Fotografia é História

Abril de 1977

Ulysses-abril-de-1977-OrlandoBrito 6 fb

Ulysses Guimarães, nascido na pequenina cidade de Itirapina, perto de Rio Claro, em São Paulo. Deputado federal por onze mandatos consecutivos. Advogado e professor. Democrata. Torcedor do Santos. Ministro da Indústria e Comércio nos anos de 1961 e 1962. Um dos fundadores do MDB, foi o destacado condutor da oposição contra o regime militar. Faleceu em 12 de outubro de 1992 a bordo de um helicóptero na Baía de Angra dos Reis. Seu corpo jamais foi encontrado.      
Como foi – Em outubro do próximo ano, 140 milhões de brasileiros irão às urnas para escolher o futuro presidente da República, não custa lembrar que um dos principais responsáveis pela reconquista desse direito democrático foi o Doutor Ulysses Guimarães.
Talvez ele tenha sido o personagem mais expressivo que encontrei em toda minha trajetória de foto-jornalista. Impressionante como sua fisionomia refletia a gravidade de cada momento. Esse aí foi no dia em que o governo fechou o Congresso, em 1977. Sempre digo que Ulysses não era uma simples imagem. Era a efígie de um grande líder.

Orlando Brito   

Fotografia é História

Aqui jaz Cabral

A tumba de Cabral, OrlandoBrito fb

Túmulo do navegador português Pedro Álvares Cabral, comandante da esquadra que descobriu o Brasil. Cidade de Santarém, a 80 quilômetros de Lisboa.

Como foi – Eu queria que “Poder, Glória e Solidão”, livro sobre a política brasileira, tivesse como folha de guarda uma imagem surpreendente, que soasse inédita, mesmo se fosse antiga. Achei que a foto do túmulo do nosso dileto Pedro Álvares Cabra era a adequada. Afinal, o navegador de certa forma representa a gênese do tema que abordo em minha publicação, editada em 2002.

Por ser Cabral um personagem importante no Brasil, imaginei ser famoso também em sua terra natal, Portugal. Mal desembarquei no aeroporto Portela de Sacavém, em Lisboa, parti para Santarém. Ao chegar à antiga Igreja da Graça, tive a maior decepção. Ao contrário de encontrar um suntuoso mausoléu, deparei-me com um sepulcro sem nenhuma pompa. Sobre a lápide de mármore do nosso fidalgo descobridor, há uma simples citação.

Informa de maneira secundária que ali jaz Pedro Álvares Cabral, cujos restos mortais lá só estão depositados pelo fato de o navegador ter-se casado, em torno de 1503, com a governanta-mor da infanta Maria, a donzela Isabel de Castro, filha de Dona Constança e Dom Fernando de Noronha, proprietários do jazigo.

Orlando Brito

Fotografia é História

Composição político-militar

Militar AI5, OrlandoBrito pag

Soldado monta guarda em frente ao edifício do Congresso Nacional fechado dias antes, 13 de dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional Número Cinco, assinado pelo então presidente da República, marechal Costa e Silva. O AI-5 fechava o Congresso Nacional, as assembleias legislativas dos estados e as câmaras municipais de todo o País. Cassava o mandato de dezenas de parlamentares, inclusive o do ex-presidente Juscelino Kubitschek. O decreto também suspendia o direito de habeas-corpus nos processos considerados de caráter político.

O Ato Institucional Número Cinco estabelecia ainda a censura prévia à imprensa, às peças de teatro, aos livros e à música. E mais, proibia várias liberdades, entre elas a reunião dos cidadãos.

Como foi – Com a Revolução de 1964, com a subida dos militares da chamada linha-dura ao poder, as liberdades democráticas foram gradativamente suprimidas. Mas em 13 de dezembro de 1968, a força do governo chegou ao cume. Pôs em recesso o Congresso Nacional, com a edição do AI-5. O regime político se transformara em ditadura. Era uma realidade que eu precisava representar com uma fotografia.

Foi quando encontrei esta cena aí, que bem representa a face daquela crise política: os coturnos de um soldado compondo o desenho do Congresso com as cúpulas da Câmara e do Senado. Somente dez anos depois, em 1978 – quando o presidente Ernesto Geisel botou em curso o processo de abertura política – o AI-5 foi extinto.

