Fotografia é História

Diário da República

Ouvir e sair

A noite do Ai5, OrlandoBrito p[ag

A noite de sexta feira 13 de dezembro de 1968 ficou marcada como um dos momentos mais sombrios para a democracia brasileira, considerada uma das mais duras medidas do regime militar que governou o Brasil de 1964 a 1985. O governo do marechal Costa e Silva decretava o AI-5, que fechava o Congresso Nacional, as assembleias legislativas dos estados e as câmaras municipais de todo o País. Cassava o mandato de dezenas de parlamentares, inclusive o do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Também suspendia o direito de habeas-corpus nos processos considerados de caráter político.

O Ato Institucional Número Cinco estabelecia ainda a censura prévia à imprensa, às peças de teatro, aos livros e à música. E mais, proibia várias liberdades, entre elas a reunião dos cidadãos.

Câmara e Senado Federal só foram reabertos dez meses depois para referendar, em eleição indireta, a escolha do novo presidente da República, o general Garrastazú Médici no lugar de Costa e Silva, acometido por uma embolia cerebral. O AI-5 só foi revogado dez anos depois, quando o general Ernesto Geisel ocupava a Presidência da República e facultou o projeto de distensão democrática e reabertura política.

Como foi – Eu era um jovem fotógrafo a cobrir para O Globo os assuntos da política. Vi pela movimentação dos jornalistas veteranos que a notícia estava na Presidência da República, mas seu efeito se mostraria no Congresso. Atravessei o Eixo Monumental N-1, a avenida que separa o Planalto da Câmara dos Deputados e Senado Federal. No Palácio não havia nenhuma foto a ser feita, a não ser a de um contínuo aborrecido distribuindo aos repórteres as cópias do tal decreto presidencial.

Ao chegar ao Congresso, constatei que eu estava certo. Numa salinha do térreo – próxima ao plenário e abarrotada de senhores atônitos, cabisbaixos, em silêncio – consegui fotografar alguns parlamentares de ouvidos atentos a um rádio de pilhas. Chegava pelo ar a intervenção na Constituição anunciada pelo então ministro da Justiça, Gama e Silva.

Entre eles estavam os presidentes da Câmara, da Comissão de Justiça e o líder do governo, Zezinho Bonifácio, Djalma Marinho e Geraldo Freyre, além de jornalistas e alguns funcionários. Ao fim da audição radiofônica, todos tiveram de abandonar o edifício do Congresso.

Nem sei como consegui estar naquele cenário em um momento tão cheio de “não pode”. É verdade que as fotos não são nenhum exemplo de capricho estético. Mas retratam esse momento dramático da história. Ainda assim, apesar do caráter documental que elas contêm, nenhuma delas pode ser publicada. A censura já estava em vigor.

Orlando Brito

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