Além do Poder

Caminhando e cantando

Caminhando e cantando, OrlandoBrito 6

1969. Em frente Congresso, populares fazem manifestação contra o governo. O presidente Costa e Silva, segundo presidente do regime militar, é acometido por uma embolia cerebral. Impossibilitado de governar, teve de ser afastado. Seu vice, Pedro Aleixo, era civil e foi descartado para substituí-lo. Em seu lugar, assumia o poder uma junta militar – composta pelo general Lira Tavares, pelo almirante Augusto Rademaker e pelo brigadeiro Márcio de Sousa e Melo.

Como foi – “Caminhando”, de autoria do compositor pernambucano Geraldo Vandré, é uma das músicas brasileiras de maior simbolismo. Ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção, promovido pela TV-Rio, em 1968. Mas logo em seguida, teve sua execução proibida, durante os tempos brabos da censura, sob a alegação de que incitava a população à resistência contra regime vigente. Ainda assim, virou hino dos chamados anos de chumbo no Brasil.

 

A canção de Geraldo Vandré era cantada sempre nas manifestações políticas. Uma dessas ocasiões foi essa aí da foto, que fiz ao passar pelo Congresso: cerca de duas mil pessoas ocuparam a praça em frente à cúpula da Câmara em protesto contra a subida da junta militar. Mãos levantadas e folhetos impressos com a letra, entoavam “Prá Dizer Que Não Falei de Flores”, o outro título da música à época proibida de ser executada nos rádios, nas tevês ou em recintos públicos.

OrlandoBrito

A morte do romeiro

A morte do romeiro, OrlandoBrito 6

1982. Canindé, cidadezinha da romaria de São Francisco, no sertão do Ceará.

Como foiEra uma matéria sobre a seca no Nordeste para Veja. Luiz Martins, hoje professor da Universidade de Brasília, poeta, chegamos a Canindé às dez da manhã. Ao percebermos a movimentação num casebre no fim da rua, caminhamos até lá. Curiosos, olhamos a triste e silenciosa cena. Lá estava o cadáver de um senhor coberto com um lençol branco. Na altura do abdômen, duas flores vermelhas e uma estatueta do Padre Cícero.

Os parentes, filhos, netos, a viúva contristados, em torno da cama de madeira tosca e velas acesas. Assustados, não perguntamos a causa da morte. Não foi preciso. Uma senhora com cigarro de palha entre os dedos aproximou-se e nos sussurrou:

- Foi faca!

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Face marcante

Basta um close

Face marcante, OrlandoBrito 6

A Organização Mundial de Saúde considera idosas as pessoas que tenham acima de 60 anos nos países em desenvolvimento. Tomando esse limite etário como base, o Brasil soma hoje em torno de 17 milhões de idosos, quase dez por cento da população. São dados do IBGE, segundo o Censo de 2000. A estatística aponta um crescimento progressivo dessa massa de habitantes, de maneira que daqui a duas décadas, teremos aproximadamente 30 milhões de homens e mulheres, já que se constata um significativo alongamento da expectativa de vida.

Como foi – Como diz um velho ditado chinês, o conjunto é o resultado de uma infinidade de detalhes. Quando parte para uma matéria, um fotógrafo sabe que é importante retratar cada personagem dentro do ambiente em que este vive. São referências visuais, informações que completarão aquilo que dirá o texto do repórter. Em 1994 o Nordeste sofria uma das freqüentes secas. Viajei durante trinta dias para a Bahia, Ceará, Pernambuco e Piauí, estados onde a situação era mais grave.

Minha função era ilustrar com fotografias as matérias de Elio Gaspari para a Folha de São Paulo, Zero Hora e O Globo. Rodamos em torno de dez mil quilômetros. Era uma região que eu já conhecia bastante, de outras vezes em que fui fazer reportagens para Veja, Jornal do Brasil e para o próprio Globo. 

A mistura racial que compõe o nosso povo torna o Brasil em verdadeiro manancial de imagens. No caso dessa cearense de quase cem anos de idade, porém, não senti a necessidade de acrescentar outros elementos que “falassem” de sua condição de vida. Dispensei o conjunto, optando pelo detalhe. Achei que um close era suficiente para complementar a descrição de Elio sobre a parede da casa que ela habitava.

