Nossa Senhora e Papai Noel

Da série “Olhando o País de perto”

Natais, OrlandoBrito

Interessante!!!
Viajando pelo interior do Brasil sempre me deparo com cenas que, aparentemente, não têm a menor importância ou nenhum apelo emocional. Mas, quando comparadas a outras das grandes cidades tomam um caráter curioso. É bem o caso dessas duas aí. A ver:

Semanas atrás, eu passava de automóvel pela rodovia que liga a pequena cidade de Nossa Senhora das Dores, em Sergipe, quando vi esse grupo de crianças. Usavam galhos secos catados no mato para construir uma singela árvore de Natal. Imagino que a proximidade das festas de fim de ano as levou a sonhar com o clima da grande confraternização das famílias cristãs.

Horas depois eu estava num grande shopping de Brasília, a moderna capital do nosso País. Foi quando me deparei com a segunda situação. A mãe insiste com o pequeno filho para posar para uma fotografia com a lendária figura do Papai Noel, instalado em frente a uma gigantesca e enfeitada árvore de Natal, outra. E o menino, assustado, resiste, chora e recusa.

Moral da história: nem tudo que é sofisticado demonstra ser mais sentimental que a simplicidade.
OrlandoBrito

Projeto Dores

Campanha contra a violência no trânsito

Começou a ser publicada nesta semana nas revistas, na Internet e jornais impressos de todo o Brasil a série de fotos que estou fazendo para a campanha contra a violência no trânsito, do Ministério das Cidades. O projeto intitulado “Dores” tem a finalidade de, por meio de fotografias, sensibilizar condutores de veículos a dirigir com responsabilidade para evitar acidentes.

Evidentemente, antes de dar início ao trabalho, eu tinha a certeza de que iria estar diante de personagens definitivamente marcados pela dor, pelo sofrimento, pela morte, pela perda de um ente querido, um familiar, um amigo, um conhecido.

Mesmo sendo um foto-jornalista acostumado ao longo de anos a estar frente a frente de fatos os mais variados, de catástrofes e tragédias, não podia imaginar iria encontrar tanto sofrimento. Entrei em contato, através de entidades que reúnem familiares de pessoas vitimadas por acidentes e, durante semanas me comuniquei com elas por e-mail e por telefone. Expliquei-lhes da importância de emprestarem sua imagem em benefício da causa. Para minha surpresa, nenhuma delas de opôs. Ao contrário, se dispuseram a posar para uma foto expressando sua dor, sua revolta, o clamor pela punição dos culpados.

Passei noites sem dormir e dias a fio concentrado, preocupado em dar um conceito ao conjunto de fotos. Pedi a cada um dos personagens – residentes em pequenas e grandes cidades de vários estados do País – que me enviasse uma fotografia de seu familiar falecido. Mandei imprimir a foto de todos e colocá-las num porta-retratos para estes tomarem parte da cena.

Pensei em luz, ângulos, planos, objetivas. Queria que o rigor estético fosse de extrema importância para conferir emoção a cada imagem. Queria a marca do jornalismo presente em cada situação. Só não me lembrei: nada é mais forte que o sentimento do ser humano e suas dores.

Logo na primeira sessão de fotos, o conceito e o padrão que eu traçara caíram por terra. Perderam de longe para a realidade em frente à minha câmara. Então, pude ver que a força das lágrimas, da consternação, da tristeza e, enfim, da dor de cada pessoa eram imbatíveis.

Em nome de atingir meu objetivo (cada imagem prender a atenção de quem a ver), pensei fazer fotos em preto-e-branco. A ausência das cores poderia oferecer maior dramaticidade. Depois, refleti se deveriam ser coloridas porque os matizes dariam maior caráter de realidade ao drama presente. Mas, ao ouvir uma senhora que perdeu o filho adolescente, optei pela técnica do Photoshop que reduz a força de cada cor. E o que disse-me mãe, com palavras carregadas de consternação?

- Ao receber a notícia da morte do meu filho, perdi a noção das distâncias, a precisão dos aromas, a delícia dos sabores e a beleza das cores.

Indescritível a sensação de colocar meu ofício para a finalidade de captar a aflição no seu mais alto grau. Não deixo de me recordar do livro “Diante da dor dos outros”, da ensaísta americana Susan Sontag, falecida em 2004. A escritora faz uma densa análise do que sente um fotógrafo com a missão de captar a amargura do ser humano.

A dor de Neusa e Suse

Nessa foto, estão Suselaine Camargo e sua mãe, a senhora Neusa, moradoras de Taubaté, em São Paulo. Há dois anos a manicure Silvia – irmã de Suselaine e filha de Dona Neusa – perdeu a vida quando voltava de um evento religioso. Um motorista embriagado a atingiu com seu automóvel em alta velocidade. Silvia deixou órfãos dois filhos. O mais novo, de seis anos. O outro, de 16. E o esposo.

Suse, OrlandoBrito 6

A forte face da dor 

Grazielly Rodrigues e dois de seus quatro filhos, moradores da cidade de Itanhadu, no Sul de Minas Gerais. Sobre a mesa, o porta-retratos com a foto dos avós, seu Joaquim e dona Maria Leonor, mortos por um motorista embriagado que colidiu com a camionete em que estavam, no dia 2 de novembro de 2004.

