Silvio Caldas

Cantor Silvio Caldas, OrlandoBrito 6

Palco iluminado

 O cantor Silvio Caldas em sua casa no interior de São Paulo. 1991.

 Como foi – Era minha decisão: sem a foto de Silvio Caldas, eu não faria “Senhoras e Senhores”, o livro com oitentões consagrados do Brasil, que a bolsa Vitae e a sensibilidade do amigo Jack Corrêa possibilitaram-me publicar.

Cheguei ao sítio de Atibaia, onde Silvio morava, por volta das 11 da manhã. Acompanhado da mulher Camila, quarenta anos mais jovem, e do menino Roberto, o filho mais novo, levou-me para ver a plantação de frutas e flores, que ele mesmo cuidava. Era a arma que usava para melhorar o estado de espírito, combater o fantasma da depressão e lembrar-se dos melhores momentos de sua vida. Sentia-se vitorioso aos 84 anos. Afinal, disse-me, havia sobrevivido a duas Guerras Mundiais, revoluções, perseguições e visto acontecer duas epidemias que sacrificaram milhares de vidas, a gripe espanhola e a AIDS.

Na hora da foto, escolhi a posição do pano vermelho que ilustra todas as imagens de “Senhoras e Senhores”. Ele fez questão de posar com violão que ganhara do presidente JK, após uma seresta em Diamantina. Meses depois, na noite de autógrafos, em Brasília – trouxemos também para a festa o palhaço Carequinha, outro personagem do livro –, vi Silvio Caldas, contando histórias e cantarolando para um grupo de convidados o maior de seus sucessos.

Recordei-me de quando lhe indaguei em Atibaia sobre os três melhores momentos de sua vida: - As batalhas de confete dos velhos carnavais, os papos com Ary Barroso e toda vez que cantava “Chão de Estrelas”.

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Pacote de Abril

Pacote de Abril, OrlandoBrito 6

O Congresso fechado

O dia 13 de abril de 1977 ficou marcado como aquele em o Brasil viveu um dos episódios mais tristes da nossa história: o fechamento do Congresso por uma Emenda Constitucional. A intervenção na Constituição continha seis decretos-lei que permitia ao então presidente, o general Ernesto Geisel, maior domínio e controle sobre o Parlamento. Ficou conhecida como a “Constituinte do Alvorada” e, principalmente, “Pacote de Abril”.

Além de fechar o Senado e a Câmara, o Pacote de Abril cassava o mandato de vários parlamentares, mantinha a eleição indireta para governadores e estabelecia que dois terços dos senadores passariam a ser escolhidos pelo próprio Palácio do Planalto. Estava criada a figura do “senador biônico”. E mais, estendia o mandato presidencial de cinco para seis anos.

Como foi – No dia seguinte à edição das medidas, consegui chegar até o plenário da Câmara, cenário da minha cobertura cotidiana para o jornal em que eu trabalhava à época, O Globo. É preciso lembrar que, mesmo fechado por decreto presidencial e cercado pelos militares, os soldados não entraram no edifício do Parlamento. Os poucos autorizados a ter acesso eram alguns funcionários, encarregados da manutenção de aparelhos dos gabinetes mais importantes, como refrigeradores e, ainda, de irrigar as plantas dos jardins internos. E foi numa dessas que entrei, junto com um grupo de conhecidos meus do dia-a-dia, servidores da Câmara. Para não chamar a atenção e não ser barrado pelos sentinelas, troquei meu equipamento sofisticado, pesado e vistoso por uma simples câmara Leica, pequena, leve e silenciosa que cabia no bolso do paletó.

Pois foi com a discreta Leica que me acompanha até hoje, que fiz essa triste imagem aí: ao invés de parlamentares em suas cadeiras, no lugar de oradores na tribuna e do povo nas galerias, somente um vigilante guardando o plenário completamente vazio. Era 14 de abril de 1977.

Sempre que vejo alguém falar mal do Congresso, tenho a certeza que o faz por não ter vivido um país sem a voz da instituição mais democrática do Brasil, o Legislativo.

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Leônidas da Silva

Diamante Negro, OrlandoBrito 6

Diamante Negro

Não é à toa que Leônidas da Silva mereceu o invejável apelido que virou nome do chocolate mais famoso do País. Considerado um dos deuses do esporte brasileiro, foi goleador nos dez times em que jogou, inclusive na Seleção, nas Copas de 1934 e 1938.

Credita-se a Leônidas invenção da “bicicleta”, o mais belo dos lances do futebol. Campeão várias vezes, o maior ídolo do São Paulo deixou de jogar em 1951. Mas continuou atuando fora dos campos, tornando-se dirigente do clube do Morumbi e depois comentarista de rádio.

