Pinochet e Figueiredo

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Os generais João Figueiredo e Augusto Pinochet no passeio de charrete num quartel de Santiago, durante visita presidencial.

Como foi – Lembre-se de que vários brasileiros se exilaram no Chile, fugindo do regime militar instalado no Brasil em 1964. Mas, com a queda de Allende, tiveram que buscar asilo em outros países. Tempos brabos vivia o povo chileno, de ditadura. Nenhum chefe de Estado visitava Pinochet. Mas Figueiredo resolveu ir a Santiago.

Mesmo tendo como objetivo fazer cobertura da visita presidencial, alguns jornalistas brasileiros tiveram problemas com a força militar. Eu mesmo fui detido na Praça da Constituição quando fotografava o palácio La Moneda, ainda com as paredes cheias de furos das balas, marcas do conflito da tomada do poder, em 11 de setembro de 1973. Foi preciso interferência de um diplomata do Itamaraty para me soltar.

À noite, seis colegas repórteres fomos a um restaurante frequentado por políticos, que funcionava nos fundos do edifício do Congresso, posto em recesso. Nem demos importância ao “toque de queda”, ou seja, à obrigatoriedade de voltar para o hotel antes das 22h. Na verdade, estávamos acostumados com tempos mais amenos no Brasil, com o processo de redemocratização iniciado pelo general Ernesto Geisel e seguido por Figueiredo. Não deu outra. O exército chileno chegou e encrencou com todo mundo. Com Roberto Stefanelli, Ricardo Pedreira, Álvaro Pereira, Emerson Souza, Flávio Salles e comigo. Só fomos liberados depois de convencermos o comandante do pelotão que nos levar para um quartel seria motivo de reportagens mundo afora e que isto não ficaria bem para a “democracia” de Pinochet.

Itamar. A última foto


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Itamar Franco no plenário do Senado em junho de 2011, pouco antes de seu aniversário.

Doutor Itamar nasceu em 28 de junho de 1930, a bordo de um navio na costa da Bahia, mas considerava-se mineiro. Engenheiro civil, morador de Juiz de Fora, foi eleito três vezes senador. Governou Minas Gerais de 1999 a 2003. Vice de Fernando Collor de Mello, assumiu a presidência da República, substituindo-o depois de sua saída, em decorrência do processo de impeachment.

Como foi – Todo fotojornalista que faz cobertura de um setor da sociedade toma como norma ter o controle visual dos personagens que dele tomam parte. É assim com o pessoal que trabalha, por exemplo, com desportistas, artistas, celebridades, políticos… Mesmo sendo uma infinidade de nomes, deve cumprir o exercício de “entrar na alma” dessas pessoas, perceber seu estado de espírito, sua maneira de se vestir e de falar, seu humor, etc. Ainda mais quando se trata de personagem importante da história.

Não era, para mim, diferente com Itamar Franco. Já tinha afinidade com sua imagem desde 1974, quando chegou ao Congresso pela primeira vez. Havia sido eleito por Minas senador pelo MDB. E também em outras ocasiões o fotografei nos comícios do movimento Diretas-Já, ao lado de Ulysses Guimarães, Mário Covas, Fernando Henrique, Lula, Montoro, Teotônio Vilela, Brizola, Dante de Oliveira, Jarbas Vasconcellos, Tancredo Neves e outros expoentes da política. E, além disso, muitas vezes quando assumiu o Palácio do Planalto e o governo de seu estado.

O jeito extrovertido e casmurro o transformava em alvo predileto das câmaras, dos jornalistas. Após longa ausência da cena política, estava de volta ao Legislativo. Mostrava-se feliz de mandato novo, de senador, dessa vez pelo PPS. Parlamentar de assídua e marcante presença.

 

Mas nesse dia, ao vê-lo no plenário, o percebi distante, isolado de seus colegas senadores, estranhamente cabisbaixo, ensimesmado. Aquele ar estranho me levou a fazer essa foto aí. Triste e surpreendente. Foi a última imagem que fiz do doutor Itamar Franco. Horas após, ele seria internado e viria a falecer em São Paulo, de leucemia, aos 81 anos, em 2 de julho de 2011.