A ilha

A Ilha, OrlandoBrito 66

Toda imagem representa algo, comunica uma idéia, tem alguma coisa a dizer.

Como foi – Dia desses, enquanto meu avião não decolava e ainda estava autorizado o uso de notebooks antes do vôo, resolvi fazer um giro pela Internet, preencher o atraso no aeroporto com algo produtivo. Acabei parando numa página da WWW que recordava um trecho da obra do poeta inglês John Donne, do século dezesseis. Sua poesia inspirou o escritor Ernest Hemingway, quando escreveu o livro “Por Quem os Sinos Dobram”:

- Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é uma parte do continente, parte do todo.

Três ou quatro horas depois, eu estava caminhando na orla de João Pessoa observando a beleza do Atlântico e com a citação que lera pouco antes fixa em minha memória. Foi quando me deparei com essa cena aí, o gordinho solitário isolado e absorto na pequena piscina cercada de pedras que maré baixa construiu. Enquanto fazia a foto, sorria satisfeito com a coincidência do que estava vendo com os escritos da literatura.

OrlandoBrito

Manif

Protestos, protestos

Protestos, protestos, OrlandoBrito

Manifestação de mutuários da casa própria, em frente ao Congresso Nacional.

Como foi – Os habitantes das capitais administrativas de todo o mundo convivem com manifestações de vários setores da sociedade. Também é assim em Brasília, onde praticamente todos os dias a Praça dos Três Poderes é cenário de manifestações dos mais variados os tipos. São, por exemplo, passeatas de motoristas de ônibus que reivindicam melhores condições de trabalho, funcionários querendo aumento de salários, professores sonhando com reajuste de horários, sem-terra batalhando pela reforma agrária, pacifistas bradando contra a violência etc. etc.

Essa aí aconteceu na tarde de uma de quina-feira, emoldurada pelo belo pôr-do-sol. Os manifestantes empunhando suas bandeiras. Lembra o magnífico filme “O Incrível Exército de Brancaleone”, dirigido pelo cineasta Mário Monicelli e estrelado por Vittorio Gassman, que relata com bom humor a caminhada de um grupo de críticos cidadãos contra os governantes na Idade Média.

OrlandoBrito

João Paulo II

Relembrando Wojtyla

Relembrando Wojtyla, OrlandoBrito

O cardeal polonês Karol Wojtyla faleceu em decorrência do mal de Parkinson, em 2005, depois de longa agonia, pouco antes de completar 85 anos. Em seu pontificado de quase três décadas, visitou 129 países e tornou-se um dos mais respeitados líderes do Século XX. Agora, tramita do Vaticano o processo de sua beatificação.

Como foi – Perdi a conta de quantos personagens importantes fotografei nos meus quarenta e tantos anos de jornalista. Mas sem dúvida, o Papa João Paulo II foi um dos mais marcantes. Trabalhando para o jornal O Globo e para a revista Veja, cobri as quatro viagens que fez ao Brasil. Todas produziram momentos emocionantes. Um deles, por exemplo, foi esse aí na segunda vez em que esteve aqui. Em Cuiabá, ele mesmo quebrou a rigidez da segurança e chamou um garotinho que, de longe, chorava sensibilizado com sua presença. Com a bandeira brasileira, o menino recebeu um afetuoso abraço do Chefe da Igreja Católica.

Orlando Brito

Nordeste

Fome e desabrigo

seca 83, ob

A seca que assolou os estados do Nordeste em 1983 foi uma das que mais levou aflição e sofrimento à população da região conhecida como semi-árido brasileiro. Da mesma forma que as demais, esta também expôs a catástrofe social de milhões de homens, mulheres e crianças.

Como foiNaquela época, Aureliano Chaves substituía o presidente João Figueiredo, em viagem aos Estados Unidos para operar o coração. Determinou que a SUDENE e demais órgãos do governo ligados ao tema pusessem em prática medidas de emergência para minorar os efeitos desse rotineiro problema climático da zona da caatinga.

Frentes de trabalho foram organizadas e consistiam em usar os próprios moradores na tarefa de transportar para os açudes e barreiros a água retirada de poços artesianos de maior profundidade construídos em vários pontos do sertão.

Hordas de flagelados com latas sobre a cabeça propiciaram cenas como a que mostra a foto.

OrlandoBrito

Fantasia

Roliúdi

Roliudi, OrlandoBrito 66

Fumar virou brega, insalubre, anti-social, incorreto. De vinte anos para cá, a ciência aprofundou pesquisas para conhecer melhor a questão do tabagismo. A mídia passou a ver o tema de maneira a orientar a população para hábitos saudáveis. O mundo, enfim, foi tomado pela consciência anti-fumo.

