Feira livre

Feira livre

Importado, original, genérico ou autêntico ?

"Importado, original ou autêntico" - Foto Orlando Brito

Era domingo e eu estava dirigindo pela cidade. De acordo com as leis do trânsito, parei o automóvel para fazer uma ligação telefônica usando meu bravo celular. Foi quando me deparei com uma realidade desagradável do mundo moderno: a bateria descarregada do telefone móvel.

Não quis voltar à minha casa, queria resolver a todo custo a questão ali mesmo, perto de onde eu estava. Afinal, em qualquer esquina ou rua há sempre um vendedor de quinquilharias eletrônicas, pronto para resolver esse tipo de problema. E eu estava passando sobre a Rodoviária de Brasília, um paraíso de ambulantes. Precisava de um carregador que, ligado à tomadinha do meu carro, me devolvesse força suficiente para minha chamada telefônica.

– Preciso de um carregador para esse telefone. Você tem aí?, indaguei a esse moço ai da foto.

-Sim senhor. Você quer original, importado, genérico ou autêntico?, retrucou o vendedor.

Caramba, pensei… IMPORTADO, ORIGINAL, GENÉRICO ou AUTÊNTICO??? ! Quanta opção!!! Que sensacional.

No afã de restabelecer a carga do celular e na dúvida de qual dos quatro tipos resolveria com acerto minha questão, não hesitei. Comprei dois. Afinal, era baratinho. Vinte reais pela dupla de peças. Levei o “importado” e o “original”. Desprezei o o “genérico” e “autêntico” porque os achei com jeitão de quinta categoria, muitos suspeitos.

Retornei radiante ao carro com a certeza de que havia resolvido o dilema da bateria descarregada.

Evidentemente, não deu certo. Decepção. Nenhum dos dois carregadores funcionou. Nem o “original”, nem o “importado”. Até agora estou pensando se deveria ter escolhido o “genérico” ou “autêntico”.

Cada uma…

Moreira da Silva

A vergonha de Kid Morengueira

kid Morengueira, Foto Orlando Brito

A violência e a criminalidade dos tempos atuais encheriam de vergonha, medo e desgosto o sambista carioca Moreira da Silva, conhecido como o “Rei dos Malandros”.

Nascido no tradicional bairro da Tijuca em abril de 1902 e falecido em junho de 2000, o cantor marcou seu nome hall da fama da música brasileira com sambas bem-humorados que abordavam a peleja entre bandidagem e polícia. Freqüentador dos bares e da boemia orgulhava-se de jamais ter se metido em uma briga sequer.

Amigo de Noel Rosa, Mário Lago, Ismael Silva e Lamartine Babo, fez sucesso com um repertório de quase 400 gravações, entre elas “Acertei No Milhar”, “Piston de Gafieira” e “Na Subida do Morro”, todas usando como pano de fundo os subúrbios e o centro do Rio de Janeiro.

Em “Olha o Padilha”, Kid Morengueira, como era também conhecido, dizia que: “malandragem é glamour, mas violência é crime”. Em 1992, usou os costumeiros terno branco e chapéu de palhinha para posar o meu livro de fotos “Senhoras e Senhores”.

Mercedes Sosa

A voz da liberdade

Mercedes Sosa, OrlandoBrito

Década de 1980: na volta do exílio na Europa, a cantora argentina Mercedes Sosa faz show no Brasil.

Em 1982 o tempo brabo do regime militar já havia passado, com o processo de abertura política, o fim do AI-5 no período do presidente Geisel, e a Anistia com João Figueiredo.

Portanto, depois do período de censura à imprensa, ao teatro, cinema e música, artistas de todos as matizes podiam apresentar suas canções, antes proibidas. Mercedes Sosa era uma deles. Fazia parte do chamado grupo de artistas democratas da América Latina. Em seu país, dirigido por generais durante década e meia, a artista foi perseguida e teve de exilar-se em Paris e Madri. Só pode retornar a Buenos Aires, às vésperas do governo de Raúl Alfonsín.

Foto-jornalista metido em coberturas de todo tipo, não perdi a chance de ir fotografá-la no Teatro Nacional de Brasília. Ainda me recordo de quando, ao final de sua apresentação, Mercedes agradeceu os aplausos:
- Amigos do Brasil, trago em minha voz da luta pela liberdade.

(Mercedes Sosa morreu em Buenos Aires no dia 4 outubro de 2009, aos 74 anos)

Orlando Brito