O estilo Ibrahim

Gaspari e Sued

Ibrahim Sued

A propósito do lançamento do livro “A ditadura acabada”, que encerra a série de cinco volumes sobre o período em que o Brasil viveu sob o regime militar, escrito pelo magistral jornalista Elio Gaspari.

Assim como nos outros quatro títulos anteriores – “A ditadura envergonhada”, “A ditadura escancarada”, “A ditadura derrotada” e “A ditadura encurrada” – este livro também faz uma profunda viagem à história do Brasil desde o golpe de 1964, com a queda do presidente João Goulart, até a saída do general João Figueiredo, em 1985. Aclara momentos terríveis desse tempo, com revelações importantes sobre as crises e personagens que determinaram os rumos do País.

Elio Gaspari é brasileiro de Nápoles, na Itália. Nasceu em 1944 e imigrou para o Brasil ainda criança, com a mãe viúva. Trabalhou no Jornal do Brasil, em O Globo, no Estadão. Correpondente em Nova Iorque durante anos com sua mulher, a não menos brilhante Dorrit Harazim. Transformou-se num dos mais respeitados e bem informados repórteres de nossa profissão. Hoje é colunista da Folha, O Globo e Zero Hora. Onisciente. É daqueles caras que a gente tem a certeza de que conhece a fundo todos os assuntos. Eu mesmo, por mais de uma decada, trabalhei com Elio na Veja, quando ele era Diretor de Redação e eu, Editor de Fotografia da revista, em São Paulo, e fotógrafo, em Brasília. Aprendi muito.

Pois Gaspari dedica “A ditadura acabada” ao colunista Ibrahim Sued, com quem iniciou na profissão, ainda na década de 1960. E sobre Ibrahim?

Aonde chegava, Ibrahim Sued chamava atenção. Todo mundo queria estar ao lado do colunista mais importante do Brasil. Fosse nas festas de São Paulo ou nos salões do Copacabana Palace. E mesmo no plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília, como no dia em que emprestou sua presença para prestigiar uma sessão solene em homenagem de seu amigo, o príncipe Dom Pedro de Orleans e Bragança, no início da década de 1990.

 Filho de humildes imigrantes árabes, Ibrahim nasceu no bairro de Botafogo, no Rio. Após concluir o curso ginasial, foi trabalhar como fotógrafo free-lancer, em 1946. Aí começa sua trajetória como jornalista, que só veio terminar cinco décadas depois, com sua morte. Ele fez uma foto do momento em que o líder da UDN, Octávio Mangabeira, cumprimentava o ex-comandante das tropas aliadas durante a Segunda Guerra Mundial, Dwigth Eisenhower, que depois viria ser presidente dos Estados Unidos. Por ilusão de ótica, a imagem dava a impressão de que o deputado baiano beijava a mão do general americano.

 O Globo publicou na primeira página. Meses depois, Ibhahim passava a escrever e assinar uma coluna diária no jornal dos Marinho. Com Sued, o colunismo ganhava novo formato. Deixava de noticiar somente as fofocas e passava às notas de maior conteúdo informativo. Mas, sobretudo, era fruto da vaidade da sociedade carioca. Gerou o maior frisson a lista das 10 mulheres mais belas, mais elegantes. Ele enchia as notas de glamour, notícia e malícia. Zózimo Barroso do Amaral, do Jornal do Brasil, e Jacinto de Thormes – o Maneco Müller –, da Última Hora, rivalizavam com Ibrahim Sued.

 Não é por outra razão que até hoje muitos profissionais de imprensa se inspiram em seu estilo, seja no jornal impresso ou na TV. Pela coluna do Ibrahim desfilaram as mais famosas personalidades do Brasil e do mundo. Reis e rainhas, presidentes, políticos e empresários, esportistas, artistas e todo tipo de gente famosa passaram pelas 15 mil edições que ele fez entre 1946 e 1995. As socialites, hoje rebatizadas como celebridades, ele chamava de “locomotivas” ou “dondocas”. As jovenzinhas ricas, de “cocadinhas”. E os inimigos, de “buzuntas”.

 Ibrahim revelava segredos quase diariamente e lançou vários bordões, ente eles: “Em sociedade tudo se sabe”. Ou, “Olho vivo, cavalo não desce escada”. Também “Os cães ladram e a caravana passa”. E ainda, “Ademã, que eu sigo em frente”. Esse último, quando se despedia dos telespectadores de seu programa noturno na TV Globo.

 Três curiosidades nessa foto. A primeira: Ibrahim com seu habitual cigarro Minister apagado entre os dedos, enquanto manuseia um Masbaha, o rosário de 32 contas de pérola e de origem árabe, usado para evocar a paciência. A segunda, à sua direita, o deputado Gustavo de Faria, um em militar que se elegeu pelo Rio e depois ganhou na Loteria Federal. E a terceira, aquele jovem senhor de bigodinho preto. Era o deputado pelo Paraná, Carlos Roberto Mazza, o Ratinho, hoje apresentador de televisão.

 Orlando Brito

 

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