Um clic na hora do “Sim”

A curiosa tradição das fotos de casamento

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Li nos jornais dessa semana que a administração do Jardim Botânico, no Rio, passará a cobrar pelas imagens que fotógrafos e noivos fazem tendo como cenário os belos jardins floridos do lugar. Na verdade, em várias outras cidades o mesmo acontece.

É comum encontrar em qualquer lugar do mundo noivas e noivos posando para fotos nos cenários de cartão postal da cidade. Essa fotografia aí é bom exemplo disto. Paris, cidade de tão rara beleza, pelos monumentos e pelos jardins, foi o cenário escolhido por esse novo casal. É uma tradição que remonta aos anos 1800, nos primórdios do surgimento das câmaras fotográficas.

Há cem anos quando as câmaras eram ainda pesadas caixas de madeira, os noivos não podiam usufruir das poses usando paisagens como pano de fundo. Ao contrário, tinham de se deslocar a um estúdio para a o momento das fotos. Agora, na Era Digital, tudo mudou.

Ainda na virada do século para dezenove para o vinte,  o avanço da tecnologia mudou essa limitação. Com a invenção das câmaras portáteis, o fotógrafo é que passou a ir às cerimônias. Isto deu novo impulso e visual ao tradicional ritual das bodas. E, claro, também ao comportamento dos convidados, permitindo novos lances que passaram a ser incorporados incorporados ao cerimonial.

As fotos de casamento se transformaram em uma boa janela para compreender o comportamento da sociedade através dos tempos. Elas contêm muito mais detalhes do que a gente pensa. É só olhá-las com maior atenção. Nas roupas, vê-se a evolução da moda. Tanto no vestido da noiva quanto no traje do noivo, na vestimenta dos convidados. E também nos doces, salgadinhos e outras comidas, o costume alimentar da época. Na decoração, o gosto dos anfitriões. Na face de cada personagem, a carga de emoção. São imagens que todo mundo gosta de ver, comentar, fuxicar.

Por exemplo, a brincadeira de jogar o buquê de flores para as amigas ainda solteiras e o ato de cortar o bolo, vieram dessa liberdade que as fotos de casamento adquiriram com o surgimento das câmaras portáteis. Também os bolos passaram a ter tratamento mais criativo, os confeiteiros passaram a caprichar mais no visual dos doces. A oportunidade de tirar fotografias com maior facilidade fez também com que as noivas dessem às suas festas um andamento mais alegre e não menos emotivo. Uma festa para os modistas, os designers de roupas. Das noivas, dos noivos, dos padrinhos, das daminhas de honra, convidados, de todos e tudo, enfim.

Não é a toa que as revistas de variedades jamais dispensam casamento das celebridades. Lady Di deu o que falar. Entrou para a história usando como moeda de sedução sua própria imagem. E começou com seu casamento. Quem não se lembra daquela mocinha de olhar angelical arrastando um vestido de cauda longa entrando na Catedral de St. Paul, em Londres, para unir-se ao herdeiro do trono inglês?

Em 2011, a Inglaterra parou para ver as imagens do casamento do Príncipe William com miss Kate Middleton. Ela se casou com um vestido de noiva feito pela estilista Sarah Burton, da grife Alexander McQueen. Arrasou, segundo os especialistas no assunto. Tanto quanto o penteado que usou, copiado até hoje. Porém, não faltaram críticas à maquiagem, feita por ela mesma. No entanto, as fotos da noiva novamente fizeram o maior sucesso.

Foi a Inglaterra, aliás, que marcou o visual dos casamentos. Em 1840, a rainha Victoria trocou alianças com o príncipe Albert usando um véu de tom laranja sobre a cabeça, para quebrar a sisudez de seu vestido de cetim branco. Outras noivas de sua corte passaram a copiá-la inovando nas cores. O gesto passou a ser imitado por todas as mulheres do mundo que vão à igreja para selar o compromisso de núpcias diante de um reverendo. E de um fotógrafo.

A dor alheia

Fotografia é História

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Enterro de criança recém-nascida. Cidade de Aprazível. Ceará, 1996.

Nos últimos anos, a taxa de moralidade infantil no Brasil caiu em torno de 47 por cento, segundo dados do Censo do IBGE. Até o ano de 2000, em cada mil crianças nascidas vivas, pelo menos uma morria antes de completar 12 meses de idade.

“Diante da Dor dos Outros” é um livro muito interessante, essencial especialmente para um fotógrafo. A escritora e crítica de arte americana Susan Sontag, falecida em 2004, aborda com maestria um tema pouco comum: o que sente um fotógrafo ao retratar o sofrimento de um personagem vitimado por uma tragédia, um acidente, enfim, a morte de um ente querido. Ela cita em vários momentos de seu livro o sofrimento que invade um fotógrafo em situações em que a vida está por um fio.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com o fotógrafo sul-africano Kevin Carter, após ser premiado com o Prêmio Pulitzer de Fotografia de 1993. Sua imagem é terrível: mostra uma criança pobre no Sudão, vítima da guerra, rastejando em busca de alguma comida. Logo atrás, um abutre à espreita, como se para a ave de rapina também a menina fosse um alimento. A foto suscitou à época uma discussão ética. Carter fez o clic, enxotou o abutre e partiu em busca de novas imagens. Ninguém sabe o que aconteceu à menininha faminta. Mas Kevin não resistiu o efeito psicológico por ter visto de perto e transformar em foto a dor dos outros: suicidou-se no ano seguinte.

Certa vez eu viajava pelo interior do Ceará com o amigo Evandro Teixeira porque fazemos há anos um trabalho sobre o Nordeste brasileiro. Numa manhã paramos o automóvel para fazer essa foto aí, que é bem uma mostra do tema “diante da dor dos outros”: o pai, seguido pela mulher e dois filhos, leva nos braços para o cemitério o caixão do caçula morto. Triste, muito triste. Nem Evandro nem eu tivemos espírito para temos amenos. A dor daquela família que fotografamos nos venceu.

Susan Sontag, enfim, tinha toda razão. Quantas vezes eu mesmo tive de demonstrar frieza para, cara-a-cara com a desgraça, ficar indiferente a ela. Indiferença não, aparente distância. Mas, em minha profissão, com a câmara pendurada no pescoço, não há como deixar de registrar uma realidade nada agradável.