Como foiHoje, 24 de janeiro, faz oito anos que o craque faleceu, aos 91 anos, acometido pelo malo de Alzheimer. Lembro-me de quando fui fotografá-lo, em São Paulo Seu Leônidas foi o primeiro dos históricos oitentões e noventões brasileiros que fotografei para o livro “Senhores e Senhores”. Recebeu-me em seu apartamento da Rua Conselheiro Nébias, em São Paulo, ao lado de dona Albertina, a segunda esposa. Elegantemente vestido e voz tranqüila, contou-me por mais de três horas os grandes momentos de sua vida, de suas glórias. Ao final, levou-me até o elevador. À porta, ao despedir-se, disse-me: – Como vês, meu caro, fiz de tudo no mundo do futebol. Inclusive ser fã de Garrincha e Pelé.

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A estátua falante

Il Pasquino, OrlandoBrito 6

Il Pasquino

Roma. 1501. O cardeal Oliviero Carafa encontrou esquecida em um canto do Palazzo Orsini, onde morava, uma estátua esculpida no Século III antes de Cristo. Era uma escultura que reproduzia a luta de Hércules contra o centauro. Determinou, então, que a assentassem na esquina de sua residência com a Piazza Navona. Além de decorar o lugar, a imagem de mármore passou a ser também o local onde a população fazia suas queixas e comentários sobre acontecimentos da comunidade.

Todas as manhãs, porém, apareciam afixados na calada da noite cartazes apócrifos, bilhetes, protestos, calúnias e fofocas – é claro. Nas proximidades, havia um barbeiro chamado Pasquino, conhecido pela língua ferina. Não tardou a ser batizada com o nome do barbeiro que adorava bisbilhotar a vida alheia. Virou tribuna popular. Até hoje é espaço que os romanos utilizam para colar críticas contra o desempenho das autoridades e a reputação dos moradores da vizinhança.

Por representar símbolo de liberdade de expressão, foi o nome que Paulo Francis, Jaguar, Stanislaw Ponte Preta, Ziraldo, Tarso de Castro e Henfil deram ao Pasquim, o jornal-tablóide que foi sucesso editorial do Brasil nos idos de 1970 porque não media palavras para marcar oposição ao governo do militares.

Como foi – O Pasquim era lido por milhares de brasileiros enquanto foi publicado. Era referência de bom-humor, audácia e destemor jornalísticos na época do regime militar. Portanto, era leitura costumeira também para mim, jovem fotógrafo. Em 1986, encontrei-me durante a cobertura de uma viagem presidencial ao Vaticano, com um casal de amigos que morava em Roma. Levaram-me para ver o Pasquino, a obra de arte que ficou conhecida como uma das estátuas falantes da Itália.

Quando você for a Roma vá ver o Pasquino. Fica bem pertinho da Piazza Navona – onde, aliás, está localizado o Palazzo Pamphilli, a bela sede embaixada do Brasil.

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Ernesto Geisel

Geisel, o Alemao, OrlandoBrito 6

O “Alemão”

O general Ernesto Geisel – que presidiu o Brasil de 1974 a 1979, gaúcho de nascimento e filho de imigrantes da Alemanha – era chamado pelos amigos de Exército de “Alemão”.

Eu trabalhava no jornal O Globo e cobria o dia-a-dia do Congresso e da Presidência da República. Na época do regime militar, os presidentes viajavam praticamente toda semana. E foi justamente durante a a cobertura da visita que o general Geisel fez a Vitória do Espírito Santo, que fiz essa foto, quando ele chegou à sacada do Palácio Anchieta, no centro da cidade.

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As verdinhas do BC

As verdinhas do BC, OrlandoBrito 6

Mundão de dinheiro

O carioca Francisco Gros sempre esteve ligado à Economia. Formado na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, foi presidente da Comissão de Valores Mobiliários, do BNDES, da Petrobrás e, por duas vezes, do Banco Central, a última de 1991 a 1992. Fez parte da equipe que trabalhou no programa de recuperação e abertura econômica do Brasil. No governo Collor, foi também um dos negociadores da dívida brasileira com o Clube de Paris e o Fundo Monetário Internacional.

Como foi – A foto que ilustra as páginas amarelas da revista Veja obedecia a uma determinada receita editorial. Era norma. O entrevistado devia mostrar-se ambientado com elementos visuais relacionados com sua atividade. A idéia era que fizesse pose olhando para a câmara. O objetivo era dar a sensação de que o personagem estava dialogando vis-à-vis com leitor.

Naquela semana, era a vez do doutor Francisco Gros. Por duas horas, enquanto durou a entrevista, não fiz nenhum clic, já que a conversa deu-se em seu gabinete, ambiente nada atraente para uma imagem e inteiramente fora do costume da revista. Ao final, Gros não se opôs a irmos ao caixa forte do Banco Central, localizado em um dos pisos subsolos do edifício. Não sei qual deles. Para chegarmos até lá, os guardas de segurança nos fez trocar de elevador várias vezes, sempre impedindo a visão da caixinha de botões luminosos e a régua que indica a localização dos andares.