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Diário da República

O sumiço das cocadas

O sumico das cocadas, OrlandoBrioo 77

O presidente João Figueiredo e a primeira-dama, dona Dulce.

Como foiEsta foto não se refere intrinsecamente ao fato. Mas a história é imperdível. Conta-se que certo dia, o então governador Antônio Carlos Magalhães, da Bahia, mandou entregar pela manhã no terceiro andar do Palácio Planalto uma caixa com cocadas. Eram as melhores de sua terra, feitas especialmente por Dinha do Rio Vermelho. O destinatário era o casal presidencial, ou seja, João Figueiredo e a esposa dona Dulce. Acontece que o pessoal do gabinete sabia que o general não era apreciador de guloseimas. Como fizeram em outras ocasiões, comeram os doces.

À tarde ACM ligou para dona Dulce na Granja do Torto conferindo se ela havia gostado do presente. Mesmo sem ter saboreado as delicias, a primeira-dama agradeceu. Mas intrigada por não haver recebido os doces, interessada e curiosa no destino da encomenda, ela telefonou para um dos assessores do marido cobrando o presente de ACM.

Para encurtar a história: mandou-se vir às pressas de Salvador carga idêntica, antes que o Figueiredo rodasse a baiana pelo sumiço das cocadas enviadas pelo cordial amigo.

OrlandoBrito

A noite do AI-5 – Fotografia é História

Ouvir e sair

Ouvindo e saindo 2, OrlandoBrito 66

A noite de sexta feira 13 de dezembro de 1968 ficou marcada como um dos momentos mais sombrios para a democracia brasileira. O governo do marechal Costa e Silva decretava o AI-5, Ato Institucional Número Cinco, que fechou o Congresso Nacional e cassou o mandato de vários parlamentares.

Como foiEu cobria para O Globo os assuntos da política. Senti que a notícia estava na Presidência da República, mas seu efeito se mostraria no Congresso. Atravessei o Eixo Monumental, a avenida que separa o Palácio da Câmara e Senado. No Planalto não havia nenhuma foto a ser feita, a não ser a de um contínuo aborrecido distribuindo aos repórteres as cópias do decreto presidencial.

Atravessei a Avenida N1, que separa o a sede do Executivo do Legislativo. Numa salinha do térreo abarrotada de senhores atônitos, consegui ainda fotografar alguns deputados ao pé do rarinho de pilhas ouvindo a leitura da intervenção na Constituição feita pelo então ministro da Justiça, Gama e Silva. Entre eles, os presidentes da Câmara, da Comissão de Justiça e o líder do governo, Zezinho Bonifácio, Djalma Marinho e Geraldo Freyre, além de jornalistas e funcionários. Em seguida, todos tiveram de abandonar o edifício do Congresso.

Câmara e Senado Federal só foram reabertos dez meses depois para referendar, em eleição indireta, a escolha do novo presidente da República, o general Garrastazú Médici, no lugar de Costa e Silva, acometido por uma embolia cerebral.

É verdade que as fotos não são nenhum exemplo de capricho estético. Mas retratam aquele momento dramático da história.

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Cervantes

Protestos, protestos

Protestos, protestos, 66

Manifestação de mutuários da casa própria, em frente ao Congresso Nacional.

Como foi – Os habitantes das capitais administrativas de todo o mundo convivem com manifestações de vários setores da sociedade. Também é assim em Brasília, onde praticamente todos os dias a Praça dos Três Poderes é cenário de manifestações dos mais variados os tipos.

São, por exemplo, passeatas de motoristas de ônibus que reivindicam melhores condições de trabalho, funcionários querendo aumento de salários, professores sonhando com reajuste de horários, sem-terra batalhando pela reforma agrária, pacifistas bradando contra a violência etc. etc.

Essa aí aconteceu na tarde da última tarde de quina-feira, emoldurada pelo belo pôr do sol. Empunhando suas bandeiras, lembra o magnífico filme “O Incrível Exército de Brancaleone”, dirigido pelo cineasta Mário Monicelli e estrelado por Vittorio Gassman, que relata com bom humor a caminhada de um grupo de críticos cidadãos contra os governantes na Idade Média.

