Projeto Dores

Campanha contra a violência no trânsito

Começou a ser publicada nesta semana nas revistas, na Internet e jornais impressos de todo o Brasil a série de fotos que estou fazendo para a campanha contra a violência no trânsito, do Ministério das Cidades. O projeto intitulado “Dores” tem a finalidade de, por meio de fotografias, sensibilizar condutores de veículos a dirigir com responsabilidade para evitar acidentes.

Evidentemente, antes de dar início ao trabalho, eu tinha a certeza de que iria estar diante de personagens definitivamente marcados pela dor, pelo sofrimento, pela morte, pela perda de um ente querido, um familiar, um amigo, um conhecido.

Mesmo sendo um foto-jornalista acostumado ao longo de anos a estar frente a frente de fatos os mais variados, de catástrofes e tragédias, não podia imaginar iria encontrar tanto sofrimento. Entrei em contato, através de entidades que reúnem familiares de pessoas vitimadas por acidentes e, durante semanas me comuniquei com elas por e-mail e por telefone. Expliquei-lhes da importância de emprestarem sua imagem em benefício da causa. Para minha surpresa, nenhuma delas de opôs. Ao contrário, se dispuseram a posar para uma foto expressando sua dor, sua revolta, o clamor pela punição dos culpados.

Passei noites sem dormir e dias a fio concentrado, preocupado em dar um conceito ao conjunto de fotos. Pedi a cada um dos personagens – residentes em pequenas e grandes cidades de vários estados do País – que me enviasse uma fotografia de seu familiar falecido. Mandei imprimir a foto de todos e colocá-las num porta-retratos para estes tomarem parte da cena.

Pensei em luz, ângulos, planos, objetivas. Queria que o rigor estético fosse de extrema importância para conferir emoção a cada imagem. Queria a marca do jornalismo presente em cada situação. Só não me lembrei: nada é mais forte que o sentimento do ser humano e suas dores.

Logo na primeira sessão de fotos, o conceito e o padrão que eu traçara caíram por terra. Perderam de longe para a realidade em frente à minha câmara. Então, pude ver que a força das lágrimas, da consternação, da tristeza e, enfim, da dor de cada pessoa eram imbatíveis.

Em nome de atingir meu objetivo (cada imagem prender a atenção de quem a ver), pensei fazer fotos em preto-e-branco. A ausência das cores poderia oferecer maior dramaticidade. Depois, refleti se deveriam ser coloridas porque os matizes dariam maior caráter de realidade ao drama presente. Mas, ao ouvir uma senhora que perdeu o filho adolescente, optei pela técnica do Photoshop que reduz a força de cada cor. E o que disse-me mãe, com palavras carregadas de consternação?

- Ao receber a notícia da morte do meu filho, perdi a noção das distâncias, a precisão dos aromas, a delícia dos sabores e a beleza das cores.

Indescritível a sensação de colocar meu ofício para a finalidade de captar a aflição no seu mais alto grau. Não deixo de me recordar do livro “Diante da dor dos outros”, da ensaísta americana Susan Sontag, falecida em 2004. A escritora faz uma densa análise do que sente um fotógrafo com a missão de captar a amargura do ser humano.

A dor de Neusa e Suse

Nessa foto, estão Suselaine Camargo e sua mãe, a senhora Neusa, moradoras de Taubaté, em São Paulo. Há dois anos a manicure Silvia – irmã de Suselaine e filha de Dona Neusa – perdeu a vida quando voltava de um evento religioso. Um motorista embriagado a atingiu com seu automóvel em alta velocidade. Silvia deixou órfãos dois filhos. O mais novo, de seis anos. O outro, de 16. E o esposo.

Suse, OrlandoBrito 6

A forte face da dor 

Grazielly Rodrigues e dois de seus quatro filhos, moradores da cidade de Itanhadu, no Sul de Minas Gerais. Sobre a mesa, o porta-retratos com a foto dos avós, seu Joaquim e dona Maria Leonor, mortos por um motorista embriagado que colidiu com a camionete em que estavam, no dia 2 de novembro de 2004.

Grazielly, OrlandoBrito pag ob

Cristina Maria e os filhos Guilherme e Gutemberg

Dois de junho de 2013, dez horas da noite, no bairro Barra de Jangada, em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Cristina Maria da Silva, de 37 anos, saia da missa na capela de Santo Antônio e ficou curiosa quando viu uma aglomeração de pessoas na esquina.

Ao chegar ao local deparou-se com a cena mais triste de sua vida: a morte do seu próprio marido.
Givanildo Geraldo da Silva era garçom de um restaurante na Praia de Boa Viagem, em Recife. Quando voltava para casa, sua moto foi abalroada por um carro em alta velocidade. Ficou em coma durante três dias, mas não resistiu. Deixou além da esposa Cristina dois filhos, de 11 e 13 anos.

Critina Maria, OrlandoBrito 66c

A dor da família Leal

Moradores da pequena cidade de Itamonte, no Sul de Minas, o senhor Newton Bernardino, suas filhas Marcelle e Leandra, e os netos Joaquim e Kauê sofrem intensamente a perda de dona Elizabeth. Ela foi atropelada por um motorista bêbado, quando fazia sua corrida matinal.

Marcelle familia, OrlandoBrito pag ob

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