Continente

A ilha

A Ilha, OrlandoBrito 66 copia

Toda imagem representa algo, comunica uma idéia, tem alguma coisa a dizer.

Como foi – Dia desses, enquanto meu avião não decolava e ainda estava autorizado o uso de notebooks e tablets antes do vôo, resolvi fazer um giro pela Internet, preencher o atraso no aeroporto com algo produtivo. Acabei parando numa página da WWW que recordava um trecho da obra do poeta inglês John Donne, do século dezesseis. Sua poesia inspirou o escritor Ernest Hemingway, quando escreveu o livro “Por Quem os Sinos Dobram”:

- Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é uma parte do continente, parte do todo.

Três ou quatro horas depois, eu estava caminhando na orla de João Pessoa observando a beleza do Atlântico na Paraíba e com a citação que lera pouco antes fixa em minha memória. Foi quando me deparei com essa cena aí, o gordinho solitário isolado e absorto na pequena piscina cercada de pedras que maré baixa construiu. Enquanto fazia a foto, sorria satisfeito com a coincidência do que estava vendo com os escritos da literatura.

Orlando Brito

Mato Grosso

Krain-a-kore

Krain a kore, OrlandoBrito 66

Pequeno índio da etnia krain-a-kore, que habitava as margens do rio Peixoto de Azevedo, no coração de Mato Grosso.

 

Como foi – Nos idos dos anos 1970, O Globo tinha os olhos voltados não somente para os fatos da política, dos acontecimentos cariocas e das notícias internacionais, mas também para a questão indígena. O jornal destacou o repórter Etevaldo Dias e o fotógrafo Pedro Martinelli para cobrir a caminhada da expedição chefiada pelos irmãos Orlando e Cláudio Villas-Boas.

Os jornalistas ficaram na selva por quase um ano, a região onde foi construída a rodovia Cuiabá-Santarém. Uma epopéia traduzida em notáveis reportagens. Depois de sua volta, coube-me retornar às terras dos chamados índios gigantes, antes de serem transferidos para o Parque do Xingu. Na primeira viagem que fiz, tirei essa foto desse menino. Em torno de noventa dias depois, regressei à aldeia. O garoto havia falecido picado por uma cobra.

Orlando Brito

Morte e vida

João Cabral de Mello Neto

JoaoCabral, OrlandoBrito pag

João Cabral de Mello Neto gostava de dizer: “a diplomacia me fez sair de Pernambuco, mas a poesia jamais me tirou de Pernambuco”.

Tinha razões para isso. Logo após completar 20 anos deixou Recife, onde nasceu, para entrar no Itamarati, no Rio. Correu o mundo representando o Brasil durante a brilhante carreira de quase cinco décadas como diplomata. Foi cônsul, conselheiro, adido, embaixador. Só na Espanha serviu por cinco vezes. Trabalhou na Inglaterra, na França, Senegal, Paraguai, Suíça, Portugal e Equador.

Mas sempre ligado na literatura, com a inspiração que trouxe da infância nos engenhos de açúcar do nordeste. Publicou 17 livros com poesias de extremo rigor estético e que acabou determinando novo estilo de rimas e versos. O mais comemorado, “Morte e Vida Severina”, de 1966, relata o sofrimento de um pobre sertanejo que migra da caatinga para o litoral. Virou peça teatral de sucesso, com argumento musical de Chico Buarque de Holanda. João Cabral imortal da Academia Brasileira de Letras e primo de dois outros expoentes da cultura, Manuel Bandeira e Gilberto Freyre, mais velhos que ele. Entre as tantas homenagens que recebeu está o Prêmio Camões.

Em 1990, obedecendo à lei que impõe aposentadoria aos “setentões”, voltou para seu apartamento na Praia do Flamengo. Morreu nove anos depois. Manteve, porém, a tradição pernambucana que o acompanhou por onde andou, a de tomar uma pinginha antes do almoço.

Orlando Brito

(Do livro “Senhoras e Senhores”, de 1992)

Além do Poder

Cena obscura

Cena Obscura, OrlandoBrito pag

1966. Na chuvosa manhã de agosto, soldados do Batalhão da Guarda Presidencial hasteiam a bandeira do Brasil no mastro do Palácio do Planalto. Era uma mesma cena se repetia desde 1964.

O golpe militar que tirou do poder o então presidente da República João Goulart completou 49 anos no domingo passado, 31 de março. Jango foi substituído pelo marechal Castello Branco. Depois de Castello, houve uma sucessão de generais a comandar o País: Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo.

Houve também uma junta militar, que governou de setembro a outubro de 1969, com o afastamento de Costa e Silva. Com a Revolução de 1964, o Brasil viria mergulhar, durante 21 anos, num clima de ditadura, com o fechamento do Congresso Nacional, censura è imprensa e às obras de arte, cassação de mandatos parlamentares, proibição de manifestações públicas e prisão de pessoas consideradas contrárias ao regime.

Depois de um longo processo de distensão política – iniciado no governo Geisel e concluído na gestão de Figueiredo –, o Planalto voltaria às mãos de presidentes civis, com a eleição de Tancredo Neves, em 1985.

 

Como foi – Muitas vezes uma fotografia vai além da função de simplesmente ilustrar matérias publicadas no jornal do dia seguinte, no blog de daqui um minuto ou na revista da próxima semana. Ao invés de registrar momentos que “morrem” no jornalismo, o fotógrafo produz documento para a história. Essa imagem, por exemplo, bem condiz com a afirmação.

