Maestro

Tom Jobim

Tom em Ipanema, OrlandoBrito 888
Eu era editor da Veja, em São Paulo, e a revista tinha uma reportagem de capa com o maestro Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.A matéria estava resolvida com as fotos que tínhamos, mas faltava o essencial, justamente a imagem que iria para a capa. Elio Gaspari, nosso diretor-de-redação queria uma fotografia fora do convencional, que chamasse a atenção do leitor logo no primeiro contato com a revista, ou seja, a capa. Disse-me:

- Ouse, meu caro, seja ousado.

Então liguei para o Flávio Pinheiro, o chefe da sucursal da Veja no Rio. E pedi-lhe propusesse ao Tom que posasse para nós em Ipanema. O maestro aceitou. Pedimos que fosse bem cedinho, por volta das sete da matina, para evitar um enxame de pessoas a vê-lo. Para nossa surpresa, Tom disse sim novamente. Só me restou voar às pressas de Sampa para o Rio.

Providenciou-se o aluguel de um piano, esse ai, e o levamos para o Arpoador. Levamos não, seis carregadores o suportaram nas costas.

O sol brilhante conspirou a nosso favor. E pouco antes das sete da matina lá estava Antonio Carlos, tal e qual havíamos sonhado.

Enquanto eu fazia as fotos, Tom tocou várias músicas. Várias, “O samba do avião”, “Garota de Ipanema” e outras mais. A certa altura, o senti com uma certa timidez ou desconforto. Eu mesmo achava a cena um tanto ousada para um sujeito tão contido quanto Tom. Ao percebê-lo encabulado, aproximei-me. E tivemos o seguinte diálogo:

- Qual é mesmo sua graça?, perguntou-me

- Brito, Orlando Brito, respondi-lhe.

- Brito, Orlando Brito, eu não sou o …, disse-me baixinho. (Não vou dizer nome do pianista famoso por delicadeza e respeito ao Tom e ao próprio artista citado)

- Tom, Tom Jobim, confie em mim. Creia no meu bom gosto. Não vou lhe transformar em Fulano de Tal, lhe assegurei.

E seguimos fotografando. Não durou muito, uns quinze ou vinte minutos, talvez. Ao final, quando dei o trabalho por completo, agradeci. Ele se levantou do banquinho e preparou-se para tomar seu carro, um Voyage creme. Mas antes de deixar a praia, voltou ao piano e disse:

- Faltou uma canção.

E mandou, sem cantar: Manhã, tão bonita manhã…
E olha que “Manhã de carnaval”, nem é de sua autoria. É composição de Luiz Bonfá e Antonio Maria.

Quanto terminou, levantou-se, deu uma piscadinha para um grupo de jovens senhoras que observava a cena da calçada, entrou no seu automóvel de cor creme, colocou um chapéu de palhinha e saiu, devagarinho, ele mesmo dirigindo.

Acho que gostou, porque na segunda feira-seguinte, quando viu a revista telefonou para nós na Veja e agradeceu. Nem acreditei que Tom Jobim fosse ter lembrança para isto. Teve.

Bem, esqueci-me de dizer que esta foto aí não é a escolhida para a capa da revista. É uma sobra.

OrlandoBrito

Palco iluminado

Silvio Caldas 

SilvioCaldas, OrlandoBrito 888

Os românticos da música polemizam sobre qual o mais belo verso da música brasileira. Se “a lua furando nosso zinco salpicava de estrelas nosso chão. E tu pisavas nos astros, distraída” ou se “nos seus olhos eu suponho, que o sol num dourado sonho, vai claridade buscar”. Para Silvio Caldas não importava. Até porque tanto em “Chão de Estrelas” quanto em “A Deusa da Minha Rua” estavam nas canções de seu repertório, cantado durante sua carreira de oitenta e tantos anos de artista.