OrlandoBrito

Fotografia é História

Diário da República

Ouvir e sair

A noite do Ai5, OrlandoBrito p[ag

A noite de sexta feira 13 de dezembro de 1968 ficou marcada como um dos momentos mais sombrios para a democracia brasileira, considerada uma das mais duras medidas do regime militar que governou o Brasil de 1964 a 1985. O governo do marechal Costa e Silva decretava o AI-5, que fechava o Congresso Nacional, as assembleias legislativas dos estados e as câmaras municipais de todo o País. Cassava o mandato de dezenas de parlamentares, inclusive o do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Também suspendia o direito de habeas-corpus nos processos considerados de caráter político.

O Ato Institucional Número Cinco estabelecia ainda a censura prévia à imprensa, às peças de teatro, aos livros e à música. E mais, proibia várias liberdades, entre elas a reunião dos cidadãos.

Câmara e Senado Federal só foram reabertos dez meses depois para referendar, em eleição indireta, a escolha do novo presidente da República, o general Garrastazú Médici no lugar de Costa e Silva, acometido por uma embolia cerebral. O AI-5 só foi revogado dez anos depois, quando o general Ernesto Geisel ocupava a Presidência da República e facultou o projeto de distensão democrática e reabertura política.

Como foi – Eu era um jovem fotógrafo a cobrir para O Globo os assuntos da política. Vi pela movimentação dos jornalistas veteranos que a notícia estava na Presidência da República, mas seu efeito se mostraria no Congresso. Atravessei o Eixo Monumental N-1, a avenida que separa o Planalto da Câmara dos Deputados e Senado Federal. No Palácio não havia nenhuma foto a ser feita, a não ser a de um contínuo aborrecido distribuindo aos repórteres as cópias do tal decreto presidencial.

Ao chegar ao Congresso, constatei que eu estava certo. Numa salinha do térreo – próxima ao plenário e abarrotada de senhores atônitos, cabisbaixos, em silêncio – consegui fotografar alguns parlamentares de ouvidos atentos a um rádio de pilhas. Chegava pelo ar a intervenção na Constituição anunciada pelo então ministro da Justiça, Gama e Silva.

Entre eles estavam os presidentes da Câmara, da Comissão de Justiça e o líder do governo, Zezinho Bonifácio, Djalma Marinho e Geraldo Freyre, além de jornalistas e alguns funcionários. Ao fim da audição radiofônica, todos tiveram de abandonar o edifício do Congresso.

Nem sei como consegui estar naquele cenário em um momento tão cheio de “não pode”. É verdade que as fotos não são nenhum exemplo de capricho estético. Mas retratam esse momento dramático da história. Ainda assim, apesar do caráter documental que elas contêm, nenhuma delas pode ser publicada. A censura já estava em vigor.

Orlando Brito

Fotografia é História

Diário da República

Adeus, Simon

1 Pedro Simon, OrlandoBrito 1

Interessante como a profissão de jornalista nos coloca diante de situações as mais comoventes. No meu caso, que sou fotógrafo, isto acontece com maior intensidade porque o contato visual e a necessária presença diante de um fato e personagens é imperiosa, essencial.

Pois bem, na tarde do dia 10 de dezembro, fui ao plenário do Senado fotografar um acontecimento que, aparentemente, não iria produzir grandes emoções. Me refiro ao discurso de despedida do senador Pedro Simon, do Rio Grande Sul. Simon subia à tribuna para dirigir-se aos presentes e ao povo brasileiro. Estava ali para dar adeus à sua longa vida pública.

Pedro Simon entrou para a política quando era ainda um jovem advogado de 28 anos que se elegia vereador em sua cidade natal, Caxias do Sul. Sua marcante atuação na câmara municipal o levou a uma cadeira de deputado estadual por quatro mandatos consecutivos em Porto Alegre. Em 1978, no PMDB, Simon desembarcou na Capital Federal, escolhido senador pelos gaúchos. De lá, até àquela tarde, não passou um dia sem mandato.

O Brasil vivia o fim de uma década movimentada e conturbada na política. Ainda governado pelo regime militar, o País clamava nas ruas tempos de maior liberdade. E Simon chegou para engrossar um time de deputados e senadores que lideravam esse sentimento: Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Paulo Brossard, Marcos Freire, Jarbas Vasconcellos, Fernando Lyra, Teotônio Villela, Lisâneas Maciel, entre outros democratas.