Eu era ainda um menino, mas já cobria a Presidência da República, para o jornal Última Hora, importante matutino carioca que não existe mais, de propriedade de Samuel Wainer. Diariamente eu via a rotina dos soldados hasteando a bandeira do Brasil, coisa que acontece toda vez que os presidentes chegam ao Palácio.

Naquele dia, porém, o céu nublado contrastava com a posição do pelotão e compunha essa imagem que reflete o período sombrio que o Brasil vivia.

OrlandoBrito

Interiores

Bem Brasil

Bem Brasil, OrlandoBrito pag

Casal de sertanejos. Seu José e Dona Maria moram na beira numa estrada secundária que vai de Pernambuco à Paraíba.

Como foi – Viajando pelo interior~saesmo sendo muito simplesinhas, s gente encontra cenas que  o cigarro de fumo de rolo. Bem Brasil. o marido. Chapstado, a gente encontra cenas que, mesmo simplesinhas, são a “cara” do país. Essa aí talvez seja uma delas. Na região de São José do Egito, parei o automóvel para saber se estava no caminho certo para chegar a Monteiro. Depois de ouvir a direção correta, aceitei o cafezinho passado no coador de pano. Descalça dentro do casebre de piso de terra, a dona da casa trabalhava na máquina de costura. Uma Vigorelli a pedal. Cozia panos de prato.

O marido, debaixo do chapéu de palha, fazia a sesta na cadeira de balanço pitando cigarro de fumo de rolo. Na parede de barro batido e pintada a cal, uma foto emoldurada do Padre Cícero e um calendário com a imagem de São Francisco. No fundo, ao rés do chão, acho que era um rádio de bateria. Bem Brasil.

Orlando Brito

Movimento

Caminhando e cantando

Caminhando e cantando, OrlandoBrito pag

1969. Em frente Congresso, populares fazem manifestação contra o governo. O presidente Costa e Silva, segundo presidente do regime militar, é acometido por uma embolia cerebral. Impossibilitado de governar, teve de ser afastado. Seu vice, Pedro Aleixo, era civil e foi descartado para substituí-lo. Em seu lugar, assumia o poder uma junta militar – composta pelo general Lira Tavares, pelo almirante Augusto Rademaker e pelo brigadeiro Márcio de Sousa e Melo.

Como foi – “Caminhando”, de autoria do compositor pernambucano Geraldo Vandré, é uma das músicas brasileiras de maior simbolismo. Ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção, promovido pela TV-Rio, em 1968. Mas logo em seguida, teve sua execução proibida, durante os tempos brabos da censura, sob a alegação de que incitava a população à resistência contra regime vigente. Ainda assim, virou hino dos chamados anos de chumbo no Brasil.

A canção de Geraldo Vandré era cantada sempre nas manifestações políticas. Uma dessas ocasiões foi essa aí da foto, que fiz ao passar pelo Congresso: cerca de duas mil pessoas ocuparam a praça em frente à cúpula da Câmara em protesto contra a subida da junta militar. Mãos levantadas e folhetos impressos com a letra, entoavam “Prá Dizer Que Não Falei de Flores”, o outro título da música à época proibida de ser executada nos rádios, nas tevês ou em recintos públicos.

OrlandoBrito

Mãe Terra

“Terra Mater”

Terra Mater, OrlandoBrito pag essa

Esta é uma das 211 fotos constantes do livro “Corpo e Alma”, publicado em 2004. Uma viagem em preto-e-branco pelos 27 estados do Brasil.

 Como foi – Um dia fui fotografar o pintor gaúcho Iberê Camargo, em Porto Alegre. No meio da sessão, o telefone tocou. Gentilmente, pediu-me licença e atendeu. Não sei quem era. Mas o ouvi dizer ao interlocutor uma frase que tomei como lição: - o depois não existe, especialmente quando se lida com imagens.

Oito anos nos depois, em 1999, eu estava no litoral do Ceará fazendo uma reportagem sobre vacinação. Preocupado em não atrasar a equipe de Ministério da Saúde, deixei para fazer depois uma fotografia que viria martelar minha memória durante um mês. Um menino brincando na praia, em total interação com a natureza. Cumprida a pauta, não retornamos mais ao mesmo lugar. Voltei para casa com a horrível sensação de haver perdido uma cena irrecuperável.

A TransBrasil tinha um vôo que saia de Brasília por volta da meia noite e, depois de uma ou duas escalas, pousava em Fortaleza antes nascer do sol. Para me livrar do fantasma da foto perdida, embarquei para o Ceará. Aluguei um automóvel no aeroporto e ainda de manhãzinha estava em Beberibe. Estacionei no mesmo lugar, o paredão da Praia das Fontes. Tal e qual um mês antes, lá estava o menino em seu divertimento rotineiro. Ajudado pela irmã menor que ele, construía pequenos montes de areia e depois observava a orelha das ondas desfazê-los.

Por fim, correu em direção aos arrecifes. Encolhido, deitou-se em uma das poças de água. Aqueles laguinhos miúdos e rasos que se formam quando a maré baixa. Tal e qual eu vira quatro semanas antes. De onde eu estava, sobre o mesmíssimo balcão de falésias, pude enfim fazer a fotografia que deixei para depois, contrariando ao que dissera mestre Iberê Camargo. De volta, no avião, impressionado com a imagem do garoto em forma de embrião, resolvi dar um nome à foto. Terra Mater.

Orlando Brito