Cartas para Saramago

O escritor português José Saramago recebe as correspondências que chegam a seu endereço de Lisboa. Lisboa, 1993saramago

Como foi –

Fui a Portugal fazer com Luís Costa Pinto várias matérias para a Veja. Uma delas, com o Saramago. Ele resolvera mudar-se para Lanzarote, uma das ilhas Canárias, depois que seu livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” foi censurado em seu próprio país, em 1991.

Ao lado da mulher espanhola Maria Del Pilar, dizia ter encontrado o lugar ideal para meditar e escrever. Não tirou o pé de lá durante meses. Mas sempre voltava a Lisboa para principalmente atualizar e conferir a correspondência. Afinal, um ganhador do prêmio Nobel de Literatura recebe mensagens de admiradores e amigos de todo o mundo.

O carteiro já sabia que dificilmente encontraria o famoso destinatário e por isso confiava as cartas ao dono da singela quitanda do Mascote, vizinha do modesto apartamento de Saramago, na Rua dos Ferreiros, no Bairro da Estrela, um dos mais tradicionais da agradável da capital portuguesa.

Orlando Brito

Breves palavras sobre essa fotografia

breves palavras portao de ferro

Já faz muito tempo, quando eu era ainda um estudante do ginásio no Colégio Dom Bosco, ouvi do professor de história as palavras atribuídas a Voltaire, cujo nome original era François-Marie Aouet. O escritor iluminista francês filosofava sobre a existência ou não de um fato:

– Um cego, à meia-noite, num quarto escuro, procurando uma azeitona preta que não existe.

Tornei-me fotógrafo e o dito de Voltaire repetido pelo professor Sandin jamais me saiu da lembrança. Claro, jornalistas lidamos com acontecimentos, fatos e, no meu caso mais ainda, com a imagem real de alguma coisa. Não se fotografa o nada.

Nem sei quantas vezes, perdi a conta, o quanto fiquei de olho atento, ao meio-dia, diante de uma porta aberta à espera de um personagem que estava lá.

Foi o que me aconteceu na tarde desse sábado. Cobrindo a chamada seara do poder, não desligo um minuto dos nomes que ponteiam o notíciário. Há décadas estou no front do que acontece. Ainda mais nos tempos atuais, diante de duas crises: de pandemia e de governo.

Jair Bolsonaro saiu cedo para uma viagem de helicóptero ao interior de Minas Gerais. Passou horas por lá. No fim da tarde, retornou a Brasília. Como estou finalizando um livro sobre os 15 últimos presidentes da República, não queria perder a chance fotografá-lo em seu desembarque no Palácio Alvorada.

A distância que separa a porta da residência presidencial do local destinado à imprensa é muito grande. Porém, minhas inseparáveis Leicas sempre me possibilitam retratar as cenas que acontecem ao longe. Difícil enxergar a olho nu, ainda mais tendo no meio da visão um portão de ferro.

Mas aí está a foto de Jair Bolsonaro, parado na porta do Alvorada, rodeado por seus agentes de segurança. O que fazia alí, estático, de braços cruzados durante minutos, minutos e minutos, não sei.

Lembrei-me da aula do professor Sandin, quando  citou Voltaire: – Um cego, à meia-noite, num quarto escuro, procurando uma azeitona preta que não existe.

Orlando Brito

Câmara e Senado à espera de seus novos presidentes

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Salão Verde da Câmara Federal — outrora tão repleto de parlamentares, funcionários, assessores, visitantes, lobistas e jornalistas –, agora vazio em função da pandemia da Covid

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 Túnel do Tempo do Senado, com Túnel do Tempo do Senado, com corredores vazios em tempos de pandemia: senhoras e senhores senadores à espera da hora de votar. Na reeleição de Davi Alcolumbre? Em Simone Tebet, que se tornaria a primeira mulher a presidir a Casa? Ou em outro nome que até agora não se conhece?

Vá em paz, Maradona! O Brasil também chora sua morte

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Estádio Delle Alpi, em Turim. Maradona comemora a vitória da seleção Argentina sobre a do Brasil, na Copa do Mundo da Itália, em 1990. Fotos Orlando Brito

Como foi – É assim! Jamais brigar com a realidade é regra número um que um jornalista tem de obedecer. Independentemente de sua torcida particular, um fotógrafo deixa de lado sua paixão em nome de registrar o fato tal qual ele aconteça. Esse momento aí, que mostra a vibração de um dos mais destacados jogadores argentinos das últimas décadas, é um bom exemplo.

