Fotografia é História

Betinho, o irmão do Henfil

Betinho, OrlandoBrito 3

Hoje não sei se ainda existe, mas durante as quase duas décadas em que trabalhei na Veja, havia uma edição para a qual os fotógrafos da revista tínhamos que nos empenhar para ilustrá-la chamada “O livro do ano”. A chefia da redação elegia pessoas que se destacaram durante os doze últimos meses e as reunia numa bela publicação que ia às bancas em meados de dezembro. Com certeza, era um trabalho aguardado com ansiedade pelos leitores, pois se tratava de matérias produzidas com maior elaboração e capricho, tanto nos textos que traçavam o perfil e a história de cada personagem, quanto nas fotos estampadas geralmente em página inteira.

Quando chegava novembro, portanto, os fotógrafos recebíamos a relação de quais nomes deveriam ser retratados. Eu, particularmente, achava aquela tarefa em tanto interessante porque – trabalhando o ano inteiro com fotos nas quais não podia jamais interferir, colhidas do desenrolar dos acontecimentos – era uma oportunidade de exercer algo raro para mim, a pose. Sempre tive como regra, fazer com que a foto refletisse o perfil de cada personagem.

Em 1992, coube a mim retratar alguns desses nomes escolhidos pela revista. Um deles foi Betinho, o apelido de Herbert de Souza, personalidade importante por vários aspectos. Primeiramente por sua opinião contra o regime militar, durante o qual teve de se exilar no Chile, Canadá e México.  Só retornou ao Brasil após a Anistia de 1979. Citado pelos músicos João Bosco e Aldir Blanc na canção “O bêbado e a equilibrista”, imortalizada pela cantora Elis Regina. O sociólogo mereceu versos que diziam: “… meu Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu…”. Era figura notável e respeitada por sua participação ativa na defesa das minorias e desigualdades sociais.

Henfil, consagrado cartunista que se notabilizou no extinto jornal O Pasquim, igualmente a seu mano Betinho sofria de hemofilia. Por esta razão, ambos tinham que fazer sucessivas transfusões de sangue. E, numa delas, Herbert acabou contraindo AIDS. Faleceu em agosto de 1997, aos 62 anos.

Aproveitei a presença de Betinho no Congresso Nacional, em Brasília, para fotografá-lo. Escolhi o ambiente calmo do Salão Negro do Senado, ambiente sóbrio e com luz adequada para o retrato de um homem com seu perfil. Eu sabia de sua timidez e da aversão à badalação. Por isto, quando lhe falei do intuito daquela imagem, citei o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez: ”- A vida não é somente uma pose para fotografia”. Mas, complementei, dizendo de o quanto era importante sua presença no “Livro do ano” da revista.  Foi esse aí, enfim, o clic que fiz do lendário Betinho.

Orlando Brito

 

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