O começo da agonia

Doutor Tancredo Neves

Tancredo, o comeco da agonia, Foto OrlandoBrito pag

Em 1985 o Brasil viveu um dos momentos mais tensos de sua história. Na véspera de 15 março, dia em que tomaria posse como presidente da República, Tancredo Neves teve de ser internado às pressas no Hospital Distrital de Brasília.

Doutor Tancredo foi eleito pelo voto indireto no colégio eleitoral em 15 de janeiro, dez dias após completar 75 anos. Empresário e advogado, ex-deputado, ex-ministro, ex-senador e ex-governador de Minas Gerais, contraiu uma infecção no divertículo, mal que acabou por tirar sua vida, em 21 de abril de 1985, depois de 38 dias de agonia. Em seu lugar, tomou posse o vice José Sarney.

Como foi – Tantos anos no front da notícia, perdi o número de vezes em que o sofrimento foi o alvo de meu trabalho. Mas tenho certeza de que uma das coberturas mais angustiantes foi aquela, dos momentos que precederam a morte do doutor Tancredo. Não somente pelas circunstâncias humanitárias, mas também pelo caráter político de seu significado. Era, aliás, um sentimento de todos os interessados na normalização da vida democrática do País, após vinte e um anos de regime militar. O temor era de que a esperança de ver um civil na principal cadeira do Palácio do Planalto também fosse para a UTI. 

Fico cada vez mais impressionado com o poder de premonição que uma fotografia jornalística contém. Sempre digo que, na verdade, elas têm maior capacidade de se referir ao futuro que simplesmente retratar uma mera situação acontecida. Dois dias antes da missa a que comparecera no Santuário Dom Bosco em ação de graças pelo mandato que brevemente se iniciaria, fiz para a revista Veja essa foto aí. 

Tancredo era um dos vários personagens importantes da minha área de cobertura, a seara do poder. Durante duas décadas, praticamente todas as semanas o fotografava. E no ano anterior, então, mais ainda, porque era um dos democratas que subiram com Ulysses Guimarães ao palanque nos comícios do movimento Diretas-Já. Eu era bem familiarizado com sua imagem, portanto. Naquela tarde-noite na igreja, achei estranho seu exagerado silêncio. E, sobretudo, esse gesto de dor, que jamais eu o tinha visto fazer. Não podia imaginar, porém, que representava o início de sua agonia.