Silvio nasceu no Rio, em 1908. O pai tinha uma oficina de consertar instrumentos musicais, além de ser afinador de pianos. Antes de ficar famoso, foi leiteiro, estivador, garimpeiro, mecânico. Subiu num palco para cantar pela primeira vez ainda menino e só parou em 1998, quando faleceu. Foi um dos reis da chamada Era do Rádio, com Emilinha Borba, Nelson Gonçalves, Carmem Costa, Orlando Silva, Marlene. Gravou melodias de Noel, Pixinguinha, Chico Buarque, Ary Barroso, Lamartine, Tom Jobim, Braguinha, Roberto Carlos, Caymmi, Adoniran, Dolores, Antonio Maria e demais compositores qualificados. Dentre os tantos sucessos, o maior é “Chão de Estrelas”, que fez em parceria com Orestes Barbosa. Nunca faltava em seus shows.

Como foi – Era minha decisão: sem a foto de Silvio Caldas, eu não faria “Senhoras e Senhores”, o livro com oitentões consagrados do Brasil, que a bolsa Vitae e a sensibilidade do amigo Jack Corrêa possibilitaram-me publicar. Cheguei ao sítio de Atibaia, onde Silvio morava, por volta das 11 da manhã. Acompanhado da mulher Camila, quarenta anos mais jovem, e do menino Roberto, o filho mais novo, levou-me para ver a plantação de frutas e flores, que ele mesmo cuidava.

Era a arma que usava para melhorar o estado de espírito, combater o fantasma da depressão e lembrar-se dos melhores momentos de sua vida. Sentia-se vitorioso aos 84 anos. Afinal, disse-me, havia sobrevivido a duas Guerras Mundiais, revoluções, perseguições e visto acontecer duas epidemias que sacrificaram milhares de vidas, a gripe espanhola e a AIDS. Na hora da foto, escolhi a posição do pano vermelho que ilustra todas as imagens de “Senhoras e Senhores”. Ele fez questão de posar com violão que ganhara do presidente JK, após uma seresta em Diamantina.

Meses depois, na noite de autógrafos, em Brasília – trouxemos também para a festa o palhaço Carequinha, outro personagem do livro –, vi Silvio Caldas, contando histórias e cantarolando para um grupo de convidados o maior de seus sucessos. Recordei-me de quando lhe indaguei em Atibaia sobre os três melhores momentos de sua vida: - As batalhas de confete dos velhos carnavais, os papos com Ary Barroso e toda vez que cantava “Chão de Estrelas”.

Orlando Brito

População

Basta um close

Basta um close, OrlandoBrito pag

Em breve, o Brasil deverá conhecer o resultado do novo censo populacional feito pelo IBGE. Segundo as estatísticas. há em nosso país em torno de 20 milhões de idosos.

Como foi – Como diz um velho ditado chinês, o conjunto é o resultado de uma infinidade de detalhes. Quando parte para uma matéria, um fotógrafo sabe que é importante retratar cada personagem dentro do ambiente em que este vive. São referências visuais, informações que completarão aquilo que dirá o texto do repórter.

Em 1994 o Nordeste sofria uma das freqüentes secas. Viajei durante trinta dias para a Bahia, Ceará, Pernambuco e Piauí, estados onde a situação era mais grave. Minha função era ilustrar com fotografias as matérias de Elio Gaspari para a Folha de São Paulo, Zero Hora e O Globo. Rodamos em torno de dez mil quilômetros. Era uma região que eu já conhecia bastante, de outras vezes em que fui fazer reportagens para Veja, Jornal do Brasil e para o próprio Globo.  

No caso dessa cearense de quase cem anos de idade, porém, não senti a necessidade de acrescentar outros elementos que “falassem” de sua condição de vida. Dispensei o conjunto, optando pelo detalhe. Achei que um close era suficiente para complementar a descrição de Elio sobre a parede da casa que ela habitava.

Orlando Brito

Anistia

Arrais: a volta do exílio

Arraes, OrlandoBrito pag

Com a Lei da Anistia sancionada em agosto 1979, personagens que tiveram os direitos políticos cassados pela Revolução puderam retornar ao País. Um desses foi Miguel Arrais, deposto do cargo de governador de Pernambuco em 1964. Foi preso. Primeiramente em uma cela do IV Exército, em Recife. Depois, confinado por onze meses na ilha de Fernando de Noronha e, ainda, na Fortaleza de Santa Cruz, no Rio. Amparado por um habeas-corpus do Supremo Tribunal Federal, conseguiu asilo na Argélia, já que a França recusou-se a recebê-lo.