Cumpri o trato de não fotografar nada além da cena posta perante minha câmara Lembrei-me de nove anos antes, quando o presidente do BC era Carlos Langoni e permitiu-me retratá-lo, também para Veja somente na porta de aço do grande depósito que guarda as reservas financeiras da União. Gros, homem acostumado a lidar com finanças e valores, com cifras bilionárias, confessou jamais ter estado diante de tamanha grana. Imagine eu. Nunca vi outra foto que mostre volume tão grande de dinheiro.

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Cena obscura

Cena obscura, OrlandoBrito 6

Além do agora

1966. Na chuvosa manhã de agosto, soldados da guarda presidencial hasteiam a bandeira do Brasil no mastro do Palácio do Planalto.

Como foi – Algumas vezes uma fotografia vai além da função de simplesmente ilustrar matérias publicadas no jornal do dia seguinte ou na revista da próxima semana. Ao invés de registrar momentos que “morrem” no jornalismo, o fotógrafo produz documento para a história. Essa imagem bem condiz com a afirmação. Eu era ainda um menino, mas já cobria a Presidência da República, para a Última Hora, do Rio. Diariamente via a rotina dos soldados hasteando a bandeira do Brasil, coisa que acontece toda vez que os presidentes chegam ao Palácio. Naquele dia, o céu nublado contrastava com a posição do pelotão e compunha essa imagem que reflete o período sombrio que o Brasil vivia.

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Dr. Ulysses Guimarães

Ulysses, abril de 1977, OrlandoBrito 6

Abril de 1977

Ulysses Guimarães, nascido em Itirapina, perto de Rio Claro, em São Paulo. Deputado federal por onze mandatos consecutivos. Advogado e professor. Democrata. Torcedor do Santos. Ministro da Indústria e Comércio nos anos de 1961 e 1962. Um dos fundadores do MDB, foi o destacado condutor da oposição contra o regime militar. Faleceu em 12 de outubro de 1992 a bordo de um helicóptero na Baía de Angra dos Reis. Seu corpo jamais foi encontrado.

Como foiPois é… Agora que o povo brasileiro está novamente acostumado a ir às urnas para escolher seus governantes e seus representantes parlamentares, não custa lembrar que um dos principais responsáveis pela reconquista desse direito democrático foi o Doutor Ulysses Guimarães. Talvez ele tenha sido o personagem mais expressivo que encontrei em toda minha trajetória de foto-jornalista. Impressionante como sua fisionomia refletia a gravidade de cada momento. Esse aí foi no dia em que o governo fechou o Congresso, em 1977.

Sempre digo que Ulysses não era uma simples imagem. Era a efígie de um grande líder.   

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Karol Wojtyla

Relembrando Wojtyla, OrlandoBRito 6

Relembrando João Paulo II

O cardeal polonês Karol Wojtyla faleceu em decorrência do mal de Parkinson, depois de longa agonia, pouco antes de completar 85 anos, em abril de 2005. Em seu pontificado de quase três décadas, visitou 129 países e tornou-se um dos mais respeitados líderes do Século XX. Agora, tramita do Vaticano o processo de sua beatificação.

Como foi – Perdi a conta de quantos personagens importantes fotografei nos meus quarenta e tantos anos de jornalista. Mas sem dúvida, o Papa João Paulo II foi um dos mais marcantes. Trabalhando para o jornal O Globo e para a revista Veja, cobri as quatro viagens que fez ao Brasil. Todas produziram momentos emocionantes. Um deles, por exemplo, foi esse aí na segunda vez em que esteve aqui. Em Cuiabá, ele mesmo quebrou a rigidez da segurança e chamou um garotinho que, de longe, chorava sensibilizado com sua presença. Com a bandeira brasileira, o menino recebeu um afetuoso abraço do Chefe da Igreja Católica.

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Direto de Copenhague

Alta tecnologia, OrlandoBrito 6

Alta tecnologia

Há vinte anos aconteceu no Brasil a Eco-92, conferência que abordava a situação ecológica da Terra.

Em 2012, chefes-de-Estado, cientistas, ambientalistas e pessoas e entidades interessadas no futuro do planeta reuniram-se no no Brasil, para outra conferência por iniciativa da Organização das Nações Unidas, a Rio+20.

Mas em 2009, também promovida pelas Organizações das Nações Unidas, houve em Copenhague outra conferência de igual importância e que teve como tema principal o aquecimento global, o meio-ambiente. Foi lá, na capital da Dinamarca, que fiz essa foto aí, de um técnico japonês apresentando em uma grande bola de vidro a movimentação de correntes de ar captadas por satélites.

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