Eu estava na expectativa de fotografar para os leitores da Veja a alegria de Careca, Müller ou Bebeto. Mas tive que mostrar mesmo foi a euforia de Maradona rolando na grama de felicidade. Quem podia imaginar que naquele jogo estavam dois jogadores que, 18 anos depois, se transformariam em técnicos de suas seleções nacionais?: Dunga e Maradona.

Voltamos para casa após a derrota por um a zero, gol de Caniggia. Eles seguiram, mas não foram campeões. Perderam para Alemanha de Mathäus e ficaram com o segundo lugar.

Grande craque, polêmico e brilhante. Encheu o mundo do futebol de lances inesquecíveis.
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Memória: 13 de dezembro de 1968 – O triste dia do tenebroso AI-5

Memória: 13 de dezembro de 1968 – O triste dia do tenebroso AI-5

A sexta-feira 13 de dezembro de 1968 ficou marcada como um dos momentos mais sombrios para a democracia brasileira. O governo do marechal Arthur da Costa e Silva decretava o AI-5.
O Ato Institucional Número Cinco fechou o Congresso Nacional, cassou o mandato de vários parlamentares, estabeleceu a censura à imprensa, ao teatro e ao cinema e a tudo que pudesse representar opinião de qualquer cidadão. E também restringiu várias liberdades, por exemplo a reunião de pessoas fossem quaisquer os motivos. Permitia confiscar bens, suspender o instituto do habeas-corpus, a tortura.
Somente dez anos depois, em 1978, o presidente Ernesto Geisel, com o processo de redemocratização do país, pôs fim ao AI-5.
Recentemente, o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do senhor que preside agora o Brasil, e o ainda atual ministro da Economia, Paulo Guedes, voltaram a referir-se a esse fantasma que jaz na triste gaveta da história do país. O primeiro, disse em entrevista que “vai chegar um momento em que a situação vai ser igual ao final dos anos 1960 no Brasil” e o remédio é a volta de uma intervenção na Constituição como o AI-5. Já o segundo, em viagem a Nova Iorque: — Não se assustem se alguém pedir o pedir o AI-5.
Bolsonaro na manifestação pró-ditadura em frente ao QG do Exército em Brasília

Bolsonaro na manifestação pró-ditadura em frente ao QG do Exército em Brasília

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O próprio Jair Bolsonaro participou de manifestações de fãs dele pedindo a volta do famigerado AI-5. Mais de uma. Por exemplo, no Quartel-General do Exército, em Brasília, o Setor Militar Urbano.
As palavras e ações de ambos os três tiveram imediata repercussão. Democratas de todos os cantos saíram em defesa da normalidade constitucional, em repúdio à funesta ameaça. Ex-presidentes da República, juristas, parlamentares, empresários, jornalistas, entidades de classe, cidadãos comuns e, sobretudo, parentes de mortos pelo regime militar.
Passados 52 anos, em tempos novos, com a Internet dando voz a todas as pessoas, seria possível as mesmas proibições do tal AI-5?
Como foi em 1968?
– Eu era um jovem fotógrafo e cobria para o jornal O Globo os assuntos da política. Senti que a notícia estava na Presidência da República, mas seu efeito se mostraria no Congresso. Atravessei o Eixo Monumental, a avenida que separa o Palácio da Câmara e Senado.
No Planalto não havia nenhuma foto a ser feita, a não ser a de um contínuo aborrecido distribuindo aos repórteres as cópias do decreto presidencial.
Eu estava certo. Numa salinha do térreo abarrotada de senhores atônitos, consegui ainda fotografar alguns deputados ao pé do radinho de pilhas ouvindo a leitura da intervenção na Constituição feita pelo então ministro da Justiça, Gama e Silva. Entre eles, estavam os presidentes da Câmara, da Comissão de Justiça e o líder do governo, Zezinho Bonifácio, Djalma Marinho e Geraldo Freyre, além de jornalistas e funcionários.
Parlamentares e jornalistas ouvem pelo rádio a decratação do AI-5

Parlamentares e jornalistas ouvem pelo rádio a decratação do AI-5

Decretado o AI-5, os deputados deixam o Congresso, fechado pelos militares

Decretado o AI-5, os deputados deixam o Congresso, fechado pelos militares

Logo em seguida, todos tiveram de abandonar o edifício do Congresso. Câmara e Senado Federal só foram reabertos dez meses depois para referendar, em eleição indireta, a escolha do novo presidente da República, o general Garrastazú Médici, no lugar de Costa e Silva, acometido por uma embolia cerebral.
Orlando Brito