OrlandoBrito

Os sertanistas

Heróicos Villas-Boas

Heroicos Villas-Boas, OrlandoBrito 66

No momento em que a questão indígena se torna uma das mais inquietantes do Brasil, vale recordar que Orlando e Cláudio Villas-Boas foram dois dos sertanistas que mais lutaram para que os índios tivessem convivência adequada quando em contato com a população branca. Eram seguidores fiéis da teoria do marechal Rondon de que no futuro os povos das florestas viriam sofrer com o avanço do progresso e teriam sua cultura e identidade ameaçadas.

Orlando (à esquerda), o mais velho, foi indicado duas vezes para receber o Prêmio Nobel da Paz e ganhou cinco títulos de Doutor Honoris Causa de importantes universidades brasileiras, além de condecorações de entidades internacionais. Em meados de 2000, foi demitido da Funai. Dois anos depois, morreu em São Paulo, aos 88 anos. Ao lado de outros dois irmãos, Álvaro e Leonardo, se embrenharam nas matas de Mato Grosso, Goiás, Rondônia, Pará e Amazonas, dando início nos idos de 1943 à pioneira Expedição Roncador-Xingu. Com Noel Nutels e Darci Ribeiro, criaram o Parque Nacional do Xingu, no curto governo Jânio Quadros.

Como foi – No ano de 1990, recebi da Fundação Vitae, de São Paulo, a bolsa de Fotografia da entidade preocupada com a memória do País. Meu projeto era documentar oitentões e noventões que atingiram a notoriedade, cada um em sua área de atuação. Estive em sua casa dos Villas-Boas, na capital paulista. Foi lá que os fotografei para o livro “Senhoras e Senhores”, publicado em 1992. Por quase duas pude ouvi-los sobre a criação do Parque Nacional do Xingu, para onde eles abrigaram várias etnias, entre elas os kamaiurá, krain-a-kore, yawalapiti, kuikuro e waurá.

OrlandoBrito

Manuelzão

Veredas e sertões

Veredas e sertoes

Depois que publicou “Sagarana”, João Guimarães Rosa foi vistar um primo que tinha terras perto do Rio São Francisco. Foi nessa viagem, em 1952, que o escritor conheceu o vaqueiro Manoel Nardy, capataz e cozinheiro das tropas de boiadeiros. Rosa percorria o interior de Minas Gerais para colher histórias e referências para livros futuros. Não abriu mão da companhia daquele magrelinho astuto que trabalhava na fazenda do primo. Ao longo das jornadas a cavalo, o boa-praça Manoel revelou-se mais que um guia de caravanas. Transformou no sábio personagem Manoelzão de “Grande Sertão, Veredas” e “Corpo de Baile”.

Como foi1991. Manoelzão morava em Andrequicé, a 200 quilômetros de Belo Horizonte. Fui até lá fotografá-lo, pouco antes de sua morte, aos 93 anos. Personagem como este não poderia deixar de figurar em meu livro “Senhoras e Senhores”, que fiz porque ganhei uma bolsa da Fundação Vitae, de São Paulo. Por ter a fama de ser inspirador e personagem literário dos mais importantes livros de Guimarães Rosa, esperava encontrar um sujeito cheio de empáfia e soberba.

Que nada! Era exatamente o contrário. Poucas vezes vi exemplo de singeleza e simplicidade. Típico mineiro. Retraído. Fala mansa e sobretudo comedido. Franzino, botinas de couro cru, chapéu de palha, caminhava com o auxílio de um cajado de madeira. As longas barbas brancas e o temperamento sereno, faziam lembrar a figura de um eremita.

Quando perguntei-lhe sobre estar chegando aos 90, ele respondeu-me com a sabedoria que adquiriu ao longo de sua vida no interior:

- Gente nova tem força. Gente velha tem jeito.