Acusado de subversão, foi condenado à revelia pela Justiça Militar pernambucana. Em seu desembarque foi ovacionado por uma multidão de 50 mil pessoas. Ao retomar a vida pública, elegeu-se duas vezes deputado federal e governador. Arrais faleceu em 2005, aos 89 anos. No Palácio das Princesas, que ele ocupou em três ocasiões, hoje está seu neto Eduardo Campos.

Como foi – O apartamento de doutor Ulysses Guimarães, em Brasília, era endereço certo para os retornados do exílio. Foi lá que fiz essa foto de Miguel Arrais observando da janela do apartamento os novos tempos, deixando para trás os anos de chumbo, com as luzes da democracia.

Orlando Brito

Composição

Político-militar

BotasCong, OrlandoBrito 622

Soldado monta guarda em frente ao edifício do Congresso Nacional fechado dias antes, 13 de dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional Número Cinco, assinado pelo então presidente da República, marechal Costa e Silva.

Como foi – Com a Revolução de 1964, a subida dos militares da chamada linha-dura ao poder, as liberdades democráticas foram gradativamente suprimidas. Em 13 de dezembro de 1968, a força do governo chegou ao cume. Pôs em recesso o Congresso Nacional, com a edição do AI-5. O regime se transformara em ditadura. Era uma realidade que eu precisava representar com uma fotografia. Foi quando encontrei esta cena aí, que bem representa a face daquela crise política: os coturnos de um soldado compondo o desenho do Congresso com as cúpulas da Câmara e do Senado.

Somente dez anos depois, em 1978, o presidente da República Ernesto Geisel acabou com o AI-5.

Orlando Brito

Vixe !!!

A morte do romeiro

A morte do romeiro, OrlandoBrito pag

1982. Canindé, cidadezinha onde acontece todos os anos a romaria de São Francisco, no sertão do Ceará.

Como foi – Era uma matéria sobre a seca no Nordeste para a Veja. Luiz Martins, grande jornalista,  poeta brilhante e hoje professor da UnB, chegamos a Canindé às dez da manhã. Ao percebermos a movimentação num casebre no fim da rua, descemos do automóvel e caminhamos até lá.

 Curiosos, olhamos a triste e silenciosa cena. Lá estava o cadáver de um senhor coberto por um lençol branco. Na altura do abdômen, duas flores vermelhas e uma estatueta do Padre Cícero. Os parentes, filhos, netos, a viúva contristados, em torno da cama de madeira tosca. Velas acesas, orações, soluços.

Assustados, não perguntamos a causa da morte. Não foi preciso. Uma senhora com cigarro de palha entre os dedos aproximou-se e nos sussurrou:

- Foi faca!

Orlando Brito

Continente

A ilha

A Ilha, OrlandoBrito 66 copia

Toda imagem representa algo, comunica uma idéia, tem alguma coisa a dizer.

Como foi – Dia desses, enquanto meu avião não decolava e ainda estava autorizado o uso de notebooks e tablets antes do vôo, resolvi fazer um giro pela Internet, preencher o atraso no aeroporto com algo produtivo. Acabei parando numa página da WWW que recordava um trecho da obra do poeta inglês John Donne, do século dezesseis. Sua poesia inspirou o escritor Ernest Hemingway, quando escreveu o livro “Por Quem os Sinos Dobram”:

- Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é uma parte do continente, parte do todo.

Três ou quatro horas depois, eu estava caminhando na orla de João Pessoa observando a beleza do Atlântico na Paraíba e com a citação que lera pouco antes fixa em minha memória. Foi quando me deparei com essa cena aí, o gordinho solitário isolado e absorto na pequena piscina cercada de pedras que maré baixa construiu. Enquanto fazia a foto, sorria satisfeito com a coincidência do que estava vendo com os escritos da literatura.

