Vandré

Caminhando e cantando

 Caminhando e cantando, OrlandoBrito b

1969. Em frente Congresso, populares fazem manifestação contra o governo. O presidente Costa e Silva, segundo presidente do regime militar, é acometido por uma embolia cerebral. Impossibilitado de governar, teve de ser afastado. Seu vice, Pedro Aleixo, era civil e foi descartado para substituí-lo. Em seu lugar, assumia o poder uma junta militar – composta pelo general Lira Tavares, pelo almirante Augusto Rademaker e pelo brigadeiro Márcio de Sousa e Melo.

Como foi – “Caminhando”, de autoria do compositor pernambucano Geraldo Vandré, é uma das músicas brasileiras de maior simbolismo. Ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção, promovido pela TV-Rio, em 1968. Mas logo em seguida, teve sua execução proibida, durante os tempos brabos da censura, sob a alegação de que incitava a população à resistência contra regime vigente. Ainda assim, virou hino dos chamados anos de chumbo no Brasil.

 

A canção de Geraldo Vandré era cantada sempre nas manifestações políticas. Uma dessas ocasiões foi essa aí da foto, que fiz ao passar pelo Congresso: cerca de duas mil pessoas ocuparam a praça em frente à cúpula da Câmara em protesto contra a subida da junta militar. Mãos levantadas e folhetos impressos com a letra, entoavam “Prá Dizer Que Não Falei de Flores”, o outro título da música à época proibida de ser executada nos rádios, nas tevês ou em recintos públicos.

OrlandoBrito

Manuelzão Nardi

Veredas e sertões

Veredas e sertoes OrlandoBRito 55

Depois que publicou “Sagarana”, João Guimarães Rosa foi vistar um primo que tinha terras perto do Rio São Francisco. Foi nessa viagem, em 1952, que o escritor conheceu o vaqueiro Manoel Nardy, capataz e cozinheiro das tropas de boiadeiros. Rosa percorria o interior de Minas Gerais para colher histórias e referências para livros futuros. Não abriu mão da companhia daquele magrelinho astuto que trabalhava na fazenda do primo. Ao longo das jornadas a cavalo, o boa-praça Manoel revelou-se mais que um guia de caravanas. Transformou no sábio personagem Manoelzão de “Grande Sertão, Veredas” e “Corpo de Baile”.

Como foi – 1991. Manoelzão morava em Andrequicé, a 200 quilômetros de Belo Horizonte. Fui até lá fotografá-lo, pouco antes de sua morte, aos 93 anos. Personagem como este não poderia deixar de figurar em meu livro “Senhoras e Senhores”, que fiz porque ganhei uma bolsa da Fundação Vitae, de São Paulo. Por ter a fama de ser inspirador e personagem literário dos mais importantes livros de Guimarães Rosa, esperava encontrar um sujeito cheio de empáfia e soberba. Que nada! Era exatamente o contrário. Poucas vezes vi exemplo de singeleza e simplicidade.

Típico mineiro. Retraído. Fala mansa e sobretudo comedido. Franzino, botinas de couro cru, chapéu de palha, caminhava com o auxílio de um cajado de madeira. As longas barbas brancas e o temperamento sereno, faziam lembrar a figura de um eremita. Quando perguntei-lhe sobre estar chegando aos 90, ele respondeu-me com a sabedoria que adquiriu ao longo de sua vida no interior:

- Gente nova tem força. Gente velha tem jeito.

Orlando Brito