Antes, as fábricas de cigarro eram tidas como usinas de charme. Hoje, são chamadas de indústrias da morte. Ao mesmo tempo em que há gente morrendo por conta dos cigarros, há também um protesto contra eles.

 

Como foi- Pois foi durante uma manifestação de funcionários públicos que pediam aumento de salário, na Esplanada dos Ministérios, em 1998, achei estranho que em uma passeata com objetivo tão definido, voltada para o contra-cheque, alguém pudesse estar protestando contra o ato de fumar.

Coloquei na câmara uma lente grande-angular, para evidenciar a mão do ator vestido de morte. Para obter maior contraste e choque, esperei que a fumaça branca ocupasse a fantasia preta. E mais uma vez lembrei-me da velha lição do jornalismo de que todo acontecimento oferece mais de uma faceta.

OrlandoBrito

Direto de Londres

Geisel na Corte, protesto na rua

GeiselLondres, OrlandoBrito 55

Lady Diana era ainda uma criança, em 1976. A estrela da corte britânica era a rainha Elizabeth II que, à época, exibia o sóbrio charme de uma mulher de 50 anos. Acompanhada de seu marido Duque de Edimburgo, recebia a visita do presidente brasileiro Ernesto Geisel e sua mulher, dona Lucy.

O general passou cinco dias no Reino Unido, cumprindo programação oficial a convite da mãe do príncipe Charles. Além vestir-se a rigor para um banquete no pomposo Palácio de Bukingham, o general esteve na tradicional Abadia de Westminster e na embaixada do Brasil, perto do Hide Park, para um drink o com o então embaixador na Inglaterra, Roberto Campos.

Mas, com certeza, viu nas ruas de Londres as manifestações de protesto, vigiadas pela Scotland Yard, contra o regime militar do Brasil. Aí estão as duas cenas que presenciei e fotografei para O Globo, jornal para quem eu trabalhava à época.

OrlandoBrito

Piscina

Fetiche

Gordinha, OrlandoBrito

(Para ilustrar a música de Martinho da Vila)

Oh! Oh! Oh! Oh!

Ah! Ah! Ah! Ah!

Ai, ai, ai! Ai, ai, ai!

Ui, ui, ui! Ui, ui, ui!

Marcantes dobrinhas atrás dos joelhos

Lindas batatinhas moldando as canelas

Meu Deus! Que magia têm os calcanhares

No alto dos saltos das sandálias dela

Ela veio andando com tanta altivez

Ao passar me fitou com feitiço no olhar

Eu senti um tremor de desejo e de medo

Me dando motivo pra fantasiar

Na bolsa que ela carrega

Deve ter algemas, chicote ou chinela

E a tatuagem completa o fetiche

Que a correntinha de ouro revela

Oh! Oh! Oh! Oh!

Ah! Ah! Ah! Ah!

Ai, ai, ai! Ai, ai, ai!

Ui, ui, ui! Ui, ui, ui!

Interiores

O Brasil às seis da tarde

Casa no campo, OrlandoBrito Interior de Minas

Casinha de fazenda perto de Passa Quatro, Minas Gerais.

 

BR040, OrlandoBrito 666

Rodovia que vai de Manaus para a pequena cidade de Breves, no Amazonas.

 

Isolamento

1968

Congresso fechado, OrlandoBrito 66
1968. O Congresso Nacional é fechado pelo Ato Institucional número 5, que permitiu ao então presidente do Brasil, marechal Arthur da Costa e Silva cassar mandatos de parlamentares, proibir o direito de as pessoas se reunirem e estabeleceu a censura.

Como foi – Com o fechamento do Congresso os jornalistas que cobríamos os assuntos da política na Câmara dos Deputados e Senado Federal tivemos de concentrar nossa presença no Palácio Planalto. E, também, nas notícias de outras áreas.

Um belo dia a redação do Globo, jornal mandou-me ilustrar uma reportagem com sobre as novas que estavam sendo construídas mansões do Lago Sul, bairro de classe A na Capital do País.

Foi de lá que reparei nessa cena aí, que bem representava o momento que a Nação vivia: o Parlamento isolado, como uma nave perdida no vasto espaço do Planalto Central.

OrlandoBrito

Diário da República

Clô

clo, orlandobrito
Clodovil Hernandes, deputado, apresentador de tevê e designer de moda.

Como foi – São inúmeras as pessoas que cuidam bem da própria imagem. Mas como o estilista Clodovil, falecido em 17 de março do ano de 2009, são poucas. Assim que chegou à Câmara dos Deputados para cumprir seu mandato, pediu-me que fizesse dele um ensaio fotográfico. É claro que não declinei da oportunidade de retratar um personagem tão marcante.

Pena que antes de concluir o trabalho Clodovil tenha morrido. Uma das fotos que produzi do artista-parlamentar foi essa aí no seu restaurante predileto na Capital.
Orlando Brito