Seu Lunga

Pura delicadeza

Seu Lunga, OrlandoBrito

Joaquim dos Santos Rodrigues, ou melhor, Seu Lunga, era um dos personagens mais conhecidos de Juazeiro do Norte, no Ceará, terra do Padre Cícero. Vez por outra estava na telinha da tevê e na página dos jornais como exemplo de homem impaciente, direto, mal-humorado, irônico… e chato. Mas que, ao mesmo tempo, detestava o óbvio e a falta de sinceridade. Tinha resposta na ponta da língua para todas as perguntas, fossem elas de qualquer natureza. Adorava opinar sobre tudo, do comportamento animal à direção do vento, da falta de chuva aos destinos da política.

Muita gente, aliás, pensa que Seu Lunga jamais existiu, era somente lenda criada por algum escritor ou publicitário. Mas existiu sim. Poeta, cordelista, violeiro, repentista e comerciante conhecido em todo o Vale do Cariri. Bastante se lamentou sua morte, em novembro de 2014, aos 87 anos. Lunga era esse aí na foto, a respeito de quem contam-se muitas histórias.

Como foi – Eu mesmo o conheci e pude retrata-lo em duas ocasiões. Na segunda delas, em companhia do amigo fotógrafo Evandro Teixeira, aproveitei o intervalo de um trabalho que fomos fazer em Juazeiro para uma visita ao nosso tão polêmico personagem. Seu Lunga era proprietário de uma lojinha de quinquilharias no centro da cidade. Vendia todo e variado tipo de sucata: pneu velho, tapete puído, sapato furado, prego torto, parafuso enferrujado, faca cega, chuveiro queimado, rádio quebrado, saco sem fundo, cortina rasgada, mala sem alça e, enfim, toda parafernália que alguém possa imaginar.

Paramos para uma breve conversa e Evandro, educadamente, mas com sua costumeira dose de malícia, cumprimentou-o indagando:

- Como o senhor vai, seu Lunga?

E repare na resposta franca e direta que nosso interlocutor sempre dava a quem lhe fazia a mesma pergunta:

- Vou andando no chão, meu caro. Ainda não aprendi a voar!

Jeito provocativo, o amigo Evandro foi em frente. Ao vê-lo organizando numa bandeja sobre os joelhos uma infinidade de pecinhas de ferro, mandou:

- Trabalhando, Seu Lunga?

E a nova resposta:

- Não, “tô” botando esses parafusos para dormir!

E olha que seu Lunga estava em dia de bom-humor.

Isolamento

1968

Congresso fechado, OrlandoBrito 66
1968. O Congresso Nacional é fechado pelo Ato Institucional número 5, que permitiu ao então presidente do Brasil, marechal Arthur da Costa e Silva cassar mandatos de parlamentares, proibir o direito de as pessoas se reunirem e estabeleceu a censura.

Como foi – Com o fechamento do Congresso os jornalistas que cobríamos os assuntos da política na Câmara dos Deputados e Senado Federal tivemos de concentrar nossa presença no Palácio Planalto. E, também, nas notícias de outras áreas.

Um belo dia a redação do Globo, jornal mandou-me ilustrar uma reportagem com sobre as novas que estavam sendo construídas mansões do Lago Sul, bairro de classe A na Capital do País.

Foi de lá que reparei nessa cena aí, que bem representava o momento que a Nação vivia: o Parlamento isolado, como uma nave perdida no vasto espaço do Planalto Central.

OrlandoBrito

Xingu

 Krain-a-kore 

Krain a kore, OrlandoBrito 66

Pequeno índio da etnia krain-a-kore, que habitava as margens do rio Peixoto de Azevedo, no coração de Mato Grosso.

 Como foi – Nos idos dos anos 1970, O Globo tinha os olhos voltados não somente para os fatos da política, dos acontecimentos cariocas e das notícias internacionais, mas também para a questão indígena. O jornal destacou o repórter Etevaldo Dias e o fotógrafo Pedro Martinelli para cobrir a caminhada da expedição chefiada pelos irmãos Orlando e Cláudio Villas-Boas.

 Os jornalistas ficaram na selva por quase um ano, a região onde foi construída a rodovia Cuiabá-Santarém. Uma epopéia traduzida em notáveis reportagens. Depois de sua volta, coube-me retornar às terras dos chamados índios gigantes, antes de serem transferidos para o Parque do Xingu. Na primeira viagem que fiz, tirei essa foto desse menino. Em torno de noventa dias depois, regressei à aldeia. O garoto havia falecido picado por uma cobra.

Além do Poder

Caminhando e cantando

Caminhando e cantando, OrlandoBrito 6

1969. Em frente Congresso, populares fazem manifestação contra o governo. O presidente Costa e Silva, segundo presidente do regime militar, é acometido por uma embolia cerebral. Impossibilitado de governar, teve de ser afastado. Seu vice, Pedro Aleixo, era civil e foi descartado para substituí-lo. Em seu lugar, assumia o poder uma junta militar – composta pelo general Lira Tavares, pelo almirante Augusto Rademaker e pelo brigadeiro Márcio de Sousa e Melo.

Como foi – “Caminhando”, de autoria do compositor pernambucano Geraldo Vandré, é uma das músicas brasileiras de maior simbolismo. Ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção, promovido pela TV-Rio, em 1968. Mas logo em seguida, teve sua execução proibida, durante os tempos brabos da censura, sob a alegação de que incitava a população à resistência contra regime vigente. Ainda assim, virou hino dos chamados anos de chumbo no Brasil.

