, ele diz ter encontrado o lugar ideal para meditar e escrever: silêncio e tranqüilidade no cenário de crateras e vulcões adormecidos do isolado arquipélago atlântico.

Não tirou o pé de lá durante meses. Porém, no início de 1993, ele voltou à sua casa em Lisboa para conferir a correspondência, afinal um ganhador do prêmio Nobel de Literatura recebe mensagens de admiradores e amigos de todas as partes do mundo. O carteiro já sabe que dificilmente encontrará o famoso destinatário e por isso confia as cartas ao dono da singela quitanda do Mascote, vizinha do modesto apartamento de Saramago, na Rua dos Ferreiros, no Bairro da Estrela, um dos mais tradicionais da aprazível capital de Portugal.

OrlandoBrito

Abril de 1985

Tancredo Neves

O começo da agonia, na igreja Dom Bosco. E o fim, no velório do Palácio Planalto

Tancredo um e dois

Há trinta e três anos, o Brasil vivia um dos momentos mais tensos de sua história. Na véspera de 15 março de 1985, dia em que tomaria posse como presidente da República, Tancredo Neves teve de ser internado às pressas no Hospital Distrital de Brasília.

Doutor Tancredo foi eleito pelo voto indireto no colégio eleitoral em 15 de janeiro, poucos dias antes completar 75 anos. Empresário e advogado, ex-deputado, ex-ministro, ex-primeiro-ministro, ex-senador e ex-governador de Minas Gerais, contraiu uma infecção no divertículo. A doença acabou por tirar sua vida, em 21 de abril de 1985, depois de 38 dias de agonia. Em seu lugar, tomou posse o vice José Sarney.

Tantos anos no front da notícia, perdi o número de vezes em que o sofrimento foi o alvo de meu trabalho. Mas tenho certeza que uma das coberturas mais angustiantes foi aquela, dos momentos que precederam a morte do doutor Tancredo. Não somente pelas circunstâncias humanitárias, mas também pelo caráter político de seu significado. Era, aliás, um sentimento de todos os interessados na normalização da vida democrática do País, após vinte e um anos de regime militar. O temor era que a esperança de ver um civil de volta à principal cadeira do Palácio do Planalto também fosse para a UTI. Foi.

Fico cada vez mais impressionado com o poder de premonição que uma fotografia contém. Sempre digo que, na verdade, elas têm maior capacidade de referir-se ao futuro que simplesmente retratar uma mera situação acontecida, ao passado.

Dois dias antes da missa a que comparecera no Santuário Dom Bosco em ação de graças pelo mandato que brevemente se iniciaria, fiz para a Veja — revista para a qual eu trabalhava — essa foto aí, do Doutor Tancredo com as mãos postas sobre o rosto, como quisesse proteger a expressão de dor em sua face.

Tancredo era um dos vários personagens importantes da minha área de cobertura, a seara do poder. Durante duas décadas, praticamente todas as semanas o fotografava. E no ano anterior então mais ainda porque era um dos democratas que subiram com Ulysses Guimarães ao palanque, nos comícios do movimento Diretas-Já.

Eu era bem familiarizado com sua imagem, portanto. Da mesma forma que era familiarizado com a imagem de outros nomes importantes da minha zona cobertura. É assim com os jornalistas que cobrimos todo setor. Mas, naquela tarde-noite na igreja achei estranho seu exagerado silêncio. E, sobretudo, esse gesto de dor, que jamais eu o tinha visto fazer. Não podia imaginar, porém, que representava o início de sua agonia.

Doutor Tancredo Neves saiu da igreja para o hospital.

Durante os 38 dias e após cinco cirurgias, terminava o martírio de Tancredo Neves, no Instituto do Coração de São Paulo. Ele foi transferido para lá, depois da internação no Hospital de Base de Brasília. Agora seu corpo estava de volta à Capital do Brasil.

Fiquei realmente triste quando fui ao Planalto cobrir o velório do Doutor Tancredo naquela manhã de 21 de abril de 1985, no segundo andar do palácio. Vi pessoas famosas, ligadas a ele e não postarem-se diante de seu caixão. Reparei também nas pessoas simples, que jamais o tinham visto de perto. Como esse soldado e o menino da foto, ambos desconhecidos e não menos sensibilizados com a perda que o país sofria.

Impressionante a maneira de a história de um país passar pela vida de seus homens e mulheres. Eu estava vendo — e fotografando — Tancredo Neves, enfim, subir a rampa do Planalto, morto.

