Alo alô, modernidade

Base Aérea de Brasília, começo da noite de 30 de novembro de 1982, minutos antes do pouso do Air Force One, o avião que trazia Ronald Reagan para uma visita ao Presidente João Figueiredo: jornalistas brasileiros usam e abusam da novidade e da fartura dos telefones vermelhos com DDD, espalhados na pista e colocados à sua disposição pelo serviço de imprensa da Casa Branca e do Itamarati.

Interessante como algumas fotografias adquirem características interessantes com o passar do tempo, mesmo não sendo nenhuma maravilha em termos de estética. Ao contrário, adquirem valor pelo seu simples conteúdo. É que, em geral, elas fornecem referências de uma época. Bem o caso dessa aí.

Nesse dia, fiquei reparando a curiosidade dos meus colegas repórteres com tamanha versatilidade de comunicação da época, a maravilha que a tecnologia de então lhes propiciava. Resolvi fazer um clic para, anos depois, compará-la com o avanço dos tempos. E chegou a hora de fazer isto.

Passados trinta e cinco anos, vemos que os telefones vermelhos – exemplo de modernidade naquela distante do início da década de 1980 – são hoje artigo bem raro. Para comprar um deles é necessário consultar a Internet. Aliás, a Internet, que naquele tempo praticamente não existia, pode ser hoje acessada por um dos oito bilhões de aparelhos celulares, os super telefones da atualidade e que naquele tempo ninguém nem podia imaginar viriam existir.

Alo-alo-modernidade

Juazeiro, Bahia

Mau-olhado, quebranto ou Damião e a benzedeira

Juazeiro, Bahia

Benzedeira. É nela em quem muita gente deposita a crença e a esperança de resolver aflições e superstições, como o quebranto, o mau-olhado e suas conseqüências: a inveja, o azar, a tristeza.
Juazeiro, Bahia, 1987.Essa é uma das muitas histórias que aconteceram comigo durante as viagens que fiz pelo interior do Brasil colhendo fotos para o livro “Corpo e Alma”.

Como foi – A benzedeira mandou Damião fechar os olhos. Tomou sua mão e deram uma volta pelo quintal. Depois, lhe disse para sentar-se no tamborete de madeira. Como estava de olhos cerrados, o paciente errou o alvo e levou o maior tombo. Para ele, tudo bem. Em nome de tirar do corpo a sensação de moleza e desânimo qualquer lance lhe servia, ainda que fosse cômico como sua queda.

Depois de benzer o crédulo Damião com uma flor branca e um ramo de arruda, a rezadeira finalizava o ritual da simpatia. Sem olhar para trás, ela saiu caminhando de costas em direção à rua olhando fixamente para o bendito Damião.

Tadinha! Tropeçou com os calcanhares em um cão que dormia próximo ao portão. Se a mordida do cachorro foi dolorida e se a situação do nosso Damião melhorou, não tenho notícia. Mas quando fui retirar o filme de minha Leica, percebi que a tampa que impede entrada de luz não estava corretamente fechada. Depois de revelar o filme, vi que o negativo apresentava essa invasão luminosa em cima de Damião. Como o véu branco sugeria alguma interferência do além, deixei permanecer.

Cruz credo!

Orlando Brito