Orlando Brito

Cinema

Os deuses e os mortos

LeilaDiniz, RuiGuerra e AnaMaria, OrlandoBrito

Em 1970 o Brasil vivia um dos períodos mais sombrios de sua história. Eram tempos difíceis, de liberdades democráticas extremamente restritas, com tortura a presos políticos nos e desmedida violação à liberdade de expressão: censura à imprensa e às artes.

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro era um dos raros espaços para debates e contestação ao regime militar. Naquele ano, as estrelas da festa eram o diretor Ruy Guerra e as atrizes Ana Maria Magalhães e Leila Diniz.

Ana Maria trabalhou em várias novelas e atualmente é diretora de cinema. Ruy ganhou o grande prêmio do festival naquele ano com filme “Os Deuses e os Mortos”. Depois, casou-se com Leila, com quem teve uma filha, Janaina.

Já a bela Leila Diniz, uma das mulheres mais importantes para a liberação das mulheres no Brasil, viria morrer dois anos depois desse momento num desastre com um avião da Japan Airlines, na Austrália, onde fora receber um prêmio por um de seus filmes. Era marca da ousadia e da sensualidade e rompeu tradicionais conceitos de comportamento.

Eu era um jovem fotógrafo do jornal O Globo e fui pautado para cobrir o festival. Ia à noite para o Cine Brasília, onde havia as projeções dos filmes e, durante o dia, para o Hotel Nacional. Foi que lá que fiz essa foto ai, dos três artistas na piscina.

Orlando Brito

 

Mato Grosso

Krain-a-kore

Krain a kore, OrlandoBrito 66

Pequeno índio da etnia krain-a-kore, que habitava as margens do rio Peixoto de Azevedo, no coração de Mato Grosso.

 

Como foi – Nos idos dos anos 1970, O Globo tinha os olhos voltados não somente para os fatos da política, dos acontecimentos cariocas e das notícias internacionais, mas também para a questão indígena. O jornal destacou o repórter Etevaldo Dias e o fotógrafo Pedro Martinelli para cobrir a caminhada da expedição chefiada pelos irmãos Orlando e Cláudio Villas-Boas.

Os jornalistas ficaram na selva por quase um ano, a região onde foi construída a rodovia Cuiabá-Santarém. Uma epopéia traduzida em notáveis reportagens. Depois de sua volta, coube-me retornar às terras dos chamados índios gigantes, antes de serem transferidos para o Parque do Xingu. Na primeira viagem que fiz, tirei essa foto desse menino. Em torno de noventa dias depois, regressei à aldeia. O garoto havia falecido picado por uma cobra.

Orlando Brito

Bang bang

A vergonha de Morengueira

MoreiraDaSilvaOrlandoBrito pag

A violência e a criminalidade dos tempos atuais encheriam de vergonha, medo e desgosto o sambista carioca Moreira da Silva, conhecido como o “Rei dos Malandros”. Nascido no tradicional bairro da Tijuca em abril de 1902 e falecido em junho de 2000, o cantor marcou seu nome hall da fama da música brasileira com sambas bem-humorados que abordavam a peleja entre bandidagem e polícia. Freqüentador dos bares e da boemia orgulhava-se de jamais ter se metido em uma briga sequer.

Amigo de Noel Rosa, Mário Lago, Ismael Silva, Lamartine Babo e incontáveis estrelas de nossa cultura musical, Kid Morengueira – seu exclusivo apelido – fez sucesso com um repertório de quase 400 gravações, entre elas “Acertei No Milhar”, “Piston de Gafieira” e “Na Subida do Morro”, todas usando como pano de fundo os subúrbios e o centro do Rio de Janeiro. Em “Olha o Padilha”, Moreira da Silva sempre dizia:

- Malandragem é glamour, mas violência é crime.

Em 1992, usou os costumeiros terno branco e chapéu de palhinha para posar o meu livro de fotos “Senhoras e Senhores”.

Orlando Brito