 

A canção de Geraldo Vandré era cantada sempre nas manifestações políticas. Uma dessas ocasiões foi essa aí da foto, que fiz ao passar pelo Congresso: cerca de duas mil pessoas ocuparam a praça em frente à cúpula da Câmara em protesto contra a subida da junta militar. Mãos levantadas e folhetos impressos com a letra, entoavam “Prá Dizer Que Não Falei de Flores”, o outro título da música à época proibida de ser executada nos rádios, nas tevês ou em recintos públicos.

OrlandoBrito

Cervantes

Protestos, protestos

Protestos, protestos, 66

Manifestação de mutuários da casa própria, em frente ao Congresso Nacional.

Como foi – Os habitantes das capitais administrativas de todo o mundo convivem com manifestações de vários setores da sociedade. Também é assim em Brasília, onde praticamente todos os dias a Praça dos Três Poderes é cenário de manifestações dos mais variados os tipos.

São, por exemplo, passeatas de motoristas de ônibus que reivindicam melhores condições de trabalho, funcionários querendo aumento de salários, professores sonhando com reajuste de horários, sem-terra batalhando pela reforma agrária, pacifistas bradando contra a violência etc. etc.

Essa aí aconteceu na tarde da última tarde de quina-feira, emoldurada pelo belo pôr do sol. Empunhando suas bandeiras, lembra o magnífico filme “O Incrível Exército de Brancaleone”, dirigido pelo cineasta Mário Monicelli e estrelado por Vittorio Gassman, que relata com bom humor a caminhada de um grupo de críticos cidadãos contra os governantes na Idade Média.

OrlandoBrito

Direto da França

A indiferenca, OrlandoBrito 6

A Indiferença

Loja da Louis Vuitton, em Paris.

Como foi – Há pessoas que não conseguem se concentrar em leitura de livro durante vôos duradouros. Sou uma dessas. Prefiro ler amenidades. Viajava para a Europa e li na revista distribuída no avião uma matéria com uma socialite. Ela afirmava que o charme tem endereço certo. Aliás, alguns endereços: a Via dei Condotti, em Roma, onde ficam as marcas mais finas da Itália, e a Quinta Avenida, em Nova Iorque, casa das grifes mais importantes do planeta. Ela, porém, não deixou de classificar a sede parisiense da Louis Vuitton, que oferece novidades consideradas chiques. De passagem pela capital francesa, fiz uma foto da loja a que se referia a famosa entrevistada. Lá, os últimos lançamentos têm preços inalcançáveis para as pessoas de carteiras menos endinheiradas.

Orlando Brito

A negra máscara

Zé Kéti

ZeKety, OrlandoBrito 66

José Flores de Jesus, aliás, Zé Kéti, um dos sambistas mais celebrados do Brasil, não teve um fim de vida confortável. Em sua vasta obra musical estão preciosidades como “Acender as Velas”, “Máscara Negra”, “Diz Que Fui Por Aí”, “A Voz do Morro” e “Opinião”, samba que deu nome ao memorável show do Teatro Opinião em 1964. Morreu de falência múltipla dos órgãos, em 1999, aos 78 anos.

Como foi – Pois é… Autor de sucessos inesquecíveis viu diminuir as chances de trabalhar nas noites cariocas. Estive com Zé Kéti em 1991. Fui fotografá-lo para o livro “Senhoras e Senhores”, parte de uma bolsa que ganhei da Fundação VItae. Foi Em 1991, quando ele decidiu mudar-se para São Paulo. Morava de favor no quartinho de um minúsculo apartamento da Rua Augusta, cedido por uma amiga que batalhava até a madrugada. Durante o dia, estendia na cama o paletó xadrez para desamarrotá-lo enquanto lustrava os sapatos. Por volta da meia noite saía para os botequins da Boca do Lixo, onde cantava para os boêmios as músicas que compôs, em troca da sobrevivência.

Orlando Brito.

O pianista

Orlando Brito, Moreira Lima 6

Arthur Moreira Lima

Arthur Moreira Lima sempre teve a preocupação de colaborar para a preservação ddas raízes culturais do povo brasileiro. E o faz à sua maneira. Desenvolveu o projeto de percorrer os sertões do país com um piano a bordo de um caminhão, levando ao interior as peças musicais de Mozart, Chopin, Villa-Lobos, Ernesto Nazaré e demais compositores clássicos.

Era um sonho antigo que Arthur decidiu concretizar depois de fazer em Brasília uma apresentação na festa do Sete de Setembro de 1999. Ficou surpreso com a presença de mais de três mil pessoas de variadas origens que foram ouvi-lo bem cedinho, ao nascer do sol da Capital. Uma pequena montanha – na verdade, a pista de decolagem de aviõezinhos ultraleves – foi improvisada como palco de um show em que o pianista carioca começou tocando o Hino Nacional, enquanto a bandeira era hasteada por soldados em trajes de gala.

Como foi – É uma receita técnica, mas para aquele que deseja fazer boas fotos, ainda que seja amador, dominar a técnica é essencial.

Em algumas situações, a adversidade da iluminação pode tornar-se aliada na hora do clic. É um artifício que o fotógrafo utiliza para fugir da má condição de luz. Em alguns casos dá certo, noutros não. Isto acontece quando a claridade do fundo é muito maior que iluminação dos elementos em primeiro plano. Para forçar a obtenção desse resultado, diminui-se ainda mais a abertura da objetiva, inibindo a captação de detalhes da cena.

O contra-luz proporciona esse visual chamativo e atraente. Mas é só isso. Tem mais forma e menos conteúdo. É pobre em informação. Bonito, e nada mais. Faça um teste. Tenho certeza: na quinta fotografia de silhuetas que você observar, sentirá falta dos detalhes.

OrlandoBrito