Grazielly, OrlandoBrito pag ob

Cristina Maria e os filhos Guilherme e Gutemberg

Dois de junho de 2013, dez horas da noite, no bairro Barra de Jangada, em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Cristina Maria da Silva, de 37 anos, saia da missa na capela de Santo Antônio e ficou curiosa quando viu uma aglomeração de pessoas na esquina.

Ao chegar ao local deparou-se com a cena mais triste de sua vida: a morte do seu próprio marido.
Givanildo Geraldo da Silva era garçom de um restaurante na Praia de Boa Viagem, em Recife. Quando voltava para casa, sua moto foi abalroada por um carro em alta velocidade. Ficou em coma durante três dias, mas não resistiu. Deixou além da esposa Cristina dois filhos, de 11 e 13 anos.

Critina Maria, OrlandoBrito 66c

A dor da família Leal

Moradores da pequena cidade de Itamonte, no Sul de Minas, o senhor Newton Bernardino, suas filhas Marcelle e Leandra, e os netos Joaquim e Kauê sofrem intensamente a perda de dona Elizabeth. Ela foi atropelada por um motorista bêbado, quando fazia sua corrida matinal.

Marcelle familia, OrlandoBrito pag ob

Madeira-Mamoré

Mamore, OrlandoBrito 6

Caminhos do Brasil

O Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré guarda parte de uma das mais emocionantes páginas da história do Brasil: a construção da lendária Ferrovia do Diabo, nos idos de 1907 a 1912. Propicia aos visitantes uma viagem de volta ao Ciclo da Borracha. Os idealizadores do projeto pretendiam escoar por trens a produção de látex da região de Guajará-mirim, na fronteira com a Bolívia, até Porto Velho.

De lá, passando por Manaus, o produto seguiria em grandes navios para os Estados Unidos e Europa. Empresários brasileiros, americanos e ingleses investiram tantos recursos que o empreendimento chegou a ser chamado à época de Estrada dos Trilhos de Ouro. Mesmo com a injeção de verbas governamentais, as empresas privadas foram à falência e o resultado foi um sem fim de tragédias e fracasso no coração da Floresta Amazônica. Uma autêntica história de lutas e intrigas, amores e ódio, poder e submissão. Mas, sobretudo de doença e morte.

Morreu-se de tudo. De tiro, de flecha, malária, fome e acidente. Definitivamente desativada em 1930, a Madeira-Mamoré ficou com a fama de ter um morto sob cada dormente ao longo dos seus 366 quilômetros. Hoje, qualquer turista pode ter uma idéia do que foi aquele “inferno” que inspirou livros, filmes e novela de TV percorrendo os sete quilômetros recuperados. O museu conseguiu manter um acervo razoável de peças para recontar a aventura de engenheiros, operários, índios e soldados na selva.

OrlandoBrito

Regime de exceção

Regime militar, OrlandoBrito

Composição político-militar

Um soldado monta guarda em frente ao edifício do Congresso Nacional fechado dias antes, 13 de dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional Número Cinco, assinado pelo então presidente da República, marechal Costa e Silva.

Como foiCom a Revolução de 1964, a subida dos militares da chamada linha-dura ao poder, as liberdades democráticas foram gradativamente suprimidas. Em 13 de dezembro de 1968, a força do governo chegou ao cume. Pôs em recesso o Congresso Nacional, com a edição do AI-5. O regime se transformara em ditadura. Era uma realidade que eu precisava representar com uma fotografia. Foi quando encontrei esta cena aí, que bem representa a face daquela crise política: os coturnos de um soldado compondo o desenho do Congresso com as cúpulas da Câmara e do Senado. Somente dez anos depois, em 1978, o presidente da República Ernesto Geisel acabou com o AI-5.

OrlandoBrito

A posse de Juruna

Capitao Juruna, OrlandoBrito

Um índio no Parlamento

O cacique Mário Juruna, primeiro índio a eleger-se deputado federal no Brasil. Foi pelo PDT, do Rio de Janeiro. Ao seu lado, Doralice, uma de suas esposas. Ela fez questão de uma pose antes de ir para a posse da Câmara. O líder dos xavantes, falecido em 2002. Como foi – Dácio Malta fazia parte da briosa equipe de repórteres da Veja, em Brasília. Eu era um dos fotógrafos da revista.

Fomos destacados para fazer matérias com vários parlamentares eleitos para o mandato de 1983 a 1987. Um deles era o capitão Mário Juruna, meu velho conhecido desde os tempos em que e trabalhava no Globo. Cobri sua via-sacra pelos gabinetes importantes da capital munido de um gravador no qual registrava a voz das autoridades que prometiam solução para a questão de terras indígenas. Mas nesse dia aí, o da posse na Câmara, sua questão era outra. Dácio e eu fomos ao apartamento no Hotel Torre para fotografá-lo antes de assumir o mandato. Juruna tinha apreendido muitos hábitos dos brancos. Mas não sabia dar o nó na gravata. Evidentemente, resolvemos facilmente a questão.

OrlandoBrito