Interessante, interessante como um fotojornalista, como eu, tem a obrigação de possuir a capacidade de não expressar seu sentimento e perceber de maneira “fria” a emoção das outras pessoas. É como disse a ensaísta americana Susan Sontag em seu livro “Diante da dor dos outros”: cabe-lhe sofrer e fotografar.

Em silêncio.

Milagre

“Ajudai-me, Nossa Senhora da Fotografia”

As tres anjinhas, OrlandoBrito

Não sei se acontece com os demais companheiros de imagem. Mas para mim, uma das grandes derrotas é quando vejo uma cena e não consigo retratá-la por alguma razão. E nesse caso era por uma questão absolutamente técnica: a falta de iluminação.

 

Eu estava fotografando a cerimônia da Sexta-feira da Paixão, em São João Del Rey, em Minas Gerais, quando me deparei com essas três menininhas vestidas de anjo. Uma cena que chamou-me a atenção pela lindeza daquilo que estava à minha frente e também pela bela expressão de religiosidade da, digamos, festa.

Acontece que o trio de anjinhas estava num ponto inteiramente sem luz, claridade minima. E luz é a essência de uma fotografia. Sempre digo que um fotógrafo tem por obrigação dominar a técnica.

E isto ficou muito mais fácil agora com o chamado processo digital, que tem a capacidade de aumentar a sensibilidade do que antigamente era o filme para possibilitar a tomada de qualquer imagem em ambientes de pouca luz.

Ainda assim, percebi que muito provavelmente eu não teria sucesso elevando o ISO de minha moderna Leica. Mas tive fé que conseguiria captar a cena e acionei o disparador da câmara.

Mas devo confessar que antes de fazer o clic, falei bem baixinho, pedindo a ajuda de minha santa protetora, aproveitando o caráter religioso do momento:

- Ajudai-me, Nossa Senhora da Fotografia!

Bem, foi depois disso que apertei o botãozinho da câmara. Aí está o resultado.

Deve ter sido milagre feito por minha santa protetora. Se não foi, foi então a incrível capacidade da tecnologia digital resolver situações impossíveis.

Alo alô, modernidade

 O futuro chegou

Alo-alo-modernidade

Base Aérea de Brasília, começo da noite de 30 de novembro de 1982, minutos antes do pouso do Air Force One, o boeing que trazia Ronald Reagan para uma visita ao então presidente João Figueiredo: jornalistas brasileiros usam e abusam da novidade e da fartura dos telefones vermelhos com DDD, espalhados na pista e colocados à sua disposição pelo serviço de imprensa da Casa Branca e do Itamarati. Ainda mais, sendo free calls, ou seja, ligações grátis.

Curioso como algumas fotografias adquirem características referenciais com o passar do tempo, mesmo não sendo nenhuma maravilha em termos de estética. Ao contrário, adquirem valor pelo seu simples conteúdo. É que, em geral, elas apontam como eram as coisas em determinada época. Bem o caso dessa aí.

Nesse dia, fiquei reparando na curiosidade dos meus colegas repórteres com tamanha versatilidade de comunicação da época, a maravilha que a tecnologia de então lhes propiciava. Modernidade irresistível. Resolvi fazer um clic para, anos depois, compará-la com o avanço dos tempos. E chegou a hora de fazer isto.

Passados trinta e seis anos, vemos que os telefones vermelhos – exemplo do que havia de mais recente e moderno naquele distante início da década de 1980 – são hoje artigo bem raro. Para encontrar um deles é necessário correr aos brechós, lojas de antiguidades ou consultar a Internet.

Aliás, a Internet naquele tempo nem existia. A rede mundial de computadores era “algo que se falava” para talvez existir num longínquo futuro. Hoje pode ser hoje acessada de qualquer lugar do planeta e a qualquer momento pelos dez bilhões de aparelhos celulares, os super  e micros telefones portáteis e sem fio da atualidade.

Quem podia imaginar naquele tempo a existência da comunicação tão dinâmica de agora? Ainda mais usando os telefoninhos vermelhos, algo insuperável em termos de comunicação no início da década de 1980.

Repare em outro detalhe curioso e revelador dessa tão singela fotografia: não há na cena nenhuma coleguinha, mulher jornalista. Hoje, uma situação como essa seria muito certamente o contrário. Como o passar do tempo muda as coisas… Ainda bem.