2 Pedro Simon, OrlandoBrito 2

Era grande a luta para que o Brasil voltasse a reconquistar a normalidade democrática. O general Ernesto Geisel punha em prática sua política de abertura, antes de passar a presidência da República a seu sucessor, João Figueiredo. Eu mesmo, à época fotógrafo do jornal O Globo e depois da revista Veja, cobri de perto os principais movimentos da politica. No Palácio do Planalto, o lado da situação estabelecida pelo golpe militar, em 1964. No Congresso Nacional, a oposição incansável dos políticos. Simon era um dos destaques.

Peregrinos da liberdade.

Nem sei quantas vezes fotografei, Brasil a dentro, os comícios do movimento Diretas-Já e as reuniões que exigiam o fim das torturas, da censura, da anistia aos exilados e da instalação de uma nova assembléia constituinte. Realmente não sei o número de fotos que fiz desses temas. Mas sei que praticamente todas contam com a presença firme de Pedro Simon, ao lado dos líderes Ulysses e Tancredo.

Durante esses quase cinqüenta anos eu acompanhei e retratei a história do poder no Brasil, vi de perto e tive a primazia de documentar momentos de extrema emoção, importantes na vida da nação. É raro, porém, a foto em que não aparece a singela e ao mesmo tempo imponente, figura do senador Pedro Simon. O certo é que Simon estava na tribuna, a falar e despedir-se da vida pública, iniciada seis décadas antes. No plenário, somente parlamentares mais amigos. Por exemplo, Jarbas Vasconcellos, Luiz Henrique, Aécio Neves, Eduardo Suplicy, Álvaro Dias.

O ex-presidente José Sarney é um exímio orador. Certa vez em um discurso fez uma citação de um dos seus autores prediletos, o Padre Antônio Vieira. Chamou-me a atenção por ver meu ofício de fotógrafo incluído em seu pensamento. Em um dos seus sermões, o Padre Vieira dizia:

- Deus, quando criou a figura humana, deu-lhes os olhos para principal função: enxergar. Perceber, sentir e emocionar-se com as coisas existentes. Mas, depois, acrescentou a possibilidade de chorar. Porque chorar é a maneira de a alma expressar seu mais puro sentimento.

No dia 10 de dezembro de 2014, pois, eu estava nas galerias do plenário do Senado com meu olhar atento a um personagem familiarizado com a história do Brasil, e com meu testemunho. Era Pedro Simon em seu momento final como parlamentar, em seu derradeiro discurso, dava sua palavra de despedida. A última vez que subia à tribuna do Parlamento. A bancada de senadores a ouvi-lo era mínima. Somente fieis amigos e companheiros de eras outras lá estavam para ouvi-lo, aparteá-lo, aplaudi-lo.

Ao final do seu discurso, percebi que o velho senador – tão bravo e destemido, forte e corajoso, que eu mesmo fotografara no front de muitas batalhas em defesa de causas tão nobres, de quem eu fizera mil fotos com seus colegas democratas – dessa vez cedia à sua própria emoção. Não conteve as lágrimas. Confesso que meus olhos, tão acostumados à função de perceber com frieza o decorrer dos fatos e a presenciar com isenção tantos lances da história, dessa vez também cederam à função a que se referia o sábio Padre Vieira.

Não somente a presença de Pedro Simon, agora com 84 anos, me emocionou. Perto de terminar sua oração, reparei que, bem pertinho de onde eu estava, nas galerias superiores do plenário, um grupo de colegiais o aplaudia calorosamente. Eram 27 jovens de uma escola brasiliense. Alunos, meninos e meninas do ensino médio. Perguntei-lhes a razão de sua presença ali. Ouvi de um deles:

- Soubemos pela mídia que o senador Pedro Simon faria hoje seu último discurso. Convencemos nosso professor de história a nos trazer para presenciarmos um momento tão significante, de um homem de conduta exemplar e honrado. Coisa rara na política. Sujeito íntegro, de conduta irrepreensível, que jamais teve um escândalo a manchar sua biografia…

Simon, OrlandoBrito 3

Bem, mais uma vez fiquei emocionado e resolvi deixar o cenário do fato para seguir para outra pauta do meu dia-a-dia do poder. Enquanto conferia em minha câmara as imagens que havia feito, caminhava em silêncio, deixando as galerias. Mas podia ouvir ao longe o aparte de um jovem senador:

- Pedro Simon é um dos mais bem qualificados homens públicos do Brasil. Deveria fazer uma nova peregrinação pelo País para dizer da decência, da simplicidade, da seriedade, da humildade, da compostura, ética, dignidade…

Orlando Brito