Orlando Brito

Cerimonioso Palácio

O sentido da rampa

Figueiredo na rampa, OrlandoBrito 66

Nos idos de 1984, o presidente João Figueiredo chega ao Palácio do Planalto. A acompanhá-lo, os generais Danilo Venturini e Golbery do Couto e Silva, além do chanceler Ramiro Saraiva Guerreiro. Mais atrás, o diplomata-chefe do Cerimonial da Presidência e o ajudante de ordens.

Como foi – A cerimônia de subida e descida da rampa do Planalto era, na época dos governos militares, acontecimento contumaz. Os repórteres e fotógrafos que cobríamos a Presidência estávamos sempre presentes a ela porque era matéria muitas vezes publicada nos jornais.

A rampa é peça característica da leveza dos traços da arquitetura de Oscar Niemeyer, autor do projeto do edifício construído para ser a sede do Poder Executivo. Ele dizia que optou por essa forma para simbolizar que as questões do País podem chegar ao presidente de maneira suave, sem os solavancos dos degraus de uma escada.

A solenidade resulta da recomendação que o então presidente Juscelino Kubitschek fez ao protocolo da Presidência. Era mais uma inovação de JK. Queria despertar o caráter cívico nos visitantes da Praça dos Três Poderes, aproximar o Chefe de Nação do povo.

Para relembrar: Jânio Quadros e João Goulart tiverem mandatos curtos e praticamente não puseram os pés na rampa. Já os marechais Castello Branco e Costa e Silva, assim como os generais Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo eram assíduos. José Sarney, já nos tempos da Nova República, reduziu para uma vez por mês.

O último presidente a cultivar esse hábito como atividade regular foi Fernando Collor de Mello. Convidava personalidades – o campeão de Fórmula Um, Ayrton Senna, por exemplo – para acompanhá-lo quando descia, nas sextas feiras, encerrando a rotina de trabalho da semana.  Os que o sucederam – Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e, agora, Dilma Rousseff – pouquíssimas vezes o fizeram.

Para dar colorido especial à festa, soldados do Batalhão da Guarda Presidencial e dos Dragões da Independência usam uniformes de gala. Hoje, a cerimônia acontece somente para receber visitantes ilustres de outros países que visitam o Brasil.

OrlandoBrito

Festival de cinema

Leila, Ana e Ruy Guerra

LeilaDiniz2, OrlandoBrito

1970. As atrizes Leila Diniz e Ana Maria Magalhães e o diretor Ruy Guerra foram os artistas premiados no Festival de Cinema de Brasília com o filme “Os deuses e os mortos”.

Ana Maria trabalhou em várias novelas e atualmente é diretora de cinema. Ruy ganhou o grande prêmio do festival naquele ano. Depois, casou-se com Leila, com quem teve uma filha, Janaina. Leila, aliás, viria falecer em um desastre aéreo em Nova Deli,quando voltava de uma viagem à Austrália, em 1972. O Brasil vivia um período sombrio de sua história, com os direitos democráticos restritos, tortura a presos políticos e censura à imprensa. O Festival de Brasília era um dos raros espaços para debates e contestação ao regime militar.

Como foiA primeira vez que cobri o festival foi em 1967, quando o grande vencedor do Troféu Candango foi o longa-metragem “Proezas do Satanás na Vila do Leva e Traz”, de Paulo Gil Soares. Eu, um jovem de 17 anos começando no jornalismo no diário carioca Última Hora, tinha como cenário de trabalho o Palácio do Planalto e Congresso. Era uma oportunidade de fotografar personagens bem diferentes dia-a-dia do poder.

Em 1970 voltei ao Cine Brasília cobrir o festival. À noite, fui fotografar a movimentação dos diretores, atrizes e atores antes da projeção dos filmes. Mas sabia que dificilmente uma imagem formal da festa iria chamar a atenção dos leitores do Globo, jornal em que trabalhava à época. Por isso, na manhã seguinte resolvi ir ao quartel-general dos artistas, o Hotel Nacional. Por volta das dez horas, surpreendi-me ao ver essa cena aí, de Leila Diniz, Ana Maria Magalhães e Ruy Guerra bem à vontade na piscina, sob o sol da Capital.

OrlandoBrito